A Better Man


Podes ler a fanfic, no geral, com If Were a Boy ou com a música indicada em cada capítulo <3 Deixa fluir…

Sinopse: Kimberly e Adam são amigos desde a pré-adolescência e contudo ocultavam os sentimentos que nutriam um pelo outro pelo medo de perder a amizade. Foram completamente inseparáveis até as suas ambições e escolhas os levarem a caminhos separados e totalmente diferentes.

Só que seria o destino ou as escolhas tão cruéis para eles? Longe disso. A seu tempo, um reencontro seria inevitável e tudo o que tinha sido escondido por anos viria à tona com a maior força e naturalidade.

Personagens:
Kimberly Magossi Lively, Kim ou Lively para os amigos, tem vinte e três anos e vive no Arizona, embora seja natural de Nova Iorque. É hacker, embora o seu sonho seja trabalhar como escritora numa revista. É uma garota lutadora, sorridente, calma e amável. É a melhor amiga de Adam desde os seus doze anos. Adora Adam, mesmo tendo o humor de um idoso. Na maioria das vezes age com o coração e guarda demasiadas vezes o que sente.

Adam Owen Stalteri, Adam ou Stalteri para os amigos, tem vinte e quatro anos e vive no Arizona, embora tenha nascido em Nevada e crescido em Nova Iorque. Cursou Criminologia durante quatro anos no Arizona State University. Conheceu Kimberly com treze anos, tendo-se separado dela aos dezoito anos. Embora seja um idiota, praticamente o tempo todo, consegue ser a melhor pessoa para quem ama.

Luke Stone ou simplesmente Luke, tem trinta e um anos e cresceu e vive no Arizona. Trabalha na polícia de Arizona, sendo colega de Adam. Luke é agressivo e rude, tendo inveja do trabalho de Adam e da sua melhor amiga. Stone é pior do que aparenta ser.

Kennedy Somerhalder ou Kennedy, tem vinte e quatro anos e vive no Arizona desde que nasceu. É colega e melhor amigo de Adam, ficará amigo próximo de Kimberly. Kennedy é o amigo para todas as ocasiões.

Lyane Magossi Piovani, tem vinte e oito anos e vive no Arizona. É a melhor amiga de Kimberly, a qual sempre a ajudou, inclusive a que a ajudou a se livrar das drogas e da prostituição, sendo hoje uma renomeada empresária. A personagem é mais referida na terceira pessoa, contactando na maioria das vezes pelo telefone com Kimberly. Lyane é o caso em que tu precisas conhecê-la para saber quem ela é de verdade.


Outros personagens poucos frequentes, podendo até nem aparecer serão a equipa de Adam, os familiares e outros amigos dos protagonistas.



First Chapter
Oh! She’s My Best Friend!
Publicado em: 25/04/2016


My best friend
The one that I love until the end
You are my best friend
The realest in the world we don't have to pretend
You're my best friend
The one that I love until the end
You are my best friend
You and me against the world and we don't have to pretend
‒ Richie Campbell in Best Friend

Em tanto tempo de história e no tanto tempo em que já lá morava, Arizona não tinha mudado nada num espaço de dois anos. Dois anos inteiramente dedicados à Polícia de Arizona, sem tirar nem por.
Adam Stalteri era, diga-se de passagem, a má-disposição em pessoa, vinte e quatro anos com disposição de setenta. Após quatro anos de estudos sobre Criminologia na Arizona State University e uma vaga de sorte na Polícia de Arizona fizeram uma terrível diferença.
Aqueles quatro anos foram divididos em duas fases: a fase boa e excelente, do primeiro à metade do segundo ano, e a fase terrível e horrível, da metade do segundo ano até ao seu quarto ano. O incrível dos primeiros anos foi destroçado pela impaciência e talvez a coincidência de a universidade, tal como todo o percurso escolar, se assemelhar aos Hunger Games.
Se havia alguma coisa de bom? Claro que havia uma imensidade de coisas boas, apenas era preciso que Adam se desse conta.
Todas as manhãs era a mesma coisa. Acordar cedo, qualquer pessoa acharia falta de juízo se ele se pronunciasse sobre isso, sair da cama a arrastar os pés, o que provocava um tremendo som de espírito sem alma, porém ele estava pouco se fudendo para isso, ele não vivia com ninguém! As suas contas eram divididas entre ele e ele mesmo.
Na Polícia de Arizona, trabalhava como polícia forense desde a sua saída da Universidade, como já tinha sido referido. A sua família tinha uma forte ligação com a polícia de Arizona há bastante tempo, sem referir décadas. O que começou com um estágio prolongou-se para um trabalho.
Adam é excelente naquilo que exerce, pertencendo a uma excelente equipa com pessoas variadíssimas. Mesmo sendo assim, ele possuía amigos, eram como uma família. Se alguém desconhecido se sentasse com eles ao almoço, ficaria sem perceber o que se decorria. No ar familiar decorriam alcunhas esquisitas, falavam sobre momentos embaraçosos, coisas de família, propriamente ditas.
− Finalmente, a donzela chegou! – Kennedy atirou os braços ao ar como se agradecesse a Deus pela chegada do amigo. O rapaz segurava uma pasta com algumas folhas que esvoaçaram no ar, pôde sentir o olhar de Adam a queimá-lo no peito. A pasta era sobre um processo recente onde Adam tinha trabalhado arduamente organizando tudo por tim-tim. – Calma! Eu apanho! – Kennedy dobrou-se sobre o chão castanho-escuro.
− É o teu remédio. – Olhou para o pequeno copo de café quente e pode ver que não havia mais nada nele. Tinha a sua mão esquerda no seu bolso esquerdo, enquanto o seu braço direito segurava uma outra pasta debaixo e na mão o copo que agora era amassado.
− Ainda bem que aqui estão! Preciso que alguém interrogue a garota na sala duzentos e cinco! – Lucille O’Hara, a chefe do departamento bateu com uma das quinhentas pastas bege que eles viam por dia. Lucille, apesar dos seus preciosos quarenta e oito anos, bateu fortemente com os seus saltos de catorze centímetros.
− Que bicho lhe mordeu?! – Kennedy olhou para trás sem intender o porquê de bater a pasta fortemente na mesa onde se apoiava.
− Qual deles?! – Adam riu e Kennedy acompanhou-o ao perceber ao que se referia.

Thursday, 08:00 a.m. Arizona Police, Arizona
Adam e Kennedy encontravam-se atrás do grande vidro. Kennedy falava algumas coisas sobre o que cada gesto da mulher que era interrogada por Luke Stone significava. Ele tinha que admitir, apesar das ideias idiotas e pouco convencionais, Kennedy tinha uma excelente capacidade para aqueles casos e para os processos que tinham em mãos.
Luke não era muito rígido com pessoas que hackeavam e não colocavam ninguém em risco. Ele era mais rígido com pessoas que hackeavam e colocavam outras em perigo ou sites de bancos ou de outras grandes identidades. Embora que isso não significasse que não fosse agressivo.
Adam teve um déjà vu, como se aquela garota lhe fosse familiar. Aquela garota usava algo como uma blusa vermelha xadrez. O seu cabelo era preto com franja lateral. O seu rosto, a peça mais familiar, parecia perfeitamente limpo para as oitp da manhã que agora se davam, embora houvesse um traço preto à volta dos seus olhos decorados com pestanas volumosas.
Adam bateu na sua testa, a pasta com as suas informações estava com Luke. Kennedy olhou-o um pouco assustado pelo seu gesto. Rapidamente se moveu do lado de Somerhalder e bateu no vidro chamando a atenção de Luke. A garota tinha batido com os punhos em cima da mesa e rapidamente estremeceu pelo barulho.
Ela ficou sozinha, Luke olhou-a de lado. Porque é que ele pareceu com raiva? Entrou na salinha onde Adam e Kennedy estavam, era uma sala muito pouco acolhedora, duas luzes que mais pareciam de presença, para não falar que uma estava a funcionar muito mal, paredes de azulejo branco e chão cinzento, Kennedy já tinha confessado que conseguia ouvir gritos de agonia pela comodidade transmitida pela sala.
− O que se passa desta vez?! – Luke falou com agressividade, a sua raiva permaneceu no seu olhar distante, o que é que aquela garota lhe tinha dito?
− Eu vou interrogá-la. – Adam foi curto e direto, respondendo no mesmo tom frio de Luke. O homem de cabelos castanhos olhou Adam passar por ele. Kennedy queria rir para caralho daquela situação, mas como Luke fervia em pouca água, não, achou que um murro no estômago em plena manhã, não, não seria uma ideia boa de todo.
Adam fechou a porta com alguma força e abriu, seguidamente, a outra porta da sala do interrogatório.
A garota continuou de cabeça baixa, Adam sentou-se pela metade na mesa, pegou na pasta e começou a ler na metade o seu processo. Pôde ouvir um bufo pesado e descontente.
− Então? Não sabias que dava cadeia tentar hackear perfis e sites de outras pessoas? – Riu fraco e tossiu, como se livrasse da piada. O seu processo era um pouco normal para uma hacker. – Sorte a tua que eu tenho uma ideia em mente que pode ser infalível. – Conseguiu ouvir um “O quê?” pronunciado. – Conseguiste colocar o senhor anterior a ferver, se fosse eu, bem, eu conseguiria, mas levaria um soco ou um murro no estômago.
− Okay! Isto é o quê? Alguma piada? Eu já disse! Havia aquele maldito blogueiro a tentar publicar coisas sobre a minha família. Coisas que poderiam levar à rutura mental do meu pai. Aquele filho da p… − fez uma pausa, o que causou um clima tenso – Aquele filho da mãe.
Stalteri pôde reconhecer, havia alguma coisa naquela voz que era familiar, familiar demais. Não respondeu e folheou stressadamente o processo, nunca via o nome da pessoa em caso. Passou os olhos nas primeiras linhas sobre a pessoa. Kimberly Magossi Lively.
Aquele nome foi uma injeção de pura realidade, estava a interrogar a sua melhor amiga de adolescência, aquela com que se dera sempre bem desde os seus treze anos. Aquela que o deteve de pintar o cabelo numa cor louca ou furar um mamilo, já que as suas ideias nunca foram boas.
− Kimberly? – Adam clareou a sua voz pesada. Girou o seu corpo tal como a garota levantou a cabeça. As suas expectativas confirmaram-se, era ela. A garota pela qual tinha segredos.
− Adam?! – Kimberly surpreendeu-se. Fazia tanto tempo desde a última vez que o vira, talvez há dois ou três anos e meio. Era bom ver o garoto que a fez sonhar.

Afinal, ele começava a ver o que Arizona tinha para lhe mostrar.



Second Chapter
How We Meet
Publicado em: 09/05/2016



From the way you smile

To the way you look

You capture me

Unlike no other

From the first hello

Yeah, that's all it took

And certainly

We had each other

‒ Nathan Sykes in Over And Over Again

− Há quanto tempo! Bom, não nos podemos abraçar, por isso é melhor continuarmos a falar calmamente. – Adam riu. – Sabes como é, trabalhar na polícia tem as suas proibições.
− Deve ter mesmo. Já faz um tempo, dois, três? – Kimberly deu um sorriso tímido e logo baixou a sua cabeça como fazia quando ambos tinham treze anos. Bons tempos… − Já agora, qual era a ideia de génio? Espera – levantou a sua mão – era apenas bluff para confessar algum podre, correto?
− O quê? – Adam fingiu sentir-se ofendido. – Nunca faria tal coisa!
− Claro que não! – Kimberly sempre fez e faz algo que irritava profundamente Adam. Sempre foi mais uma garota entre as milhares no Mundo que não se sentia boa o suficiente. Eram raras as vezes em que ela ria e não colocava a sua mão à frente. Adam simplesmente detestava quando tapava o seu sorriso, rapidamente a tirou da frente.
O seu sorriso desvaneceu. Ficou um clima tenso durante alguns segundos, um mar de recordações pareciam intrometer-se entre eles.
− Okay, quem sabe… − Adam quebrou o clima tenso que provavelmente Kennedy estaria a comentar com Luke, tudo para que este fosse embora a bufar. – Bom, acho que será de mau tom contar-te agora. É melhor confirmar e dizer alguma coisa depois. – A garota de cabelos pretos ficou imóvel enquanto Adam saiu da sala.
Após Adam sair, pôde sorrir ao reencontrar Kimberly, não podia imaginar que Arizona podia trazer uma das melhores coisas que lhe aconteceu e a melhor pessoa que conheceu nos seus vinte e quatri anos de vida.
Cruzando o corredor, bateu à porta do gabinete de Lucille O‘Hara. Lucille era o tipo de pessoa que conseguia passar encafurnada num cubículo, tudo isto depois do seu divórcio. Se é que lhe pudemos chamar assim. Lucille e o seu ex-marido vivem a verdadeira roda-viva, ora vem ora vai.
− Lucille – entrou após ouvir a voz baixa à qual todos estavam acostumados – será que posso falar contigo sobre a garota da sala do interrogatório?
− Claro, senta-te se quiseres. – Lucille parou de escrever e juntou as mãos em cima da mesa, analisando o vazio, podia-se adivinhar que pensava sobre o seu divórcio.

Thursday, 09:45 A.M. Arizona Police, Arizona
Após alguns minutos de conversa, Adam estava de regresso à sala pavorosa de interrogatório. Lucille parecia um monstro, só que não era de todo. Ele tinha conseguido o que queria, não ver Kimberly atrás das grades por um tempo que até ele mesmo desconhecia.
− Boas! – Adam sentou-se na sua frente segurando o seu processo – Tenho uma proposta para te fazer.
− Okay, isso soa assustadoramente assustador. – Kimberly riu com a sua própria frase que ao mesmo tempo que fazia nexo era incrivelmente patética – Tudo bem, vai em frente!
− Bom, tive uma pequena troca de palavras com a Diretora do Departamento De Criminalística que falou com a Diretora Do Departamento de Criminalística Cibernética e há uma vaga como Especialista Técnica. – Kimberly arqueou as sobrancelhas em sinal de não perceber o rumo da conversa. – Eu convenci-as para que tu nos pudesses ajudar no Departamento De Criminalística Cibernética.
− O quê? – Kimberly ficou surpresa – Este caso veio parar ao Departamento errado, não foi? – Kimberly rolou os olhos e esperou que Adam desse a confirmação. Este apenas ficou surpreso por ela o saber.
− Como é que sabes?! E sim, ultimamente tem dado uma merda aqui na polícia de Arizona. Casos e processos misturados e trocados, agentes e outros em falta...
− Obrigada, pela confirmação e – Kimberly travou Adam de fazer a célebre frase de novo. – eu pesquisei antes de começar a investigar e hackear o blogueiro sem vida social. – Brincou com o anel delicado que tinha dado quando completou dezasseis anos.

− Sempre organizaste a tua festa? A festa mais especial depois dos quinze anos de cada garota? – Adam nunca percebeu o porquê de Kimberly não gostar de aniversários, especialmente os dela, e sobretudo de não festejar os tão desejados quinze anos.
− Essa piada já perdeu a graça faz tempo, Stalteri, sabes? – Kimberly bebeu um pouco mais do seu café – Não vou fazer nenhuma festa, apenas iremos cantar “Parabéns a Você”, rir ou chorar um pouco e comer um bolo, sabes, fazer essas coisas chatas de aniversários. – Agitou o seu café em sinal de entendimento à pergunta.
− A sério, só isso? Além, “iremos”?
− Caralho, Stalteri! Há três anos que nos conhecemos, conhecemos os pais de ambos e ainda achas que precisas ser convidado?
− És adorável quando estás irritada. – Adam riu enquanto a garota olhou de soslaio e deu de seguida um sorrisinho minucioso. – Porém, eu vou-te dar uma pequena prenda por agora. A outra estará à tua espera na tua casa. – Kimberly arregalou os olhos pela curiosidade.
Adam tirou dos bolsos interiores do casaco uma pequena saca de papel rosa. Assim que colocou a sua mão dentro, sentiu esferovite/isopor e um embrulho pequeno. Era dele mesmo, colocar esferovite às toneladas e um presente pequeno.
Ela olhou em dúvida para Adam, pegou no embrulho e rasgou-o cuidadosamente como sempre o fazia. Era uma pequena caixa, já se denunciava, que continha um anel com uma pequena pedra, os primeiros anos da adoração por anéis com pequenas pedras.”

− Tens o anel que te dei. Engraçado! – Adam riu por já quase mal se lembrar, porém assim que o viru, a sua mente pareceu refrescar-se.
− Nunca o tirei. Faz-me sentir que não estou sozinha, nunca…
E não estás… − Adam respondeu à frase de Kimberly, mas rapidamente mudou de assunto – Bom, ainda não me respondeste. Aceitas o trabalho?
− Claro! Embora isso implique acordar às seis horas ou outra hora qualquer e sem acesso aos meus arquivos e dispositivos. – Riu – Será ótimo trabalhar contigo, Sr. Maldisposto. Sim, eu sei que és um stressadinho. − Adam franziu as sobrancelhas como de nada soubesse e Kimberly voltou a rir. − Parece que é só o começo…
Oh como ele se lembrava daquela frase. A mesma frase que ele quase pensou no dia em que a viu pela primeira vez e que ela lhe sorriu, mesmo tendo a certeza que fora para um dos seus amigos que estavam à sua volta.

“No verão do ano de dois mil e seis ocorriam leves boatos de que uma garota se tinha mudado recentemente para a cidade. Mas quantas pessoas não se mudam para NY?! Por ano?
Havia sempre uma festa uma semana depois do último dia de aulas, entre alunos e professores. Era um ambiente familiar ou azedo. Aqui não havia o típico Liceu Americano, os estereótipos só começam quando pensamos neles. Neste liceu havia os amigos, os mais conhecidos, nunca os populares, os estranhos mas incluídos nos seus grupos, não eram os Nerds eram apenas os com as melhore notas, os bullies, os otários, entre outras pessoas que vemos no quotidiano escolar.
Uma festa sempre no mesmo lugar com variados temas, comida e música. Por fora igual, por dentro tão diferente.
Naquele ano foi uma festa delicada com um tema mais ao estilo “Campo”, após alguns anos decidiram que o celeiro receberia algo do seu estilo, o que foi muito bem aceite pelos alunos nesse ano.
Adam não era o popular, o foda, o capitão de equipa, tudo bem que ele jogava quase todos os anos em alguma equipa para algum torneio, mas não como nos filmes que iludem a mente Humana a pensar que tudo é daquela maneira, lembra-te, histórias são criadas pela mente do Homem e o Homem sempre teve a necessidade de se refugiar na sua mente e criar o que gostaria de ver.
Sempre foi um rapaz com um número considerável de amigos e amigas e nessa mesma festa estava no andar de cima do celeiro, junto às grades de madeira com outros três amigos. Ele só fazia companhia aos amigos que mais pareciam aves derrapinas a escolherem as suas presas.
Houve alguém que despertou a sua atenção, uma garota morena de cabelos pretos e sorridente que parecia rir bastante com algumas amigas. O seu copo de sabe-se lá que substância era aquela, quase ia caindo da sua mão.

Ele sorriu para com ele mesmo, esperava que ela se virasse para ele. De facto, rezar valeu a pena, a garota virou-se e sorriu de sorriso largo e pôde ver que as amigas a arrastaram sem se darem conta. Embora pensasse que fora para os amigos, Brody e Lacen já estavam a falar entre eles. Ele pensou “Parece que é só o começo”.



Third Chapter
We Are Best Friends!
Publicado em: 19/09/2016


Since you went away

dontcha know?

I sit around

with my head hangin' down

And I wonder

Who's loving you

‒ Jackson 5 in Who's Loving You

Adam sorriu e congelou na entrada da porta. O seu coração palpitou ao olhar para Kimberly, ainda continuava sentada sem se dar conta do olhar de Stalteri, aquele silêncio de dois segundos era terrível. Desejava ter algo a dizer e tinha.
− Kimberly – Adam chamou a sua atenção – lembras-te? – Kimberly não entendeu onde Adam pretendia chegar com aquela questão incompleta – Lembras-te como nos tornamos melhores amigos?
− Nós fomos melhores amigos? – Kimberly troçou de Adam, riu fracamente. – Sim, eu lembro-me. – Adam abriu a porta, Kimberly levantou-se entendendo o seu gesto. Guiou-a pelos corredores, eram verdadeiramente confusos e terroríficos, com uma cor desbotada e frios.
− Ainda bem, porque matar-te-ia se não te lembrasses. – Adam franziu as sobrancelhas. Kimberly desatou a rir pela sua expressão. Os seus olhares cruzaram-se, um sorriso pelas gargalhadas baixou para um sorriso largo e de lábios juntos.

Adam não tinha chegado a tempo de agarrar no braço dela quando chegou lá fora. As suas mãos foram automaticamente à sua cabeça. Perguntou, inclusive, às duas pessoas sentadas num carro de bois à esquerda da grande porta do estábulo.
O “não” viera em câmara lenta, um aperto no coração. Seria possível dizer-lhe com a total certeza se algum dia a viria? Se conseguiria sequer chegar perto dela um dia?
A sua única reação foi chutar a terra, as suas mãos foram à sua cabeça. Um nico de raiva subiu e manteve-se ali, desejou tanto poder ter dois dedos de conversa, apenas ouvir a sua voz ou saber como era o seu toque.”

− Não é muito difícil lembrar como nos conhecemos ou virámos melhores amigos, sabes?! – Kimberly olhou para ele e de seguida para as suas mãos. – Vou-me sempre lembrar como meteste assunto. Ah, só uma coisa, tu parecias completamente desesperado. – Kimberly socou o braço de Adam com notória força ausente.

Dia vinte de julho, um dia quente e enfadonho. Era a primeira vez que mudava de escola por causa da mudança de casa. Kimberly não era filha de um casal ou somente de pai ou mãe que viviam em constante mudança.
Tinha ido à festa de fim de ano num celeiro longe, bastante longe, da cidade e das redondezas. Quanto tempo ficou? Um quarto de hora? Aquele ambiente entre alunos de caras conhecidas não era para ela, a sua presença tresandava a novata. A sua prima, Lyane Piovani, convenceu-a a pôr lá os pés, já não era mau de todo.
Lyane mostrava-lhe parte da cidade que desconhecia, o bairro onde, agora, iria viver, estudar, crescer ainda mais e tentar talvez lavar as feridas da inexistente autoestima, fazer pelo menos quatro amigos e não ter que dizer “não” para todos os interesseiros em copiar.
− Despacha-te, Kim! – Lyane olhou para as horas, Kimberly fê-las voltar atrás para buscar o seu aparelho eletrónico, como lhe gostava de chamar. – Kim! Vamos! – Lyane gritou para dentro de casa, Kimberly não tardou a aparecer.
− Está bem! Calma, sim? – Kimberly enfiou a chave apressadamente no bolso do casaco. – A minha mãe quase o colocou na máquina de lavar e levei um raspanete, não preciso de outro. – Lyane rolou os olhos – Já agora, tenho um bolso descosido, espera, a minha mãe já o deve ter cosido.
− Vamos, porra! Ninguém quer saber disso! Nova Iorque, a parte que não conheces, está à tua espera, querida! – Lyane abriu os braços e gargalhou. – Okay, nem tanto assim. – Kimberly riu alto e apalpou o seu bolso e certificou-se de ter a chave antes de começarem a andar.


Eram já cinco minutos de caminhada e pareciam horas. Kimberly parou, colocou as mãos nos bolsos de trás das calças e Lyane explicou que ali era um “bar” para jovens entre os doze e vinte e um anos, sem qualquer tipo de álcool nas bebidas.
Acho que alguém perdeu uma chave. – Uma voz totalmente desconhecida atrás delas. – Olá? – Kimberly olhou para Lyane e apalpou os bolsos e teve um mini ataque-cardíaco.
− Puta merda. – Kimberly desabafou, rodou os calcanhares e a sua cara chocou com a de um garoto. – Oh, obrigada…
− Adam! És a nova aluna da escola, certo? – Adam enterrou as mãos nos bolsos de trás, olhou o nada e espero que aquela garota lhe respondesse, que não o ignorasse.
− A prepósito, eu sou a Kimberly, mas todos me tratam por Kim. E sim, sou… − Kimberly riu – Vens connosco? – Olhou para Lyane. Esta retribuiu o sorriso, um sorriso parvo – O que é?
− Porque não? Vão àquele bar? – Adam deu um passo em frente. Lyane riu para Kimberly, mas de forma diferente, como se quisesse dizer-lhe algo. Kimberly rolou os olhos e avançou os passos, ficando lado a lado com Adam. – Vais ver que vais gostar de viver neste lado e estudar aqui.”

− Eu não estava desesperado! – Adam abriu a porta e segurou, de modo a que Kimberly pudesse passar primeiro. – Sabes bem disso. Queres tomar alguma coisa, um café talvez?
− Claro que não estavas! – Kimberly ironizou – Sim, agradeceria depois de toda esta confusão e espera. Mal acredito que podia ter ido presa, se o meu pai sonha com isto… − A sua cara transmitia cansaço e preocupação.
− Vai correr bem, quando lhe contares, ele vai perceber. Eu conheço o Sr. Lively, mas se mesmo assim ele não gostar, chama-me, porque ele adora-me! – Adam riu da sua piada, que na verdade nem era uma piada. – Vá lá!
− Eu sei, é verdade! Mas ele já se dava bem contigo mesmo antes de saber que eras o meu melhor amigo. – Kimberly e Adam chegaram finalmente ao bar. Era, de facto, um bar bem espaçoso e bem mais aconchegante que o resto do edifício.
− Dois cafés, por favor. – Adam puxou uma das cadeiras para Kimberly que se encontrava anexada ao balcão. – Como vai o teu pai? – Adam olhou-a sério, sem brincadeiras. Ela sabia ao que se referia.
− Bem… Quer dizer, desde que ele herdou aquele maldito jornal, encontramos bastantes pessoas cruéis. Não compreendo, não compreendo porque é que aquele blogueiro coscuvilheiro quer infernizar a nossa vida se ele foi despedido antes da herdança do jornal.
− Sabes muito bem que ao hackeá-lo só ias dar mais pano para mangas, certo? – Os seus punhos suportavam a sua cabeça. Kimberly sentiu-se abraçada e tocada pelo seu olhar, a sua pergunta tinha mexido com ela. Ela sabia, mas não se lembrou que ia dar. – Não te lembras-te, pois não? – Ele riu-se. – Vê-se mesmo que amas as pessoas ao teu redor.
− O meu pai tinha razão – Adam abraçou-a de lado, o som dos pires a bater na mesa não os perturbou. – em relação a ti, darias um ótimo genro. – As suas palavras saíram disparadas e impensadas. Pegou na chávena e bebeu, sabia que Adam a olhava com cara de caso.
Sem grande notoriedade, Lucille e Kennedy tomavam o seu pequeno-almoço no mesmo lugar à mesma hora. O olhar observador de Lucille detetou Kimberly e Adam sentados lado a lado.
− Eles ainda me vão trazer problemas. – Lucille abanou a cabeça em sinal de impaciência. Agitou o café enquanto rolou os olhos.
− Eles já estão a dar problemas desde que ela entrou aqui. – Kennedy agitou o café e riu. Era a primeira vez em tanto tempo que voltava a ver a paciência e o amor genuíno com alguém.
Era engraçado ver o quão espontâneo Adam era com Kimberly, o seu mau-humor desaparecia, a sua atenção existia para ela. Não havia amizade apenas, havia mais, sempre houve. Não é possível dizer de outro modo, a sua saudade por ela, a saudade que ela despertou nele nestes últimos anos.
Enquanto ela o olhava da mesma maneira, a maneira da qual todos gostávamos de ser olhados e admirados. Todas as borboletas no seu estômago continuavam lá. Fora com ela que Adam aprendeu a rir das coisas, a rir sem ter ninguém por perto.






Fourth Chapter
I Want To Kiss You!
Publicado em: 24/04/2017

'Cause you give me something
That makes me scared, alright
This could be nothing
But I'm willing to give it a try
Please give me something
'Cause someday I might know my heart
− James Morrison in You Give Me Something

Passaram quatros meses, não tão longos como antes, não só para Adam. Lucille conseguiu “salvar” Kimberly de alguns anos na prisão, tendo pela frente apenas dois anos e meio de trabalho em colaboração com a polícia. Kimberly tinha muito a agradecer-lhe, sabia perfeitamente que à partida Adam lhe teria suplicado mundos e fundos.
Kimberly foi pressionada a telefonar à sua família por Adam. Ela segurava a mão dele enquanto o telemóvel/celular chamava, a sua mão tremia com o telefone em alta voz. O seu pai atendeu e a sua voz estava debilitada. Sempre foi assim, Adam não se lembrava de uma única vez em que o pai de Kimberly não estivesse doente. O pai de Kimberly chorou muito do outro lado, as suas palavras eram indecifráveis, mas a felicidade por saber que Kimberly estava bem era extremamente evidente.
Kimberly não se prenunciou, nunca, sobre onde dormia. Adam ofereceu a sua casa vezes sem conta, mas a cabeça teimosa dela não aceitou. Preocupava-se como sempre fez, da mesma maneira e quantidade.
A presença de Kimberly melhorou tudo, a polícia tinha uma maior e melhor atividade, agora. Apesar de nunca ter estado em campo, ainda, a sua ajuda era autêntica e quase física. Os casos que ela tinha investigado, todos aqueles documentos, fotos e áudios chocantes e carregados de sangue-frio e de vingança no seu estado mais puro. A sua mente não aguentava aquele oito-oitenta.
Adam acalmava-a sempre depois de cada reunião com a equipa, prensando-a levemente contra o seu peito e acariciando os seus cabelos negros causando-lhe sensações de nostalgia e costas até a sua respiração acalmar. O seu olhar era distante e cambaleava.
           
            Friday, 10:38 p.m. Arizona Police, Arizona
O clima era de grande festejo, depois de horas e horas de trabalho exaustivo, tanto em campo como fora dele, o caso tinha sido bem-sucedido. Alguém culpado estava agora no lugar certo, embora nenhum pertencente à equipa fosse apto para trazer as vítimas à vida.
− Bom trabalho! ¡Buen trabajo! Good job! Bon travail! Buon lavoro! – Kimberly riu e pronunciou “Bom trabalho!” em cinco línguas diferentes. Era impossível não ver o seu cansaço através de uma simples ligação via Skype e também pelas suas olheiras e cabelo mal prendido e um pouco desgrenhado.
Lucille juntou-se a Kimberly e ambas felicitaram a equipa que tinha entrado em campo. A equipa triplicou os elogios a Kimberly, embora ela negasse com a cabeça e as suas maçãs do rosto corassem e todos se rissem da sua vergonha. Kimberly nunca praticou o bem em troca de algo, aspeto que até a penalizava.
A gargalhada mais natural veio de Adam, toda a equipa notou a troca de olhares entre os dois. A maneira como todos desejavam ser olhados, ser olhados com tanto amor, compreensão e admiração que até a sua alma descansaria sempre que estivesse a ser olhada de tal forma.
Lucille e o resto da equipa sentiram-se na pele da famosa “vela”. Alguém tossiu, no jato que se aproximava de descolar, lembrando-os que não estavam a sós.
− Vamos comemorar. Certo, pessoas? – Kennedy deu uma cotovelada a Adam fazendo-o acordar do transe provocado por Kimberly – Certo?! – Kennedy fez-se sentir no jato, mais ninguém tinha coragem de despertar Adam dos seus raros transes, raros até que Kimberly reapareceu. Já todos tinham notado a melhora no seu humor.
− Ótima ideia, Somerhalder! – Lucille guinchou e abanou Kimberly. – Algum lugar em mente? – Lucille colaborou com Kennedy, mas nem a sua cotovelada nem o abraço que abanaram Kimberly eram suficientes.
− Por que não o bar novo? – Kimberly encarou Lucille atrás de si. Lucille parecia extremamente feliz naquele dia, Kimberly estaria à espera de um “não” logo como resposta à pergunta de Kennedy, e agora tinha a felicidade à flor da pele, mesmo sabendo que era um lugar onde havia álcool como certeza?
− Claro! Hoje o dia de álcool está oficialmente legalizado! – Lucille girou os calcanhares e puxou uma cadeira. Tinha planos de conversar com eles até o jato pousar. – Bom, mudando de assunto. Como vai esse lado do país?
Montreal. Montreal refrescava-lhes muitas memórias. A primeira discussão deles, dois anos antes de se separem em vidas e escolhas diferentes.

“ Os alunos do 11º ano iriam acampar em Montreal, num verdadeiro lugar destinado ao acampamento, ao verdadeiro acampamento. Num país diferente e nalgo decente, sem que houvessem depois queixas em algum tipo de reunião de pais por más condições
Adam e Kimberly estavam de “trombas” há alguns dias. Todos na turma e outros amigos, até mesmo professores, tinham notado o mau clima entre os dois. Como começou? Duas cabeças duras que faziam apostas e depois teimavam em quem tinha razão.
Era a primeira discussão e zanga, mas algo dizia a Kimberly que não ficaria por ali. Ela tentou a todo o custo ignorar os seus pressentimentos, porém na maioria das vezes eram certos e assustadoramente certos e reais. Herdou aquela capacidade da sua avó, de quem mal se lembra. Toda a sua vida conviveu com esta capacidade um tanto pouco adormecida, que a assustava desde pequena, com a qual não se conformava aos doze. Sempre acabou por se habituar com os seus sustos que a pouco a pouco foram diminuindo.
Até aos catorze experimentar ver alguém, não apenas pressentir as coisas que poderiam vir a acontecer, ver alguém que não conhecia, ficou completamente aterrorizada e traumatizada. Nunca tinha revelado a ninguém que aquela capacidade habitava em si, até ganhar coragem e abordar Adam e Lyane.
Kimberly e Adam tinham-se ignorado durante toda a manhã, desde a sua chegada às cinco da manhã até ao almoço ao meio dia. Almoçaram todos juntos e bem aconchegados entre aquela chuva e frio, a cara de maio canadense, mesmo sendo plena primavera.
Pararam de se ignorar depois do almoço, com muito esforço. Não conseguiam ficar mais de costas voltadas, a conversa entre eles tinha começado de uma forma extraordinariamente natural e fluente. Notava-se à distância que aquilo se tratava de algo estúpido e infantil.
Naquele dia, precisamente ao final da tarde, os alunos foram autorizados a ficarem nas ditas cujas “cabanas” e a passarem algum tempo entre amigos sem grandes rebaldaria e com juízo.
A curiosidade sobre o que cada um faria depois de sair do liceu foi o foco, e o foco certamente errado! Kimberly preferia ter ficado na ignorância e Adam preferia que as coisas não fossem daquela maneira.
Queriam seguir caminhos e traçar vidas diferentes. Kimberly pretendia ficar em New York e fazer um curso de letras, ficar perto daqueles que amava e tentar a sorte e trabalhar para que pudesse um dia escrever num editorial de uma revista ou até mesmo, quem sabe, ter um livro escrito por ela mesma como Best-Seller. Adam não. Adam não via assim as coisas. Adam desejava embarcar, uma vez mais, para fora do estado, talvez para Nevada ou Arizona e conseguir fazer um curso de Criminologia e ser empregue imediatamente, ser bem-sucedido quer fosse longe ou perto da família.
A conversa ficou pendente depois de ambos tirarem as suas conclusões um sobre o outro. Ambos conseguiram concluir uma coisa certa: as suas vidas não se iriam cruzar…
Kimberly ficou estática depois da sua conclusão. Ela sempre exprimiu mais os seus sentimentos, por menores que fossem, Adam não. Adam sentia com muita intensidade e nunca exprimia os seus sentimentos num décimo da sua intensidade real. Daquela vez foi diferente, envolvia Kimberly. Adam ficou estarrecido e desamparado.
A conversa e tudo mais o que os envolvia ficou pendente. Kimberly saiu do quarto dele com alguma desculpa sobre ter de voltar ao seu quarto e deixou Adam sozinho com as dúvidas e anseios sobre o futuro deles.
Durante toda a semana que permaneceram em Montreal, as conversas iam e vinham, sem graça e sem grande naturalidade. O clima tinha ficado imensamente pesado e tenso.”
           
A equipa teve um voo de quase cinco horas, de Montreal para Arizona. A equipa estava quase estagnada ao fim de três horas e meia. Lucille e Kimberly não desligaram a chamada via Skype, a equipa tinha teimado vezes sem conta para elas irem descansar um pouco.
Lucille e Kimberly já massajavam as têmporas do rosto em busca de alguma energia, elas negaram-se a descansar. No fundo tinham razão, descasar como e onde? Nos bancos distribuídos pelo edifício? Nas camas das celas com cheiro a suor de mais de cem pessoas diferentes?
Lucille acabou por adormecer ao fundo do cubículo de Kimberly, a única que trabalhava para eles com a finalidade de trabalho comunitário, num banco pequeno e que só de olhar já transmitia o desconforto que o sofá oferecia. Kimberly deitou as costas da cadeira para trás para que pudesse descansar.
A equipa não tardou a chegar, uma hora e meia depois de elas adormecerem.
Estavam todos exageradamente cansados, mas felizes e ainda com energia para aproveitarem, beberem um pouco e festejar, não por muito tempo. Uma ou duas horas seria o suficiente para conviverem depois de quatro dias longe de Lucille e Kimberly, especialmente de Kimberly.
Demoraram trinta minutos a pousarem em casa as poucas malas que levaram com eles. Tinham sido caóticos aqueles dias numa pensão qualquer em Montreal, não tiveram grandes oportunidades para escolher um hotel de luxo.
Quando chegaram ao edifício, tiveram pena de acordar Lucille e Kimberly, dormiam tranquilamente mesmo em lugares pouco desconfortáveis. Não foi necessário grande esforço para as acordar, assim que Adam e Kennedy bateram com os pés um pouco mais forte, acordaram calmamente.
Lucille acordou disposta a matar tudo e todos enquanto Kimberly estava quieta sem saber o norte das coisas, parecia estar drogada. Sentou-se direita na sua cadeira, olhou à sua volta e para Adam e depois para Kennedy. Sorriu e riu ao ver os dois.
Levantou-se com dificuldade enquanto Lucille continuava a resmungar até Kennedy lhe falar nas maravilhosas bebidas alcoólicas. Kimberly trocou o seu casaco, que ficava no cubículo tipo casaco de trabalho, e os seus sapatos por uns mais confortáveis e elegantes.

Saturday, 04:41 a.m. Cooper’s Bar, Arizona
Toda a equipa foi para o tal bar, Cooper’s Bar, festejar e aproveitar algum tempo junto um dos outros. Era difícil festejarem alguma coisa sem envolver correrias e tropeços
Lucille seguia na frente do grupo com Camila e Ben, que eram cunhados e confidentes de Lucille. Kimberly, Adam e Kennedy seguiam atrás com muitos risos e piadas, Adam sentiu um fio de ciúmes por Kimberly e Kennedy. Luke ia atrás de todos, com as mãos enterradas nos bolsos do seu casaco de ganga, olhava em todas a direções com uma expressão fechada e agressiva.
Foram a pé, a caminhada e a brisa dela fê-los despertar. Enquanto lá fora estava fresco, no bar estava quente e tudo piorava graças ao calor Humano que havia em dobro. Adam mal pôs os pés dentro do bar, detestou. Detestou a ideia de tanto contacto humano que ali se podia gerar.
− Vocês estão a gozar/zoar, não? – Adam detestou com todas as suas forças o tanto de contacto físico que ali se podia dar. – Podemos ir para minha casa se quiserem, abrimos uma grade de cervejas ou uma garrafa de vinho do Porto. – Adam tentou dissuadir os colegas.
− Deixa de se desmancha-prazeres por uma hora, sim? – Kimberly pegou-lhe na mão, colapso de arrepios, tentou arrastar o corpo pesado e musculado de Adam. Kimberly desmanchou-se em risos e olhou para ele contagiando-o.
− Está bem, eu fico. – Adam obviamente que cederia a Kimberly. A Kimberly ceder-lhe-ia tudo, até mesmo a vida.
Adam tinha ficado parado perto da porta no mesmo tempo que os outros reservavam lugares numa mesa redonda que refletia as luzes do bar. O bar chegava a ser acolhedor, com discos de vinil numa parede xadrez oposta ao balcão, com quadros de Elvis Presley, Marilyn Monroe e outros e um balcão no estilo anos cinquenta.
Ao longo da noite, Lucille e Adam abusaram da bebida, principalmente Adam. Kennedy ficou num meio-termo, parou de pedir bebidas ao balcão quando sentiu o seu equilíbrio a abandonar o seu corpo. Kimberly repetiu a mesma bebida por duas ou três vezes, porque sabia como ficaria caso exagerasse. Camila e Ben beberam das bebidas mais fracas duas vezes.
Lucille e Adam partilharam exatamente uma garrafa de Vodka, sentiram os olhos opressores de Kennedy e prosseguiram, e uma dose de Absinto, cada um. Kennedy bebeu alguns copos de whisky até se aperceber do seu equilíbrio, melhor, a falta dele. Camila e Ben beberam um pouco de licor de nata e Kimberly bebeu duas garrafas de Sagres Radler com sabor de pêra de Alcobaça.
Foi um espetáculo bonito de se ver. Lucille e Adam riram a noite fora, fizeram muitas palhaçadas e contaram as piadas mais secas do conhecimento de todos. Kennedy estava sentado no canto, quieto e quase a dormir acordado. Camila e Ben observaram o espetáculo juntamento com Kimberly, a única diferença entre aqueles cunhados e Kimberly era que eles fizeram questão de os fotografar e filmar. O estado deles era lindo, gostaram de ser fotografados e filmados.
           
Saturday, 06:37 a.m. Cooper’s Bar, Arizona
− Não acham que já chega de festejar? – Ben olhou para as horas no seu relógio de pulso.
− Há muito tempo. – Camila mordiscava uma das palhinhas que Adam e Lucille tinham trazido do outro lado do bar. – Vamos levá-los como? – Camila encarou Ben.
− Pomos-lhes umas fraldas e levámo-los ao colo. – Kimberly sugeriu fazendo Camila e Ben rirem-se.
Kimberly, Camila e Ben pegaram nas suas coisas e levantaram-se. Os seus olhares atentos vaguearam pelo local à procura de Adam e Lucille. Não podiam estar muito longe.
− À nossa procura? – Adam sentou-se na cadeira. – Já estamos aqui. – Adam riu entre as palavras.
− Vão nos levar para uma cela? – Lucille fez cara de inocente. Cada vez que abriam a boca, mais uma asneira dita.
− Não minha linda, embora às vezes mo apetecesse fazer tal coisa. Mal posso esperar que lhes passe a ressaca para lhes mostrar as fotografias e vídeos. – Camila esfregou as mãos e gargalhou.
− Só aceito ir embora se for contigo! – Adam agarrou-se à cintura de Kimberly o que a fez corar e rir. – Só contigo!
Camila acordou Kennedy que dormia no canto enterrado no assento com o capuz a cobrir-lhe a cara, descalçou os saltos de Lucille e ajudou Ben a carregá-la.
Kimberly não teve muitas hipóteses. Adam insistiu, insistiu e insistiu para que fosse Kimberly a acompanhá-lo a casa. Era engraçado vê-lo daquela maneira tão descontraída e desinibida.

            Saturday, 06:44 a.m. Street, Arizona
O corpo de Adam tornava-se extremamente pesado para Kimberly o carregar. Adam tinha um dos seus braços à volta dos seus ombros para que não se desequilibrasse tanto.
Kimberly desejou ter o seu carro consigo, no Arizona, queria encolher-se na sua cama macia e acolhedora. Ao invés disso, estava em plena rua a caminho do apartamento de Adam, bêbedo, e sob ameaça de chuva. Fantástico!
− Posso olhar para ti, um bocado? Por favor? – Adam sussurrou num tom em que Kimberly pudesse ouvir perfeitamente. – Por favor?
Adam sabia que tinha culpa. Sabia também que Kimberly também tinha culpa. Ambos partilhavam a culpa de se terem separado em vidas, caminhos e escolhas diferente, mas que acabaram por os unir. Porém, Adam tinha mais culpa.
Sabia que tinha mais culpa, porque foi covarde. Covarde suficiente para nunca ter admitido que era apaixonado por Kimberly desde o primeiro sorriso. Tentou-se negar por algum tempo, até aos seus dezassete anos. Aos dezassete anos tinha a certeza que tinha uma paixão por Kimberly. Uma paixão que ia desde o seu estado mais calmo até ao seu estado mais psicótico de T.P.M.
Nunca conseguiu encontrar os aclamados vinte segundos de coragem e dizer tudo a Kimberly, nem nunca a ter beijado. Tinha medo de mostrar os seus sentimentos e de que Kimberly não compartilhasse do mesmo. Era uma tortura psicológica.
Agora, ah agora, agora seria diferente. Adam realmente não queria saber do risco que corria, de a perder. Era agora ou nada.
− O que foi? Quero ir para…− Começou a chover naquele instante, Kimberly previra aquilo. − …casa.
− Eu também, mas antes. Deixa-me fazer uma coisa.− Kimberly não percebeu qual era o rumo ou o objectivo daquela conversa, provavelmente de bêbedo.
Adam estava a ficar encharcado tal como Kimberly. Adam tirou o seu braço dos ombros de Kimberly. A pressão fê-la respirar melhor enquanto Adam tentava focar a sua visão em alguma parte do alcatrão da estrada para encontrar o equilíbrio.
Kimberly riu, riu por não saber ao que Adam pretendia chegar e, também, pelo seu estado, ao mesmo tempo que sentiu pena. Adam estava alegre, risonho e com humor digno da idade dele.
A chuva tinha ficado mais forte mas o vento estava fraco, ainda bem! Adam cambaleou para mais perto dela, ao ponto de sentir o seu calor e os batimentos cardíacos irregulares. Era o efeito dele? Ou da chuva gelada?
− Adam… − Kimberly pareceu adverte-lo. Foi e seria em vão, Adam estava mais decidido como nunca, mais decidido como nunca tinha sido.
As mãos dele estavam na cara dela, fria e molhada, enquanto as mãos dela tomavam movimentos involuntários e incertos, não sabia onde e se lhe devia pousar as mãos no corpo molhado, porém quente.
Adam avançou devagar na direção dos seus lábios, não queria assustá-la, dando-lhe tempo para se certificar do que estava prestes a acontecer, que poderia ser realmente desastroso ou não.
Adam já não aguentava mais, tinha esperado uns bons e longos sete anos. No decorrer daqueles sete anos, tinha namorado nada mais nada menos que duas raparigas, relacionamentos que duraram menos de um mês e meio. Não sabia se era a sua consciência a pesar-lhe para confessar o que sentia a Kimberly ou se era mesmo real, cada vez que as beijava ou que falava no nome delas, era como se sentisse o olhar pesado e desiludido de Kimberly queimar-lhe a nunca, ou melhor, o coração.
Kimberly gostaria de ter opiniões e ações sempre prontas e bem estruturadas, mas nunca as tinha. Gostaria de interromper aquele momento, mas sabia que seria um erro, tinha esperado por aquilo por… oito anos?! Ele era e é o seu crush de adolescência que levaria para a vida toda. Foram tantas as vezes que pensou num futuro distante, com filhos e casada, a viver a dor de ver Adam e os filhos dele com outra mulher ao lado dele, a partilhar cama e beijos. Mas tinha a certeza que acabaria divorciada com filhos dependentes ainda dele, com um ex-marido do qual se divorciara por motivos de ausência, maus tratos psicológicos e de alcoolismo e que Adam se envolve-se com ela traindo assim a sua esposa, levando ao quase divórcio que era salvo pelo afastamento de Kimberly.
Kimberly avançou na direção dos lábios de Adam. Beijou-o. Beijou-a. Beijaram-se. Adam queria morrer por ter quebrado o desejo já antigo, Kimberly queria espernear e talvez empurrar o seu peito em vão, mas de que adiantaria? Ela já tinha correspondido e ele também. Podia jurar que sorriu entre o beijo.
− Desculpa… − Adam falou com voz embargada. A chuva caia torrencialmente, digna de uma cena de filme. – Eu… −Kimberly interrompeu-o com um beijo curto, juntou a sua testa à dele e sorriu.
− Não sabes há quanto tempo estava à espera disto… − Kimberly sorriu contagiando Adam. O corpo de Kimberly abraçou o corpo de Adam enquanto a chuva escorria corpo abaixo sem os incomodar muito.


Fifth Chapter
Can I Fall In Love With You?!
Publicado em: 08/05/2017



I would call you up every saturday night
And we'd both stay out 'til the morning light
And we sang, "here we go again"
And though time goes by
I will always be
In a club with you
In nineteen seventy three
Singing "here we go again"
– James Blunt in 1973

Saturday, 10:37 a.m. Adam’s House, Arizona
Adam não teve tempo de correr as cortinas cinco dias antes, antes de reencontrar Montreal e as memórias já vagas que rapidamente ficaram claras e frescas na sua mente, não teve tempo para muita coisa, como lavar a loiça que ainda estava na pia e, muito provavelmente, dura.
As cortinas pareciam o menor dos problemas assim que desse conta da quantidade da loiça e da qualidade de sujidade, mas não era. As cortinas seriam a primeira coisa que daria conta, aqueles raios inúteis que faziam pelas dez horas da manhã.
Adam franziu a testa de olhos fechados devido ao incómodo. Queria dizer um palavrão profundamente feio que seria censurado, mesmo na vida real, e espreguiçar-se enquanto isso. O seu corpo estava quente, um calor humano, que tinha feito com que o seu braço tivesse ficado dormente.
Kimberly, era a sua Kimberly que ali estava. Estavam ambos vestidos, não seria capaz de se perdoar a si mesmo, se tivesse havido alguma coisa para além do beijo de ontem. Não queria ser o desgosto na vida de Kimberly. Previa-se numa memória distante e futura, onde depois daquele desgosto, ela encontraria o amor da sua vida e ele… ele acabaria como alcoólatra sozinho a vaguear por algures distante dela.
Nunca tinha chegado tão perto de Kimberly como no dia anterior e neste mesmo dia. Não queria acordá-la, ela podia ficar assustada e ir-se embora, uma vez mais… Não queria que ela fosse, queria que ela permanecesse futuramente e partilhasse a cama com ela.
− Bom dia? – Kimberly falou rouca e de olhos ainda fechados. Adam sentiu o seu coração tão acelerado como se tivesse corrido quarenta quilómetros em duas horas numa maratona. O que lhe diria?
− Bom dia. – Adam sorriu-lhe entre o nervosismo que já o fazia suar. A mão esquerda de Kimberly estava sobre o seu peito. Era estranho para ambos. – Como estás?
− Eu? Eu estou bem, já quanto a ti… duvido. – Kimberly encarou-o e riu-se. Em parte era verdade. A sua cabeça doía tanto como se tivesse dado uma cabeçada numa parede de cimento.
− Porque dizes isso? – Adam tentou rir, porque sabia que a sua cabeça iria explodir.
− Tive que te carregar, digamos, para casa. Quando chegamos, finalmente, ao teu luxuoso apartamento fiz-te um café e tu, bem… tu passaste um bocado mal. Acabaste por sujar um pouco da camisa branca enquanto vomitavas todo o álcool que tinhas bebido. – Kimberly queria rir, não o fez. – Tive de te tirar a camisa, pô-la a lavar, vestir-te e guiar-te para a tua própria cama. – Adam coçou os olhos com os dedos em sinal de vergonha. – E quando me ia embora, puxaste-me e disseste alguma coisa – Adam lembrava-se vagamente das palavras – alguma coisa como “Não te vou deixar ir outra vez.”.
− Não me lembro de metade das merdas que fiz. Apaguei completamente, ontem. – Adam colocou as costas da mão direita sobre a testa e encarou o teto. O olhar desiludido de Kimberly incendiou-o.
− A sério? Está bem… − Kimberly tinha percebido que certamente seria renegada se lhe falasse do dito cujo beijo.
Queria ir-se embora dali. Já devia saber que não havia amores entre melhores amigos desde sempre. Não aprendia que Adam nunca olharia para ela? Quem olharia? Adam Stalteri? Ele poderia ter a mulher que quisesse ao seu lado, por favor!
Adam puxou-a para perto, mais perto ainda. Afagou-lhe a mão esquerda no cabelo e a mão direita na mão dela que ainda estava sobre o seu peito. Queria que ela olhasse para ele da maneira que ele a olhava há anos.
Kimberly não debateu contra ele, seria insignificante. Deixou-se estar. Era o seu sonho de adolescente tê-lo como amor da sua vida. Queria que ele se interessasse por uma pobre vulgar.
− Eu lembro-me dos teus lábios. – Kimberly sorriu ao ver as suas esperanças quase realizadas. – Tudo em ti é maravilhoso. – Adam acariciou a bochecha esquerda dela.
Desta vez foi a vez de Kimberly avançar na direção dele e beijá-lo sem tirar a mão do seu peito. Foi bom repetir, foi bom repetir mesmo ainda com o sabor fraco de álcool e café. Separaram-se com selinhos. Kimberly deitou a sua cabeça no ombro dele e voltou a adormecer e a ser admirada por Adam.

Friday, 02:58 p.m. Arizona Police, Arizona
Tinha-se passado uma semana depois do primeiro e segundo beijo deles. O que se sucedeu depois do segundo beijo foi constrangedor para um não-casal de namorados.

“Depois de Kimberly adormecer, Adam ficou um longo tempo a admirar toda a extensão do corpo da morena. Não se lembrava de reparar muito no seu físico anteriormente.
Depois de se rever nos momentos da sua adolescência, acabou por adormecer novamente com Kimberly no seu ombro.
Dormiram por pouco tempo. Duas horas e meia foram o suficiente para ambos recuperarem dos últimos cinco dias, embora a noite passada tivesse sido parecida a arrancar-lhes a alma.
Kimberly acordou primeiro e ficou constrangida por sentir Adam atrás de si, agarrado ao seu corpo e de ter o peso dele junto a si. O coração disparou quase a saltar pela boca.
Adam começou a dar sinais que acordaria em breve quando apertou Kimberly contra si e por ter passado as suas mãos da barriga de Kimberly para as suas coxas.
− Kim? Desculpa, não sei o que se passa, mas… − Adam tinha despertado assim que tocou na pele quente dela. Kimberly libertou-se dos seus braços musculosos, diferentes daquilo que se lembrava, e sentou-se na cama atordoada ainda.
− Não tens culpa de nada, eu permiti que o fizesses. – Adam sentou-se na cama de costas para ela, pensando em alguma coisa oportuna e inteligente para a acalmar sem a assustar. ”

Kimberly sentiu-se constrangida, não sabia o que aconteceria depois de toda aquela onda de sentimentos terminar. O clima durante toda a semana tinha sido tenso. Tenso, tenso, tenso. Kennedy conseguiu tirar as suas próprias conclusões certeiras como mísseis, a pressão e cuidado para que Lucille não desse conta, falha total, de um caso amoroso entre colegas de trabalho. Já todos tinham dado conta.
Tinham-se beijado algumas vezes longe dos olhares dos colegas. Seriam bombardeados com perguntas se os vissem aos beijos num canto.
− Tu precisas de falar com ela! – Kennedy tentava convencer o melhor amigo a esclarecer tudo com Kimberly. – Imediatamente!
– Porquê? – Adam adiava as coisas para o amanhã como ninguém. Não tinha coragem para abordar Kimberly sobre o que se passava entre eles. Sentia-se fraco e com o coração aos pulos quando estava perto de Kimberly e quando as coisas ficavam mais intimas.
– Puta que pariu, Stalteri! Tu já pensaste sequer na possibilidade de ela pensar que se calhar aquilo só aconteceu pela bebedeira ou carência? – Kennedy repreendeu Adam pela sua covardia, enquanto Adam estava ainda encostado à fotocopiadora.
– Eu sei, tu tens razão. Mas, achas que é fácil? Nós crescemos quase como irmãos. – Adam tentava a todo o custo dissuadir Kennedy a outra ideia.
– Achas que me convences? Achas que a maneira como falavas dela, como a descrevias, melhor dizendo, como tu a olhas, como lhe falas, sorris e beijas achas que é um sentimento de irmãos? – Adam coçou a nuca e foi-se embora, fosse o que fosse, abordaria de alguma forma Kimberly.
Kennedy sorriu vitorioso e sussurrou baixinho para si mesmo “Eu sabia!”. Adam sabia onde ela estava, sabia sempre. Sentia-se muito bem com a sua presença, mas ultimamente estava tenso. Tenso como o clima entre eles. Se Kimberly se afastasse estrangularia Kennedy e nunca se desculparia a si mesmo.
– Obrigada, Kim! – Camila estava com Kimberly no seu cubículo, a mesma sorriu-lhe sabendo do que se tratava. Camila saberia decerto pela amizade que tinha com Kimberly. Adam segurou a porta para Camila que agradeceu.
– Posso? – Adam reparou nas curvas da garota diante de si, Kimberly envergava uma saia lápis preta. Perguntou-se o porquê de se torturar e a ela.
– Claro! Entra. – Kimberly deitou alguns papéis ao lixo e encarou Adam. Perguntou-se porque algum homem como ele a olharia, eram só ilusões da sua carência desesperada.
– O que se passa connosco? – Adam avançou e olhou-a no fundo dos seus olhos, onde estaria algures a sua resposta negativa aos seus sentimentos e a sua visão perfeita de alcoólatra no futuro.
– De facto, eu não sei. – Kimberly molhou os lábios, afastou o olhar e arfou pesadíssimo. Oh, como ele lhe queria acariciar a sua face. – É tudo, quase, novo. Não sei porque estamos neste empate e desempata. Sinto-me cansada, não quero afastar-me permanentemente do meu melhor amigo ou o que queres que sejas agora. – Kimberly chegou-se para perto dele e segurou-lhe nas mãos.
– Também gostaria de perceber. – Adam confessou-lhe retribuindo carícias nas palmas das mãos. – Podemos falar mais tarde? Hoje há uma feira popular, queres vir?
– Claro. Acho que nos vai fazer bem. Espero por ti quando acabar o meu trabalho aqui. – Kimberly sorriu-lhe aproximando-se dele. Sentiu que era errado juntamente com a respiração dele. Esticou-se e beijou-o, sentiu que ele não esperava por aquilo, mesmo assim ele retribuiu.

Friday, 10:07 p.m. Arizona Police, Arizona
Adam estava à espera de Kimberly no corredor àquele que condicionava aos cubículos do Departamento de Criminalística Cibernética. Esperava que Kimberly não se demorasse muito, queria parar aquela tortura de anos que tinha virado um pesadelo doce no último dia.
Ouviu o som dos saltos altos de Kimberly ecoarem pelo corredor de azulejos azuis. Estava deslumbrante, magnífica.
– Estás maravilhosa, Kim… – Adam mordeu o lábio inferior fazendo Kimberly corar como um tomate e aumentar a sua ansiedade.
Adam vestiu o casaco e deu o braço a Kimberly que ainda hesitou. Saíram do edifício sem que os seus colegas próximos os vissem. Adam fez questão de a levar no seu carro, não tinha paciência para andar de lá até à feira popular.

Friday, 10:24 p.m. Arizona
O trânsito estava um caos. Sexta-feira era usualmente corrida, todos queriam voltar para as suas casas que ficavam em cidades distantes de Arizona, para não falar que também havia o ocorrido da feira popular.
Adam e Kimberly estavam impacientes. Não sabem como, mas quando deram conta estavam a relembrar de várias coisas que tinham acontecido durante a sua adolescência, sem nunca tocar no assunto-problema.
Quando saíram do trânsito, conseguiram encontrar milagrosamente um parque de estacionamento. Kimberly saiu do carro juntamente com Adam que lhe voltou a oferecer o braço.

Friday, 10:27 p.m. Popular Fair, Arizona
− Os meus pais costumavam trazer-me aqui todos os anos no verão. Era a cidade natal dos meus bisavôs maternos. – Adam sorriu genuinamente.
Kimberly admirava o local que parecia uma indireta para eles, tinha a barraca dos beijos, a barraca do casal com o beijo mais longo, barracas com venda de camisolas com frases de casais, enfim… Kimberly engoliu em seco.
− Aqui tens. – Adam passou-lhe um algodão doce embalado com uma decoração muito caprichada.
− Eu não te pedi nada, Adam. Vou ficar a dever-te uma. – Kimberly ficou surpreendida com o seu ato.
− Não te preocupes, não vou obter nenhum mandato de busca por menos de seis dólares. – Adam tirou um pouco de algodão da embalagem.
Kimberly e Adam não tinham energia nem interesse em carrinhos de choque ou carrosséis, preferiam ficar pelos jogos de tiro ao alvo e outros que pareciam jogos viciados.
− Aqui tem para oferecer à sua namorada, jovem. – Adam conseguiu ganhar um jogo de dardos. O dono da barraca do jogo, que aparentava ter à volta de cinquenta anos, passou para as mãos um elefante adorável de tamanho médio. Adam não corrigiu o “namorada”, não quis.

Saturday, 01:12 a.m. Popular Fair, Arizona
  Ainda estavam imensas pessoas na feira popular por ser fim-de-semana. Kimberly puxou Adam para um lugar menos movimentado, um pouco fora da feira popular.
− Precisamos falar… − Adam encarou as suas mãos e molhou os lábios.
− Eu sei disso e tu também. O que se passa connosco? – Kimberly ajeitou-se no banco.
− É estranho, mas são as consequências. – Kimberly não percebeu o que ele queria dizer com “consequências”. Que consequências? – Kim, isto é torturante. Estou há sete anos apaixonado por ti, já não quero saber se a nossa amizade acabar. Só quero acabar com esta prisão de ter ver partir e de te ver voltar, e eu sou apenas o teu melhor amigo desde sempre. – Adam falou-lhe sério enquanto tentava encontrar um reconforto naquilo que dizia. Kimberly parecia espantada e apanhada de surpresa. Ele estava apaixonado por ela há sete anos!
− Tu não sabes o alívio que isso me proporciona. – Ela riu-se pelo stresse. Não sabia como lhe confessar aquilo que já estava ali há tempos infinitos. – Tu sempre foste um género de crush, mas tu tinhas as namoradas que quisesses quando querias. Tu mudaste-te para aqui e eu pensei que nunca mais nos cruzaríamos. Agora, agora tu és um homem adulto, diferente e de físico invejável. Jurava que nunca olharias para mim.
Adam sorriu-lhe e enxaguou a lágrima que correr pelo rosto dela, era a sua libertação. Ele iria namorar a sua melhor amiga da adolescência, aquela que sempre amou de verdade, aquela que lhe ensinou o que era o amor.

Adam e Kimberly avançaram ao mesmo tempo selando os seus lábios num beijo profundo, apaixonado e contente. Já não precisavam de imaginar futuros trágicos com as vidas separadas um do outro.




Sixth Chapter
I’m Ready…
Publicado em: 29/07/2017

Say that you'll stay a little

Don't say 'bye bye' tonight

Say you'll be mine

Just a little bit of love is worth a moment of your time

Knocking on your door just a little

So cold outside tonight

Let's get a fire burning

Oh, I know I keep it burning right

If you stay, won't you stay, stay?

– John Legend in Save Room

Depois daquela noite de feira popular, da libertação de ambos, tudo melhorou entre eles. Já não havia o clima tenso e os constrangimentos, graças a Deus! Pareciam crianças, um amor tão puro, tão transparente. Kimberly foi apanhada de surpresa juntamente com ele. Amavam-se há anos!
Kimberly e Adam tentaram esconder a todo o custo aquele namoro, principalmente, de Lucille. Sabiam da sua política quase nazista que não apoiava o namoro entre colegas. Já tinham prévio o futuro de ambos, Adam seria despromovido e seria transferido para uma polícia do outro lado do país, e Kimberly acabaria por ir presa devido aos ataques informáticos contra o outro fulano. Temeram os seus futuros, mas não acabariam por essa razão. Lucille teria que ter muito trabalho para que parassem de terem sentimentos de anos.
Obviamente, mais cedo ou mais tarde, Lucille acabaria por descobrir. Descobrir por ela mesma, ou talvez já soubesse. Já todos sabiam.

Thursday, 02:12 p.m. National Bank, Arizona

Kimberly devia ter seguido o seu pressentimento. Não devia ter ido ao banco. Não naquela hora, não naquele dia, não devia lá ter posto os pés. Ao invés disso, ficou refém lá dentro com mais uma centena de pessoas. Crianças, crianças de colo, adolescentes, jovens adultos, idosos… e ela.
Adam ficou puto da vida quando associou o seu pressentimento à notícia que passou em grande destaque no plasma enorme da sala. Sentiu um aperto no coração. Um sufoco. Uma sensação agonizante. Ninguém o tinha avisado.
Disparatou em todas as direções. Disparatou com todos. Desafiou os limites de Lucille pela milésima vez na sua carreira profissional. Lucille exaltava-se mas acabava por gostar da sensação de desafio do mal-humorado Adam. Dava-lhe gozo senti-lo sobre pressão, saber qual seria a sua próxima jogada. Sabia que ele estava prestes a explodir por se tratar de Kimberly. A mesma sensação que teve com Olly e Adele, mesmo antes de os perder. Destetou-se por despertar a sensação profunda de pânico a Adam.
Adam persistiu e viu Lucille caminhar de um lado para o outro para chamar todos os reforços. Rezava para consigo mesmo. Viu a expressão de puro pânico à mistura de ansiedade na cara dela.
− Eles querem-na… − O necessário para se instalar o caos, o necessário para despertar todo o tipo de reações. Sentou-se para se mentalizar de que era… verdade?! Adam encarou e teto e riu-se, pânico.
Sabiam das exigências e capacidades deles, uma tragédia internacional perfeita! Sabiam que Kimberly era astuta, as suas capacidades eram iguais às deles, mas seriam provavelmente inúteis.
Pouco a pouco saíram seis dos muitos reféns feitos no banco. Explicaram o que se passava lá dentro, um sequestro que podia demorar o que eles bem entendem-se, só terminaria com a morte… de Kimberly.
O sequestro consistia num jogo mortal, numa espécie de Roleta Russa Cibernética. Cada refém recebia uma mensagem no telemóvel/celular com uma determinada quantia retirada, a quantia variava de pessoa para pessoa, o objetivo era retirarem no total cinquenta mil dólares. Era um alívio abrir a mensagem e ler “350$US” ou outra quantia qualquer, havia uma bomba. A bomba seria explodida quando a mensagem recebida fosse a palavra “Bomba” escrita em acrónimo.
Adam chorou na tentativa de que os libertados estivessem a exagerar, sabia que Kimberly receberia a tal mensagem e que seria a última. Maltratou-se por nunca ter sido sincero em relação aos seus sentimentos com ela e por terem passado anos separados.

Thursday, 06:46 p.m. Arizona Police, Arizona
Quando se parou de martirizar, ouviu o barulho de folia no corredor. Como é que eles festejavam e riam no meio daquela situação? Não tinham coração nem sentimentos? Saiu do cubículo de Kimberly para discutir com toda a gente que estava a festejar sabe-se lá por que merda fosse.
Adam não quis acreditar no que os seus olhos viam. Já faziam horas desde o início do sequestro, faziam horas que estava sozinho no cubículo de Kimberly a rogar pragas contra ele mesmo. Não tinha dado conta que se tinham passado tantas horas, pensava seriamente que se tinha passado uma ou duas horas.
Adam ficou petrificado com lágrimas nos olhos ao ver Kimberly num estado caótico, desumano. Tinha a equipa com que trabalhava ao seu redor. Adam sentiu um calor humano mesmo ao seu lado.
− Vai lá ter com ela, Stalteri. – Lucille estava com um sorriso de orelha a orelha. Não sabia o que aquilo significava.
− Posso esperar, ela é só… a minha melhor amiga…
− Stalteri! – Lucille encarou-o de olhos semicerrados e braços cruzados. Puta! Lucille já tinha descoberto tudo. – Achas que sou alguma idiota? Toda a gente sabe do romance e que romance! Também gostaria de ter assim uma história para contar um dia aos meus netos… Vai lá e dá-lhe um beijo, porque quem manda aqui ainda sou eu!
Adam não pensou duas vezes. Furou a roda que estava em volta de Kimberly. Foi ótimo voltar a sentir a pele, os lábios, o toque, o tudo dela. Ela era maravilhosa, não queria voltar a perdê-la, muito menos para sempre.
Kimberly foi apanhada de surpresa num beijo, sentindo à mistura as lágrimas de Adam. Reencontrou o conforto no meio dos braços dele enquanto os seus colegas os elogiavam e ficavam pela imagem dos dois.
− Como é que tu…? – Adam não conseguia completar as próprias frases, ainda não tinha recuperado do susto.
− Os códigos que usavam não eram deles. Eles, puramente, os recebiam prontos a enviar para quem lá estava. Consegui hackeá-los pela rede Wi-Fi que usavam, a do banco, não eram muito inteligentes. Consegui infiltrar-me e pude descobrir que os códigos eram assinados pelo Leroy Paganelli…
− O…
− …Blogueiro, exatamente. – Kimberly completou o raciocínio de Adam. – Há provas suficientes para o pôr atrás das grades. − Adam sorriu, estava orgulhoso dela.
Leroy Paganelli fazia, ou melhor, fez tudo aquilo para atingir o pai de Kimberly. O pai de Kimberly tornou-se um grande empresário aos vinte e oito anos, herdando o jornal do pai depois da morte do mesmo. Com a sua capacidade de visionário conseguiu espalhar o nome por todo o país, fazendo daquele, um dos jornais mais importantes do país, mas houve, especialmente, uma pessoa que não aceitou muito bem aquela sorte, Leroy Paganelli. Leroy, com a sua ambição destrutiva, levou-se a si mesmo ao despedimento, pensava que apenas os números contavam. Culpou sempre, sem razão, Bruno pelo seu despedimento.”

Friday, 11:43 p.m. Arizona Police, Arizona
Kimberly estava embalada nos seus pensamentos lentos no seu cubículo. As horas no canto inferior direito do seu PC pareciam estar contra si. Faltava imenso tempo para poder sair daquele inferno, cerca de duas horas e meia. Provavelmente, desde que entrou para a polícia, aquele tinha sido o dia mais calmo e menos violento no Arizona.
Houveram queixas de pequenos assaltos, queixas sem sentido, mas nada que fizesse despertar o alarme do perigo da equipa principal.
− Pronta para sair deste pequeno inferno? – Adam pousou a sua mão esquerda no ombro esquerdo de Kimberly. Embora não estivesse à espera daquilo, não se assustou.
− Ainda me faltam dar horas, Adam. – Kimberly disse num suspiro pesado.
− Já falei com a Lucille e convenhamos que hoje o dia foi uma valente merda. – Adam sorriu. Kimberly podia ter a certeza que ele não tinha falado nada com Lucille, mas confiou nele.
− Está bem.
Kimberly levantou-se da sua cadeira e ajeitou a sua saia amassada pelas horas que esteve sentada na cadeira. Adam empurrou a sua cadeira e ajudou-a com o casaco.
− Obrigada. – Ela sorriu-lhe, fazendo-o desmoronar por dentro. Era estranha aquela sensação, terrível diria. Nunca tinha sentido aquilo, nem daquela maneira, nem naquela intensidade.
Kimberly conhecia-o desde, quase, canalha. Tinha-o moldado à sua feição sem ele nunca ter dado conta, tinha-o ensinado a ser um bom amigo, um bom namorado. Mesmo Kimberly assistindo da bancada número três, ela tinha-o aconselhado sobre as suas namoradas, tinha carregado aquela dor dentro dela, de o ver a beijar e acompanhar outras garotas a casa. Quem era ela na história? Apenas a melhor amiga.
Tinha-se reprimido por tanto tempo. Perdeu Kimberly como quem perde um papel importante, Adam sentiu na pele a angústia que a distância entre eles provocava. Adam era amargurado, seco e impaciente por culpa dela, por sua culpa que se afastou dela.
− E os novatos? – Kimberly abraçava de lado Adam enquanto caminhavam pela rua iluminada e cheia de pessoas. – Como se estão a sair? – Adam sorriu-lhe.
− Podemos dizer que bem. – O bar, que ficava no final da rua, estava a abarrotar, notava-se pela multidão à porta. – Nunca pensei que a Lucille me colocasse a coordenar pessoas na área informática em menos de um ano.
 Adam riu-se, sabia como Lucille era. Moveu a sua mão direita para o cabelo de Kimberly e acariciou-o, sabia como ela odiava aquilo, teve um olhar opressor como uma resposta óbvia.
− É bom saber que continuas a Kimberly que eu deixei. – Adam riu. Kimberly mudou a sua expressão opressora e rapidamente gargalhou.

Saturday, 00:02 a.m. Mr.Skull Bar, Arizona
Adam e Kimberly esperaram na fila aproximadamente treze minutos para apenas entrarem no bar. Kimberly ficou a conhecer algumas coisas sobre Adam enquanto morador do Arizona, as peripécias na faculdade, ficou a saber que não teve nenhum relacionamento, nem sequer uma ficada.
− O que vais pedir? – Adam sentou-se à frente de Kimberly.
− Hoje vou encher a cara de Martini. – Kimberly olhava para o menu.
− Que maravilha é estar de folga, hã? – Adam provocou-a. – Só quero ver como vais acordar amanhã. − Kimberly rolou os olhos.

Saturday, 03:16 a.m. Adam’s House, Arizona
Adam tinha estipulado uma hora para saírem do bar, não tinha a sorte de ter uma folga no dia seguinte como Kimberly. Três horas da manhã já seriam horas suficientes para irem embora, mesmo assim seria doloroso levantar-se da cama no dia seguinte.
− Kim, não achas que já chega? – Adam tocava-lhe no braço. Com apenas três mini copos de licor e um de champagne, Kimberly já tinha percorrido todo o bar, abraçado tudo e todos. No princípio foi engraçado, mas ela não tinha a sua consciência e raciocínio no melhor estado. O que pequenas grandes aves de rapinas fariam ao ver um pedaço como Kimberly? Exatamente…
− Não, querido. – Kimberly brincou com os lábios dele. – Não sejas tão mandão. – Kimberly riu safadamente.
− Kim, isto já teve piada. Vamos embora, tu não estás bem. Vamos, agora! – Adam pegou em Kimberly de maneira um pouco brusca, carregou-a no seu ombro esquerdo. Kimberly não protestou, achava que ele estava a brincar com ela.
Adam desejou ter o seu carro ali, mesmo estando perto de casa, mas Kimberly balançava as pernas e brincava com a situação. Sentiu que foi rude ao arrancá-la do bar assim, prometeu que lhe pediria desculpas quando estivessem mais calmos e sossegados.
Em frente à porta do apartamento de Adam, tirou a chave do bolso das calças e adentrou com Kimberly ainda no seu ombro que balbuciava algumas palavras.
Levou-a para o seu quarto, não seria a primeira vez que dormiam juntos. Obviamente, Kimberly lhe exigiria explicações.
– Kim, hoje ficas cá. – Deitou-a na cama. Kimberly olhava-o sem permanência, os seus olhos rolavam sem intenção.
Adam ergueu o seu corpo, precisava urgentemente de um duche. A sensação fraca de ter a sua camisa puxada fê-lo parar, embora se quisesse rir daquela situação.
– Posso ir contigo? – Adam sabia muito bem ao que a sua namorada se referia, não aceitaria. Não queria que ela pensasse na manhã seguinte que ele se tinha aproveitado da sua bebedeira. Adam riu-se. – O que foi? – Kimberly fez cara triste.
– Contem-te, Kim… – Adam voltou a rir-se e afastou uma madeixa de cabelo da cara dela. Kimberly ergueu-se e encarou-o e riu-se também. Começou a beijá-lo delicadamente e docemente. Adam pôde sentir que o gosto de licor permanecia ainda.
– Kim… É melhor pararmos. – Adam apertou delicadamente a sua mão.
Faz amor comigo… – Kimberly tinha a sua cabeça encostada ao seu peito. Adam ficou surpreendido. Adam sabia que Kimberly fugia daquele assunto como uma flecha, não entendia e não sabia porquê. Nunca lhe perguntou, talvez por medo de parecer rude ou mal compreendido.
Adam tentava raciocinar. Num lance, ele mesmo a beijou sem acabar de pensar. Deitou-a sem a largar do beijo, estava por cima dela. Sabia perfeitamente que podia fuder com tudo o que tinha com Kimberly. As suas mãos passeavam dentro da roupa pela extensão do corpo da amada. 
Kimberly ria por causa da sua bebedeira, Adam reconsiderou o ato que poderia levar à rutura do namoro ainda fresco. Kimberly continuou a beijá-lo e permitiu que ele lhe tirasse a camisola. Adam sentiu o coração dela aceleradíssimo, voltou a reconsiderar, parecia um adolescente.
− Tens mesmo a certeza? – Parou o beijo.
− Cala-te e continua… − Sabia como ela se sentia, sempre que estava nervosa mandava-o calar e continuar. Irritava-o a maneira de como ela agia perante certas coisas que a deixavam nervosa, mas amava-a mesmo assim.

 Saturday, 05:28 a.m. Adam’s House, Arizona
 Kimberly tinha adormecido, mesmo já sendo praticamente dia. Ela estava perfeita, impecável para aquilo que se tinha sucedido. Ainda tinha a sua pele suada e “pegajosa”, onde vários fios da sua franja lateral estavam colados à sua testa. Kimberly dormia agarrada a ele e virada para ele, apenas o lençol branco fino lhe cobria o corpo a partir dos seus seios.
Adam não resistiu a sorrir e a pensar coisas sujas por sua causa, pelo efeito dela. Beijou-lhe a testa para afastar todos aqueles pensamentos. Tinha a perfeita noção de que não conseguiria dormir o suficiente para se levantar com disposição, e também tinha noção que chegaria atrasado.

Saturday, 09:39 a.m. Adam’s House, Arizona
Adam adormeceu pesadamente, teria que se levantar às sete horas da manhã, teria. O seu cansaço deteve-o, acordou por sorte às nove e meia da manhã, duas horas e meia atrasado, lindo!
Adam tinha-se levantado da cama com toda a calma para garantir que não acordava Kimberly. Sorriu mais uma vez ao olhá-la. Sem tentar fazer baralho, tomou banho à pressa e vestiu-se. Lucille iria torturá-lo de várias maneiras na sua imaginação e no final, claro, matá-lo-ia.
− Adam? – Adam tentava calçar os seus sapatos até que Kimberly o chamou. Kimberly parecia não crer no que via.
− Sim? – Adam estava sentado no cadeirão do seu quarto com um pé calçado e um apenas com uma meia calçada.
− O que aconteceu? – A sua voz era arrastada, ressaca. O corpo inteiro de Adam gelou e estremeceu e depois deu-se um misto de sensações. Tinha a certeza que aquela seria o desfecho da cena, Kimberly não se lembrava de nada.
− Tu não te lembras de nada? Tu não te lembras de nós…− Adam estava ainda com o sapato na mão e à beira de um ataque cardíaco.
− Eu lembro-me disso… − Kimberly sorriu-lhe para se parar de martirizar. – Eu só não me lembro de certas coisas, é como se fossem grandes borrões, sem detalhes e tudo misturado. Lembro-me de começar a beber, depois de tu me estares a suplicar para ir embora e… tu sabes o resto. – Kimberly corou intensamente. Adam pousou o seu sapato no chão e avançou para ela, beijou-a delicadamente.
− Vem viver comigo. – Adam olhou-a. Kimberly tinha as suas mãos no rosto dele, ficou estática. – Sabes bem que somos só namorados, Adam.
− Kim, tu sabes bem que faço isto porque antes de ser o teu namorado sou o teu melhor amigo. – Adam confessava-lha palavras tão puras como seda, acalmaram-lhe a alma. – Tenho de ir, a Lucille ainda me arranca o pescoço. – Riu-se e encarou as pernas de Kimberly. – Deves algumas satisfações, quando voltar do trabalho já sabes.
Kimberly beijou-o e abraçou-o como o fazia antes do namoro.



Seventh Chapter
Can I Give My Surname To You?
Publicado em: 24/08/2017

How many girls in the world can make me feel like this?
Baby I don't ever plan to find out
The more I look, the more I find the reasons why
You’re the love of my life
− Jason Derulo in Marry Me

Kimberly ficou hesitante ao aceitar a proposta, para ela impulsiva, de Adam, parecia-lhe demasiado cedo para tal. Adam agia por impulso muitas vezes, ela presenciou muitas dessas cenas, mas com ela tudo era diferente.

Saturday, 08:43 p.m. Adam’s House, Arizona
Adam exigiu que ela se mudasse exatamente naquele dia, queria primeiro conversar com ela sobre onde tinha estado, onde dormiu. Gostava de saber algumas coisas sobre ela, mesmo que ela dissesse que não era nada.
− Nem penses que te esquivas desta vez. – Adam sentou-se à sua frente. – Precisamos de falar. – Kimberly estava sentada no sofá do apartamento dele a calçar os seus sapatos, pronta para irem buscar as suas coisas.
− Sobre? – Kimberly sabia muito bem sobre o que ele queria falar, só tinha esperanças nulas que fosse outra coisa.
− Tu sabes, por onde andaste estes meses? Onde moraste. – Adam mudou de lugar e sentou-se no mesmo sofá.
− É assim tão importante? – Kimberly aconchegou-se perto dele no sofá preto.
− Sim, se estiveste a dormir debaixo da ponte e eu nunca te ofereci um quarto. – Adam riu ao acarinhar-lhe as costas.
− Já que encistes, eu estive a morar com a minha prima, a Lyane. – Kimberly sorriu-lhe, sabia o quanto que Lyane gostava de implicar com Adam, que ele daria um ótimo namorado para Kimberly.
− A Lyane? A sério? Há anos que não a vejo, que saudades daquela implicância que ela tinha por mim…− Adam riu-se, não acreditava que Lyane estava tão perto dele e ele nunca a encontrou, nem a ela nem a Kimberly.
− Sim… − Kimberly não sorria mais, passando para um tom mais sério. – Ela passou por um mau momento, péssimo. – Adam continuava atento às suas palavras. – A Lyane quando foi para a faculdade, ela envolveu-se com um rapaz um pouco mais velho e os problemas começaram.
− Que tipo de problemas?
− A Lyane, bem, ela envolveu-se com drogas e prostituição. – Kimberly falou pesadamente e pausadamente as palavras “drogas” e “prostituição”. Era a dor que ainda sentia por nunca ter estado presente o suficiente para a ajudar a evitar tais problemas.

“− Estou cansada só isso. – Lyane discutia frequentemente com Bryan, ele era tóxico para a sua saúde mental. A sua cabeça pousada sobre a mãozeira do sofá ainda lentejava de dor, os problemas financeiros e falta de concentração acumulavam-se.
− Cansada? – Bryan soava desconfortável com as palavras de Lyane. – De quê? Estudos? Isso é tão fácil de resolver que soa estúpido.Bryan demonstrava ser agora aquilo que não era, agressivo.
− O que aconselhas, génio?
− Isto. – Bryan atirou-lhe com uma caixa de medicamentos para a sua frente. O som de plástico a deslizar pelo mármore da mesa de centro, alertou-a.
− Isto é droga? Tu andas a traficar? – Lyane exaltou-se, o cansaço beirava um lindo e belo esgotamento nervoso. – Estás a ouvir, porra? – Lyane gritou e empurrou Bryan contra a prateleira.
− Não, sua inútil. Eu tenho isso porque acho divertido trazê-los nos bolsos. – Bryan tinha os olhos a arder em fúria, gritava. – Toma isso quando te sentires cansada, é uma espécie de medicamento.
− Espécie? Espécie ilegal de medicamentos? Se é ilegal é droga, idiota. – Lyane gritou e sentou-se de novo no sofá, estava confusa. Enterrou as mãos no cabelo.
Lyane abominava o modo de que Bryan mudava o seu mau humor para uma espécie de cavalheiro romântico que a convidava a sair e dançar, como num conto de fadas atual. Havia algo que a perturbava ainda mais, sair com os idiotas dos amigos de Bryan. Faziam uma espécie de ronda à sua volta, um assédio constante quando as mãos deles passavam nas suas coxas, tentado forçá-la a deixar subir cada vez mais.
− Tens um rosto muito bonito e não só. −  Mike era o pior, um autentico obcecado com Lyane, passava a sua mão esquerda na coxa de Lyane. −  Ouvi dizer que estavas mal, financeiramente falando, é verdade? – Lyane assentiu. Estava com medo, estava no sofá da casa daquele otário enquanto o seu namorado dormia noutro comodo por ter uma puta ressaca. – Posso arranjar-te um emprego à tua altura. – Lyane sentia a mão dele a subir cada vez mais, mas não o consegui parar. Pensou e pensou no que havia de dizer, mas não tardou para meter à boca outro comprimido de mais uma cartela quase vazia, estava de mal a pior. Era a sua rotina engolir comprimidos quando estava com fome, cansada, nervosa, com medo,… basicamente eram as suas refeições e soluções.
– Qual é o trabalho? – Estava inexpressiva enquanto as mãos dele forçavam massagens. Ela não esperava por aquilo, Mike avançou para a sua boca e a sua mão também, entrou dentro da sua peça íntima e foi bruto, agressivo, magoou-a. As lágrimas escorriam agora, um sofrimento em silêncio, a luta para acreditar que aquilo fosse a realidade.
– Venderes o teu lindo corpinho, meninas bonitas só são contratadas pelo corpo, não pela sua inteligência. – Mike falou-lhe ao ouvido e passou as suas mãos uma última vez. Lyane chorou com medo naquele sofá, magoada fisicamente e psicologicamente.
Lyane não aguentava mais, já tinha quase presenciado a morte diante de si. Bryan tomou conta dela e ajudou-a a recuperar, se fosse tratada num hospital saberiam que ela era toxicodependente, com grande histórico de drogas nas suas veias, já tinha elevado o patamar nas drogas. Lyane não aguentava mais o seu trabalho como prostituta e como prostituta gratuita de Mike, era humilhante.
– Kim? – Lyane falava com bastantes oscilações presentes na voz, num tom baixo e medroso. – Preciso de ajuda, estou com muito medo, Kim. – A voz era rouca, também. Kimberly assustou-se, era de madrugada e Lyane não parecia bem.
– O que se passou? Como assim estás com medo? – Kimberly falou baixo para não acordar Mark, o seu irmão, e os seus pais. Lyane desmoronou ali, ao telefone, contou tudo nos mínimos detalhes a Kimberly.
A raiva que sentiu por não estar presente, talvez porque pensava demais na maravilha como corria a sua faculdade, com vinte anos adorava festejar e talvez os outros gostassem que ela aproveitasse sem lhe trazer as más da realidade.
Kimberly rapidamente pensou num plano e descansou Lyane que já via a luz ao fundo do túnel. Prometeu-lhe que não demoraria nada, fê-la prometer que iria esperar sem levantar suspeitas.
Fazia três dias desde que telefonou a Kimberly e até àquele dia, nada. Estava farta de esperar, de aturar os fetiches agressivos dos seus clientes. Já tinha a solução em mente: suicídio, ninguém merecia a sua tortura. Estava pronta para engolir aqueles comprimidos naquele quarto de hotel barato até que alguém bateu à porta, tinha-a tirado daqueles pensamentos negros.
– Lyane Magossi? – Era mais um dos clientes que Mike lhe arranjou, provavelmente. Era, porém, um homem charmoso e alto, não parecia ser mais um sádico de fato e gravata.
– Eu mesma. – A sua aparência estava decadente, doentia.
– Sou o Edward Piovani. – Lyane não percebeu o porquê de ele se apresentar, não iria ser mais um cliente? – Um amigo da sua prima Kimberly, ela contactou-me. Não se preocupe, ela contou-me tudo e estou disposto a tirá-la desta vida, a prepósito, eu já tirei. – Lembrou-se de um Edward, do qual Kimberly já lhe tinha falado. Confiou.”

– Estás a brincar, certo? – Adam estava incrédulo com a história que ouvira. Era difícil para qualquer um acreditar que alguém próximo se envolveu com drogas e prostituição. – Isso é horrível. – Adam teve a mesma reação que Kimberly ao saber. – E agora como ela está?
– Muito bem. Ela casou com o Edward e eles tiveram um filho há menos de um ano. – Kimberly sorriu. – Foram adoráveis ao aceitar-me lá em casa, rendeu-lhes uma babysitter gratuita, por isso foi um bom negócio.
– É bom saber que ela está bem e recuperada. – Adam sorriu-lhe de maneira diferente e beijou-a. – Vamos tratar das tuas coisas e visitar a Lyane?

Saturday, 09:21 p.m. Piovani’s House, Arizona
Adam e Kimberly foram a casa de Lyane para trazerem as poucas coisas que Kimberly lá tinha, e por sorte, a família estava completa em casa. Lyane, Edward e o pequeno August de nove meses.
Lyane chorou de emoção ao reencontrar Adam, estava totalmente diferente daquilo que se lembrava. Adam era agora um jovem adulto, não era mais um jovem adolescente. Edward adorou conhecer Adam, afinal era um dos melhores amigos da sua esposa, enquanto August fazia as delícias de Adam. Foi uma bela visão para Kimberly.

“Edward foi para o escritório atender uma chamada de trabalho enquanto Kimberly e Lyane falavam sobre a família e Adam tinha as suas mãos delicadamente puxadas pelo pequeno August.
Lyane falava sobre a pressão que a família dela tinha feito para que se casasse rapidamente com Edward até dar uma grande cotovelada a Kimberly. Kimberly não esperava por aquilo e gemeu de dor, Lyane apontou para a sua frente.
– Bastante paternal e muito sortuda, hein? – Lyane sussurrou. Adam não fazia ideia que era observado daquela maneira, sentou-se no chão para que August pudesse brincar com os botões da sua roupa. Adam ria naturalmente.”

Sunday, 01:43 a.m. Adam’s House, Arizona
Adam e Kimberly acabaram por exagerar na conversa, mas conseguiram colocar todas as roupas nas malas, os sapatos e outros objetos em caixas. Kimberly tinha no total duas malas de roupa e três caixas pequenas.
Adam ajudou-a arrumar a sua roupa no armário do quarto de Adam, corrigindo, do quarto deles, e os sapatos, cedeu-lhe com todo o prazer a sua prateleira e biblioteca privada.
Kimberly estava estafada, olhou para o relógio de pulso e deitou-se no sofá. Adam deitou-se atrás de si, abraçando-a, queria abordá-la sobre a tal hesitação.
− Kim? Promete que não levas a mal a pergunta que te farei… − Adam perguntou baixo, quase ao ouvido.
− Que pergunta? – Kimberly estranhava o facto de Adam ter o cuidado em lhe perguntar fosse o que fosse.
− Por que é que tu tinhas uma certa hesitação em, tu sabes, em fazer amor comigo? – Adam não queria parecer rude ou maldoso, ele não sabia o que se tinha passado na sua ausência de anos.
Kimberly arrepiou-se e o coração disparou.
− Eu sabia que havias de perguntar isso. – Kimberly tentou virar-se para Adam, mas não o olhou de frente. – Nós conhecemo-nos desde sempre, sentia-me constrangida ao saber que me verias nua, era só isso. Era só receio estupido.
− E agora? Agora ainda sentes isso? – Adam levou algumas das suas madeixas para trás da sua orelha, arrepiando-a.
− Não, não mais. – Kimberly virou o seu corpo e beijou-o. Adam não resistiu e sem pensar duas vezes já estava por cima dela, as suas mãos subiram pela sua cintura, camisa adentro. Kimberly puxou-lhe suavemente o cabelo. Fizeram-no ali mesmo.


Three And Half Years Later
Thursday, 07:34 a.m. Metro Station, Arizona
Tinham passado três anos e meio. Tanto e nada tinha mudado, mas tudo para melhor. Adam e Kimberly tinham mudado fisicamente e evoluído psicologicamente.
Adam tinha sido finalmente convencido por Kimberly a alternar as suas lentes de contacto pelos seus óculos, ela dizia que lhe davam charme extra. Impecavelmente, ele começava a melhorar o seu humor e a defender Kimberly de todos os piropos/cantadas que ouvia dos seus colegas de trabalho.
Kimberly tinha deixado crescer um pouco, apenas um pouco, a sua franja e rapidamente teve a plena consciência que Adam nunca lhe faria mal, não a obrigaria a nada e não se permitiria de a magoar fisicamente e muito menos psicologicamente.
Desde que começaram a morar juntas preferiam ir juntos para o trabalho, aproveitar a companhia um do outro e conversar, mas do nada, Adam tinha-lhe dito para esperar por ele na estação de metro perto de casa. Estava completamente louco. Adam sabia perfeitamente que iriam ter de caminhar um bom bocado da saída da estação até ao seu local de trabalho.

“− Para onde vais? – Kimberly questionou Adam ao se aperceber que ele não a seguia. – A estação é para aqui.
− Eu sei, vai andando. Eu já te apanho! – Adam sorriu e acelerou os seus passos.”

Kimberly preferiu não questioná-lo, iria confiar nele. Não tinha entendido o porquê de ele ter dobrado a esquina no sentido contrário ao do caminho para o metro. Preferiu não pensar sobre o que ele tinha a fazer para a deixar ir andando à sua frente.
Na estação de metro, Kimberly começava a descabelar-se. Os bilhetes que tinha tirado tinham hora marcada para as sete e quarenta e cinco minutos, e nada dele, batia com as unhas no relógio de pulso pela ansiedade.
Enquanto tentava encontrar o seu rosto algures, Adam apareceu, sorriu e acenou-lhe. Kimberly ficou aliviada por ele finalmente ter aparecido, porém a sua curiosidade em saber o que ele tinha ido fazer ficou ainda mais aguçada.
Onde foste? – Kimberly deu-lhe um selinho.
− Desculpa ter-te posto um pouco preocupada, mas eu preciso de ainda mais coragem para fazer o que vou fazer… − Adam desabafou num fluxo envergonhado. Kimberly processou as palavras e olhou de seguida para ele sem assimilar as suas palavras. Adam penteou os fios com os dedos, puxando-os para trás e suspirou.
Adam flexionou um joelho no chão em frente a Kimberly, que não queria acreditar no que se passaria a seguir, e enterrou a sua mão no bolso direito na procura insana daquela pequena caixinha.
− Adam, tu não…. – Imensas pessoas já tinham parado a rotina das suas vidas para observar o casal.
− Por favor, não digas nada ainda… − Adam riu, mas sabia que era o nervosismo que o dominava. – Eu não sei quanto a ti, mas acho que já é a hora de elevar isto. Aceitas casar comigo? – Adam não conseguia fixar os olhos dele em Kimberly, sentia-se asfixiado pelos olhares dos outros, mas o dela… Ah, o olhar dela. – Por favor, diz alguma coisa! – O “público” gargalhou e já havia alguns com lágrimas.
− Tu és louco? É claro, que eu aceito! – Kimberly gritava com euforia e com lágrimas nos olhos. Adam encaixou delicadamente o anel, levantou-se e beijou-a. Todos os que iriam embarcar aplaudiram euforicamente. −  O que te passou pela cabeça para fazeres isto? −  Kimberly perguntou-lhe ao ouvido.
−  Eu lembro de teres elogiado uma cena de pedido de casamento de filme e como adorarias um pedido de casamento inusitado.


Eighth Chapter
I Found a Man I Can Trust and Boy I Believe in Us
Publicado a: 28/10/2017


I found a man I can trust
And boy, I believe in us
I am terrified to love for the first time
Can't you see that I'm bound in chains?
I've finally found my way
– Christina Aguilera in Bound to You

Kimberly encarou o anel com que Adam lhe tinha acabado de propor, tentava de alguma forma assimilar tudo. Há pouco mais de alguns anos eram apenas melhores amigos que tinham perdido o contacto pela diferença das suas vidas, e agora… Ela estava noiva dele. Parecia um sonho, um sonho maravilhoso, um romance encantado. Kimberly iria realmente ter uma vida ao lado de Adam.
Adam puxou-a mais para si, como sinal do orgulho dele, de finalmente a ter como sua. Kimberly ainda sentia as mãos de Adam a tremer na sua cintura, podia discernir o seu alívio ao agradecer às várias pessoas que felicitavam o casal, podia perceber que o seu sorriso era todo ele verdadeiro.
Fizeram parar todos os que esperavam naquele metro, fizeram o dia de algumas pessoas valer a penas depois daquela cena carinhosa, mas mesmo assim a vida daquelas pessoas teria de continuar.
Kimberly e Adam sentaram-se no fundo do vagão, lado a lado, sorriam como adolescentes, amavam-se como crianças. Kimberly descansou a sua cabeça no ombro de Adam, era cativador poder descansar a sua cabeça no seu peito ou ombro, sentir o perfume dele que acabava por ficar nela também.
Adam elevou a sua mão, Kimberly entendeu e entrelaçou a sua mão na dele. Não disseram nada, com o pouco já havia sido dito muita coisa.
− Os teus pais vão ficar bastante surpresos. – Adam riu suavemente. Era verdade. Lembrava-se dos amuos constantes que Kimberly tinha, ele pensou por imenso tempo que fosse alguma síndrome do amuo inesperado, quando lhe tocavam no assunto “casamento”.

         “− E tu, Kim? Já de olho noutro futuro maridão? – Mark adorava enfadar a sua irmã com assuntos que tinha a certeza que a irritariam.
− Mark vai-te fuder, okay? – Kimberly bufou e continuou de costas voltadas para o irmão. – Porque não te vais babar pela Isabella? – Mark não se atingia facilmente pelas coisas que lhe eram ditas, nem que fossem verdade.
− Olha a língua, piolha. – Mark riu-se. – Não precisas ficar tão azeda depois de teres discutido com ele. Eu sei que gostas dele, sei desde que vocês se tornaram extremamente chegados.
− Não tem nada a ver com ele, okay? Já sabes que não acredito nisso de casamento, casas hoje e divorciaste amanhã, é um desperdício de dinheiro. – Kimberly tirou as mãos do irmão dos seus ombros. Mark voltou a rir.
− Claro… A prepósito, ele já está aqui. – Mark continuou a rir-se.”

Adam intendia muito bem, hoje em dia, o porquê de ela se chatear tanto com o assunto do “casamento”, ela tinha ficado de plateia enquanto ele saía com outras. Kimberly nunca o prendeu, mas demonstrou ciúmes, conseguia controlar-se a maior parte do tempo. Ela também tinha tido os seus “namoricos”, mas nada que fosse relevante
− Os teus também… Eu lembro-me daquelas conversas que eles tinham sobre nós, na cozinha. – Kimberly riu-se olhando para Adam que parecia apaixonar-se mais ainda a cada segundo dela. −  Foi constrangedor saber que eles já tinham conhecimento dos nossos sentimentos antes de nós mesmos. − Adam lembrava-se de ela lhe contar, porém sem saber dos sentimentos dela por ele.

“ – Não sei quanto a ti, mas eu gostaria de ter a Kimberly como nora. – Glória mexia o seu chá, sentada à mesa. Louis riu fraco, parecia confuso.
– Não achas que eles são muito novos para estares a pensar em casá-los? Eles nem namoram… – Louis defendia a lógica que se mostrava, tudo fisicamente dito.
– Até parece que nunca foste adolescente. – Glória riu. – O Adam conhece a Kimberly desde os treze anos, já faz quatro anos que se entendem como “melhores amigos”. – Glória fez aspas com os dedos. – Ela almoça, janta, lancha, fala, ri e mais alguma coisa connosco, não é apenas o Adam que a tem em consideração. Seria uma história de amor fantástica. – Lambeu por fim a colher. Louis sorriu como se desejasse que os argumentos da esposa fossem reais.
– Sabes bem que o Adam tem dedo podre. – Louis riu das próprias palavras.
– Tal como o pai. – Glória troçou do marido. Louis não levou a mal, achou piada ao que a sua esposa dissera, era verdade que eles demoraram anos para começarem a namorar, tal como o filho.
Kimberly tinha descido do quarto de Adam para buscar o seu casaco à cozinha, acabou por ouvir a conversa através da porta entreaberta, subiu sem o casaco.”

– Seria uma boa ideia organizar um jantar de família e surpreendê-los com a notícia. – Kimberly sugeriu. Adam e Kimberly viviam num apartamento com espaço suficiente para uma família enorme como a deles.
– Estou ansioso por ver a cara deles. – Adam já previa qual seria a reação dos seus pais e irmãos, eles pensavam que ele nunca seria capaz de possuir Kimberly como esposa.
– Parabéns, meus jovens! Nós vimos o pedido de casamento e não somos capazes de não ficar felizes por vocês! – Um casal de idosos, na casa dos oitenta anos, sentou-se à frente de Adam e Kimberly.
– Obrigada! – Adam e Kimberly agradeceram, sorriam mais do que os seus músculos faciais permitiam, mais do que os olhos conseguiam transmitir. O casal de idosos não deixou a conversa morrer ali. Apresentaram-se, eram Ally e Jonathan, casados há sessenta e três anos, conheciam-se desde a pré-adolescência, tal como eles.

Thursday, 07:58 a.m. Metro, Arizona
Ally e Jonathan perguntaram pela história deles e amavelmente contaram, também, a sua. Ally era filha de uma empregada da mansão dos pais de Jonathan, não foi fácil os pais de ambos aceitarem, eram classes sociais diferentes, vinham de mundos completamente diferentes, eram épocas diferentes.
– Foi ótimo conversar com vocês, meus jovens. É bom saber que ainda há pessoas verdadeiramente apaixonadas nestes tempos egoístas. – Jonathan desabafou olhando para Adam com honestidade. Pareciam o reflexo do jovem casal.
– Concordo, meu amor. Querem saber uma coisa, durante o vosso casamento haverá, sem dúvida, algumas das muitas discussões, mas desistir não é a solução. A solução é saber que as discussões acontecem, fazem parte, mas não são o fim. – Ally aconselhou Adam e Kimberly, era a voz da experiência. Adam e Kimberly temiam se algum dia colocariam o divórcio como solução. Entreolharam-se, sorriram e agradeceram o conselho e os dois dedos de conversa.

Thursday, 08:08 a.m. Arizona Police, Arizona
– Adam e Kimberly, porque caralhos vocês estão atrasados? – Lucille estava em frente à porta do elevador do piso de trabalho da equipa. Se havia coisa que aquela mulher não tolerava nem por sombras eram os atrasos.
– Ai, Dona Lucille… Calma, por favor. – Adam falou mais sereno que nunca, o que já vinha a ser mais vulgar em relação ao seu humor. – Nós temos novidades. – Adam tinha um dos seus braços sobre os ombros de Kimberly.
– Adam, não testes a merda da minha paciência, que já agora é pouca. – Lucille olhou-o sem sombra alguma de paciência para aquele tipo de joguinho.
– Tanto faz… – Adam rolou os olhos. – Nós estamos noivos! – Adam anunciou-o com uma presença de euforia e alegria abundante na sua voz.
– Não?! Como assim? Oh meu Deus, meninos! – O estado de espírito de Lucille tinha passado de mal-humorada para surpresa e visivelmente contente. Cobriu a boca com as duas mãos. – Pessoal! Peço que voltem a atenção para aqui. – Lucille correu para o meio das pessoas naquele piso. – Os vossos colegas têm uma coisa a anunciar. – Lucille passou a palavra ao casal.
– Nós estamos noivos, sem brincadeiras! – Kimberly anunciou abraçada a Adam que a olhava profundamente. Ela sentia-se segura, plena somente com o seu olhar.
Todos os presentes ficaram surpresos, batendo palmas como felicitação aos mais recentes noivos. Adam puxou Kimberly mais para si, envolvendo-a nos seus braços, tal como fazia depois que faziam amor, por momentos ela pôde esquecer que estavam imensas pessoas à sua volta. A equipa, com que eles trabalhavam, começou a gritar por um beijo, era tentador recusar o pedido. Kimberly olhou para cima e beijou os lábios de Adam delicadamente, sem amassos em frente à plateia.
Adam e Kimberly sorriram e caminharam no meio deles, em direção aos seus lugares de trabalho. As felicitações de parabéns eram ouvidas e agradecidas a cada passo dado.
Adam acompanhou a sua noiva ao seu cubículo, queriam se recompor de toda a euforia pela qual tinham passado. Sabiam que teriam muito a explicar pessoalmente à sua equipa, a Lucille e em breve à sua família.
– Parece um sonho, tenho medo de acordar e mentalizar-me que era tudo uma fantasia. – Kimberly acarinhou a face de Adam que a abraçava por trás.
– Então, quero que saibas que se for um sonho, faz de tudo para que ele se torne realidade. Estou doido para te dar o meu sobrenome. – Distribuiu beijos por toda a extensão do pescoço de Kimberly, fê-la gargalhar.
– Okay, eu vou seguir o teu conselho. – Kimberly gargalhou uma vez mais. – Deixa-me começar a trabalhar, sim? – Kimberly arrepiou-se com os beijos e Adam largou-a por breves instantes.
– Okay. – Adam observava detalhadamente Kimberly dirigir-se para a fotocopiadora, velha que já apresentava problemas no seu funcionamento, mas que mesmo assim ela insistia em usá-la. Constatava o jeito calmo e único enquanto ela aguardava aquela chinfrineira acabar, o sinal de que estava ligada. Automaticamente, mordeu o lábio inferior e sorriu enterrando as mãos nos bolsos das calças, espreitou para certificar que a porta estava encostada e alguns fios de cabelo caíram para a frente dos olhos.
Kimberly sabia que ele ainda ali estava, mordia o seu lábio inferior, também, esperava que ele fizesse alguma coisa que a surpreendesse, como sempre fazia. Estava certa, Adam caminhou na sua direção e beijou o seu pescoço, arrepiando-a, virou-a para ele e colocou a sua franja para trás da orelha. Kimberly sorriu sentindo as mãos quentes dele próximas da sua pele, o seu único gesto foi colocar as mãos nas costas largas dele.
Adam selava os lábios dele nos dela, começando suave e delicado, mas que gradualmente se tornou nalgo intenso e envolvente da parte dela. Ambos sabiam que não acabaria bem. Adam sentou-a na fotocopiadora e levou as mãos ao rosto dela enquanto os beijos não paravam, ele podia jurar que Kimberly o repreenderia por estarem no trabalho. Kimberly notou a mão dele subir pela sua coxa por baixo do vestido. Arrepios e coração acelerado.
Adam e Kimberly escutaram um som estridente de saltos a baterem pelo chão do corredor, Lucille vinha aí. Tinham parado os beijos e os amassos, Kimberly desceu, ajeitou o cabelo e o vestido tal como Adam também ajeitou o cabelo e a camisa, mas não sem antes a apanhar desprevenida e a beijar pela última vez.
– Podemos? – Lucille questionou do outro lado. – Queremos ouvir como ocorreu o pedido, temos prioridades. – Lucille adentrou mesmo sem ouvir a autorização para entrar, ela e o resto da equipa.

Sunday, 06:37 p.m. Adam & Kimberly House, Arizona
Adam e Kimberly pediram o domingo de folga, tinham que contar a novidade à família, e para espanto de ambos, Lucille parecia mais empolgada com a ideia de eles se casarem que eles próprios, aceitando de caras. Só que não tinha sido fácil convencer a família mais próxima a jantar no próximo domingo. Conseguiram, por fim.
– Nervoso? – Kimberly colocou o último prato dos treze pratos na mesa do salão de jantares. Sabia que Adam estava nervoso porque estava sentado na ponta do sofá de canto a encarar o nada.
– Não sei, talvez… – Adam comprimia os lábios e esfregava as mãos. Limitava-se a seguir Kimberly com o olhar, ela sentou-se ao seu lado agarrando na mão esquerda dele.
– Lembras-te quando eu tive que telefonar ao meu pai para lhe contar o que se tinha passado? – Adam gesticulou positivamente com a cabeça. – Então, eu vou estar aqui para te tranquilizar. – Aquilo tinha aliviado Adam significativamente, ela sempre esteve ali.
– Obrigada. – Adam sorriu-lhe e encarou o chão. – Tu sempre estiveste aqui, sempre. – Adam acariciou a face esquerda dela. Kimberly fechou os olhos e deixou-se guiar pela voz pacífica dele, permitindo-se relaxar.
Adam, por fim, beijou-a sem malícia, sem segundas intenções. Adam tinha ainda a sua mão envolvida pelas de Kimberly, e uma vez mais tudo sobre o trajeto deles passavam em rápidos flashbacks. Tinha valido a pena esperar cada segundo…

Sunday, 08:27 p.m. Adam & Kimberly House, Arizona
Pouco mais de uma hora depois, os familiares foram chegando, pouco a pouco. Nunca tinham estado todos juntos na casa deles, era a primeira de muitas, mal eles sabiam.
Os pais de Adam, Gloria e Louis, foram os primeiros a chegar juntamente com Lyanne, Edward e o filho de ambos. A face de Kimberly devia estar extremamente ruborizada, era um jantar diferente daqueles que já tinham feito, ela agora era a futura-nora, torcia para que eles não desconfiassem de nada por enquanto.
Os irmãos de Adam, Thomas e os gémeos Nicholas e Alexander, tinham acabado de chegar à cidade, cansados depois de algumas horas de viagem. Os pais de Kimberly, Samantha e Bruno, chegaram por último acompanhados de Mark, o irmão de Kimberly, que tinha passado o dia no orfanato onde tinha vivido até aos seus oito anos.

Sunday, 09:13 p.m. Adam & Kimberly House, Arizona
– Nós ajudamos. – Parte da família ofereceu ajuda a Kimberly e Adam enquanto se levantaram dos seus lugares para começar a recolher os pratos das refeições, agora sujos e vazios.
Cada um recolhia o que podia levar, quer fossem pratos, talheres ou copos seguindo uma espécie de fila bem animada e faladora onde os diálogos se fundiam. As doze pessoas presentes conseguiram levar tudo de uma só vez, enquanto Lyanne e Edward deitavam um olho, alternativamente, ao pequeno August, uma vez ou outra, de modo a certificarem-se que estava tudo bem.
– É agora? – Adam encostou-se à banca. Já tinham todos saído. Stalteri reparava no decote delicado de Kimberly ao qual não tinha ainda prestado atenção por conta dos nervos, sentia-se um completo adolescente.
– Sim. Não fiques nervoso, é a nossa família. – Kimberly sorriu-lhe e acariciou-lhe o rosto, fazendo o seu coração saltar e acalmar num misto. Kimberly sorria intensamente num ato de coragem, esticou-se e selou os seus lábios nos dele.
Saíram da cozinha e pressentiram a tonelada de sorrisos casamenteiros caírem sobre eles. Sentaram-se lado a lado, como antes, e esperaram que alguém perguntasse alguma coisa.
– Qual foi a finalidade deste jantar? – Mark perguntou quebrando o silêncio letal para Kimberly e Adam. Kimberly agradeceu-lhe mentalmente por ter feito a pergunta, aparentemente descabida, no momento certo.
– Mark! – Samantha bateu com falta de força na nuca do próprio filho como repreensão, Mark olhou-a com ingenuidade.
– Mãe, não precisa repreender o Mark. – Kimberly sorriu para a mãe e depois para Adam, como um sinal. – Nós realmente pretendíamos fazer um anúncio com este jantar. – Olhares de confusão.
Nós vamos casar. – As vozes dos dois disparam, difundidas e com pausas de suspense, não deixando muito à imaginação.
Todos se entreolharam com surpresa e de boca aberta. Não esperavam que aqueles dois adolescentes um dia, quando se tornassem adultos, se casassem. Completavam-se, todos sabiam disso, mas pensavam que histórias de amor entre melhores amigos eram dos livros, dos filmes, nunca da realidade. Aquilo tinha os apanhado completamente. Afinal, os livros são inspirados na vida real, e não o inverso.
– Oh meu Deus! – Samantha pronunciou-se no meio do silêncio que aumentou a frequência cardíaca do casal mais recente de noivos. Beiravam um ataque cardíaco. Aquela interjeição era positiva? Negativa?
Samantha levantou-se do seu lugar e apressou-se para abraçar os dois que permaneciam em pé, desfez-se em lágrimas ali mesmo. Vozes baixas decoravam o fundo, tinham-se levantado todos para os abraçar e parabenizar.
Os pais de Adam e Kimberly mostravam-se mais emocionados enquanto o resto da família estava com um sorriso parvo estampado na cara, maravilhados com o futuro, a família que eles ergueriam a partir dali.
– Oh meu Deus! Eu rezava para que o Adam conseguisse arranjar juízo e olhem! – Glória ainda estava surpresa, fazendo com que todos se rissem.
– E eu apelava a todos os Deuses já descobertos para que a Kim encontrasse um homem que não a fizesse chorar. – Bruno continuava sentado, evitando ficar tempos infinitos em pé. Samantha abraçou o marido e o filho.
– Acho que já não se precisam preocupar. – Kimberly estava abraçada a Adam. Os seus olhos foram de encontro aos de Adam e o sorriso nasceu nos dois rostos.
– Beijo! Beijo! – A família, que a partir de agora seria apenas uma, gritava euforicamente por um beijo do recente casal de noivos. Adam e Kimberly olharam e riram e atenderam ao pedido. Kimberly escondeu o seu rosto no peito do noivo.

Monday, 02:01 a.m. Adam & Kimberly House, Arizona
A família tinha ido embora tarde, mesmo sendo domingo, tinha sido uma exceção para todos. Adam e Kimberly não se preocupavam em chegar tarde, Lucille e o trabalho podiam esperar. Não queriam ser futuros ascensores a viciados em trabalho. Queriam que o tempo parasse por alguns minutos para puderem olhar para o que estava a acontecer.
– Não te assustes com as conversas da minha mãe. – Adam colocou uma madeixa de cabelo de Kimberly atrás da sua orelha. Ela não intendeu o seu propósito. – Agora que vais ser a nora dela, ela vai começar a exigir-nos netos. – Adam riu.
– O mesmo serve para ti. – Kimberly estava sentada ao lado de Adam na beira da cama. – Já te perguntas se tivéssemos começado a namorar na adolescência, isto podia talvez não resultar?
– Nunca parei para pensar profundamente nessa questão. Acho que quando eramos mais novos estávamos demasiado preocupados em reclamar que nunca amaríamos como os nossos pais e por outro lado nos recusávamos a tal.
Kimberly sorriu da maneira mais encantadora possível. Não tinha do que reclamar. O seu noivo era o seu melhor amigo da adolescência, que a respeitava, que a amava sem nunca a magoar. Anos atrás pensava que era uma perda de tempo e uma tortura emocional ainda pensar nele.
Adam sorriu e baixou a cabeça. Já não sabia o que era acordar num vazio completo. Casaria com ela dentro de três mêses, com a melhor amiga de adolescência. Foi ingrato ao ir embora quando havia uma espécie de tensão entre eles, foi ingrato ao desabafar com ela sobre as outras e foi ingrato quando não a procurou. Parecia que tudo naquilo que não acreditou, que deixou escapar pelos dedos lhe tinha sido dado em dobro.

Monday, 10:32 a.m. Arizona Police, Arizona
– Graças a Deus que apareceram! – Kennedy não terminou de mexer o café e pousou-o na secretária. Começou uma rusga pela sua secretária a fim de encontrar uma pasta para entregar a Adam ou a Kimberly.
– Que inocente, Kennedy! Estes atrasos são só os primeiros. – Lucille dobrou o corredor. – Acontece com todos! – Gritou.
– O quê?! – Kennedy debruçou-se sobre a secretária. Adam e Kimberly desfizeram em gargalhadas pelas conotações de malícia nas frases de Lucille.


Three Months Later
Sunday, 06:31 a.m. Adam & Kimberly’s House, Arizona
A família tinha sido dividida. Mulheres para um lado e homens para outro. Lyanne e Glória tinham estipulado que Adam passaria a noite noutro lugar qualquer, sabiam que ele tentaria perfeitamente ver Kimberly vestida de noiva.
– Kim? Querida, acorda. – Kimberly sentiu as mãos da sua mãe a abaná-la no esforço de a despertar e o peso de outros corpos espalhados pela sua cama.
A noite anterior tinha sido um tanto quanto confusa, era a última noite em que estaria solteira. A família toda tinha-se voltado a reunir para um jantar n um restaurante bem rústico perto da casa deles, era um ambiente acolhedor, que por algum motivo lembrava-lhes as memórias que já tinham.
Tinham voltado para casa Kimberly, Lyanne, Glória, Samantha e Bruno, que poderia muito bem precisar da ajuda da esposa durante a noite. Glória e Lyanne, contra a vontade de Adam, obrigaram-no a passar a noite com o resto dos homens na casa de Lyanne, sabiam que ele tentaria ver Kimberly vestida de noiva antes do casamento, mesmo que não tivesse intenção de o fazer, acabaria por fazer alguma coisa que o atrasaria a ele e a ela.
Tentaram tranquilizar Kimberly, que parecia estar mais nervosa com a aproximação do casamento, fizeram-na rir e chorar com os filmes que tentaram ver e com as histórias da adolescência que partilharam no círculo de colchões que reuniram na sala.
Era meia-noite quando começaram a pesar as pálpebras de Kimberly e Lyanne, se bem que por Gloria poderiam continuar noite afora. Kimberly partilhou a cama de hóspedes com as duas, Lyanne e Glória, enquanto a sua mãe e o seu pai ficariam na sua cama, que era muito maior e mais acolhedora.
Foi uma tarefa difícil adormecer, não só pelos nervos, mas também por Gloria e Lyanne que pareciam dois papagaios. Lyanne soltava algumas piadas enquanto Gloria soltava outras e contava “segredos” embaraçosos sobre o filho.
A noite tinha passado num abrir e fechar de olhos, embora não se sentisse cansada. Estava bastante tranquila, sentando-se na cama, puxou o lençol e tapou o peito. Não estava ainda em si.
Gloria sorria desesperada encarando a sua futura-nora. Nenhuma das mulheres ali presentes tinha palavras para o momento. Não podiam crer que todas aquelas frases “A tua filha ainda será minha nora” se fossem tornar verdade algum dia.
Kimberly passou as mãos no rosto e levantou-se, dando início a todo o processo de transformação que teria pela frente. Sem pensar e sem se perceber, abraçou Gloria sussurrando-lhe ao ouvido um “Obrigada”.

Sunday, 11:14 a.m. Adam & Kimberly’s House, Arizona
Kimberly já estava vestida, delicadamente. Um vestido com bordados e rendas na parte superior e branco na saia, nada espalhafatoso, tal como Kimberly insistia. Ver-se assim ao espelho é estranho, vestida com um vestido de casamento e maquilhagem e acessórios a preceito.
Samantha já chorava atrás de Kimberly, a sua imagem no espelho refletia mesmo acima do ombro da filha que não hesitou em virar-se e abraçá-la o mais forte possível. Aquilo não era um adeus, mas porque estavam a agir dessa maneira? Lyanne também abraçava Gloria, ambas emocionadas.
− Nunca pensei que fosse assim. Nunca pensei que fosse tão difícil ver-te crescer assim tão depressa. Parece que foi há uns dias que viestes para cá, que ficaste presa. – Samantha riu. – E agora, agora vais casar….
Gloria arfou pesado. Apesar de Adam ser um dos seus quatro filhos, Adam era o filho com o espírito mais aventureiro, que passava bastante tempo longe, mas que telefonava todos os dias ao final da tarde. Nunca culpou o filho por ele estar maioritariamente longe, mas culpava-se por na maior parte das vezes não ouvir as maravilhas que ele tinha para falar sobre as suas viagens. Talvez fosse isso que o fizesse ir.
− Vamos? – Lyanne pronunciou-se, por fim. Limparam as lágrimas e saíram daquele quarto, prontas para descer até ao carro que as levaria à igreja.


− Adam relaxa! Estás-me a atrofiar! – Kennedy agarrou o braço de Adam que se preparava para dar mais uma volta à igreja, irritando os convidados presentes com alguma pergunta como “Precisam de alguma coisa?”.
Adam nunca se tinha sentido assim na sua vida. Estava nervoso, a tremer de ansiedade e não parava quieto ansioso para ver Kimberly a entrar pela aquela porta castanha.
− Vou vomitar… − Adam desabafou abafando a voz com as mãos.
− Sossega! Ela deve estar aí a vir, é normal ela atrasar-se uns… dez minutos. – Kennedy olhou para o relógio. Começava a stressar-se com a impaciência do melhor amigo
Um barulho de um carro perto da igreja chamou a atenção de Adam. Petrificado, olhou para Kennedy que o olhou com entusiasmo. Podia jurar que sentiu o seu coração errar uma batida.
Kennedy abanou de felicidade, pronunciou algumas palavras às quais não prestou atenção nenhuma. Todos estavam nos seus lugares com a cabeça voltada para a porta de entrada.
A marcha nupcial começou a ecoar por toda a igreja acompanhada da abertura da porta. A luz intensa do exterior impossibilitava-o de ver os rostos de quem entrava. Assim que se foram aproximando, conseguia gradualmente ver a cara sorridente a ponto de choro de Kimberly e Bruno que se mostrava muito orgulhoso da sua filha, este fazia-se acompanhar da sua muleta caso o equilíbrio se fosse.
Kimberly estava mais linda que nunca, estava maravilhosa. O seu vestido com bordados e rendas na parte superior salientavam o peito dela, os sapatos brancos de salto mal se viam no movimento dos seus passos misturados ao movimento quase vivo da saia.
Parecia segurar o choro a todo o custo, ao contrário dele. Adam já tinha deixado uma lágrima fina e curta escorregar face abaixo.

Sunday, 12:29 p.m. Church, Arizona
− Eu, Adam, recebo-te por minha esposa a ti, Kimberly, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. – Adam tremia mais que varas verdes. Com delicadeza e num momento de controlo conseguiu colocar-lhe a aliança no dedo.
− Eu, Kimberly, recebo-te por meu esposo a ti, Adam, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. – Kimberly deu liberdade a duas lágrimas, caindo diretamente num ápice.
Depois das alianças postas, Adam e Kimberly ficaram a encarar-se por breve instantes, conversando através de sorrisos, fazendo daquele momento só deles, ignorando todos os outros, até mesmo às poucas palavras que o padre tomou continuação.
− Eu vos declaro marido e mulher. O noivo pode beijar a noiva.
A cerimónia estava por encerrar. Os noivos, agora casados, olharam-se e Adam avançou. Agarrou-se ao seu corpo num abraço apertando-a contra o seu peito, com um beijo curto e delicado. Era o primeiro enquanto casados.
            Separaram-se e olharam para os convidados, e sem surpresa, notou a felicidade líquida da sua mãe e Lyanne, mas quem a tinha surpreendido por algum motivo foi Mark. Mark era o tipo de homem alto, musculado na medida certa, “bruto” de primeira vista e que se recusava, se martirizava a não a chorar, mas naquele momento… naquele momento estava desfeito. O seu coração de irmã apertou-se num sentimento de agonia ao vê-lo assim, restou-lhe mandar um beijo no ar.

Sunday, 02:07 p.m. Wedding Reception, Arizona
Depois da cerimónia, seguiram-se para o local do copo-d’água, onde os pais de Adam e Kimberly e os próprios cumprimentam todos os convidados e receberam as felicitações. Foi um momento mais descontraído depois de todo o nervosismo e ansiedade. Os aperitivos apelavam à sensação de descontracção e o ambiente das fotografias entre os noivos e convidados.
Depois da carga de fotografias com que tinham sido bombardeados à mistura de dois dedos de conversa, entraram para o salão do copo-d’água. O salão do copo-d’água era bastante luminoso, de decoração simples, mas requintado, cores suaves… simplesmente maravilhoso.
Tudo tinha sido organizado minuciosamente sem grandes exuberâncias pelas mães dos noivos, que se tinham oferecido para que eles não tivessem memórias terríveis de algum acontecimento que poderia ter sido facilmente evitado. O bolo tinha ficado a encargo de Lyanne que não desiludiu com a sua função.
No final da tarde, foi o aguardado momento da valsa. Primeiro os noivos e só depois com os convidados no geral.
Kimberly tinha-se preparado mentalmente de que iria rir muito com isto, Adam não possuía dotes tão desenvolvidos para a dança. Lembrava-se perfeitamente do quanto ele tentava padronizar os seus passos com os dela.
Adam deu uma das suas mãos a Kimberly e a outro ficou nas suas costas. Surpreendentemente, ele não olhou sequer uma vez para os seus pés no início da música que tinha escolhido há semanas.
− Parece que aqueles anos sem nos falarmos, te fizeram muito bem! – Kimberly sussurrou-lhe ao ouvido ironizando o facto de ter melhorado os seus dotes de dançarino.
− Só com um milagre isso aconteceria. Tive que ter aulas três semanas antes do casamento. – Adam riu fraco sob o olhar espantado de Kimberly.

Sweet love, sweet love
Trapped in your love
I've opened up, unsure I can trust
My heart and I were buried in dust
Free me, free us

− Achas mesmo que eu deixaria que te risses de mim? – Kimberly riu. – Estava a brincar, esse não foi o motivo. Aprendi o básico para te surpreender.

You're all I need when I'm holding you tight
If you walk away I will suffer tonight

Kimberly balançou a cabeça embalada no seu próprio riso, olhou para Adam. Voltou a sentir o que sentiu na primeira vez que o começou a ver doutra forma, não tinha mudado imensamente, era o mesmo sentido de desmoronar sem razão ao ver o seu melhor amigo concorrido.
− Sabes – pausou entre as palavras – estou a sentir o mesmo que senti quando te comecei a ver de outra maneira. A única diferença é que antes era só e apenas a tua melhor amiga e agora… agora sou a tua esposa. – Kimberly falou séria. Adam desfez-se em sorrisos e beijou-a superficialmente nos lábios.

I found a man I can trust
And boy, I believe in us
I am terrified to love for the first time
Can't you see that I'm bound in chains?
I finally found my way
I am bound to you
I am bound to you




Ninth Chapter
First Problems
Publicado a: 27/12/2017


So come on now
Strike the match, strike the match now
We're a perfect match, perfect somehow
We were meant for one another
Come a little closer
– Sia in Fire Meet Gasoline

Two and Half Years Later
Num piscar de olhos, dois anos tinham-se passado. É revoltante afirmar com total certeza que dois anos não eram muito e que passavam depressa, mas por outro lado, era bastante tempo. Era tempo suficiente para tudo mudar.
Tinham-se passado cerca de dois anos e meio desde que se tinham casado.
Lembravam-se de todos os detalhes se lhes perguntassem hoje pelo dia do casamento, pela lua-de-mel, pelos aniversários de casamento… Infelizmente, neste momento atravessavam uma certa “crise” no casamento e na vida, em geral.
Kimberly controlava Adam para ele não partir para cima de alguém que teimava em comentar a vida deles.
Eles ainda nem estão casados há cinco anos e já têm uma crise?!
Mas o pai dela já não estava para bater a bota?
As bocas de lavandaria e os corações mal-amados teimavam em comentar a vida deles como casal, em como eles ainda estavam há pouco tempo casados, de alguma maneira insinuavam que se separariam em breve, e sobre a vida da família de Kimberly.
Já há um ano que Kimberly tinha muitas vezes de viajar à última da hora para New York por causa do seu pai que piorava depois de uma pequena recuperação. Muitos tomavam as dores dos outros, a inveja via-se quando diziam que usava desculpas descabidas e que possuía um certo privilégio por ser casada com Adam.
Com isto, já lhe tinha valido uma crise de ansiedade.
Kimberly tinha acumulado, ao longo de um certo período de tempo, stresse com o trabalho e preocupações sobre o seu casamento e sobre o seu pai. Uma vez mais, tinha sido Adam a acalmá-la.
Apesar de não ter nenhum drama familiar, felizmente, preocupava-se com o seu casamento, como ela se sentia. A sua Kimberly parecia ter sido substituída por outra, por outra mais sóbria, mais quieta, mais apagada.
O nome dela acabava por vir sempre à baila quando conversava com Kennedy, não importava o que estavam a fazer, “Kimberly” acabava por entrar na conversa de um modo ou outro.

“ – E quanto a ela? – Kennedy encarava os relatórios.
– Como assim quanto a ela?
– A Kimberly, a tua esposa. Como vão as coisas entre vocês, com ela? – Kennedy ainda se questionava sobre o nível de lentidão do melhor amigo. Seria ele um candidato a viciado no trabalho ou pura e simplesmente distraído?
– Ah, Kim… – Adam suspirou. – Não sei. Ela parece outra pessoa, mais apagada do que aquilo que era, como se tivesse sido substituída.
– Já tentaste abordá-la sobre isso? – Kennedy deixou completamente o trabalho de lado, encarava Adam que estava vidrado em ler alguma parte dos relatórios.
– Não… Não sei se ela se sente à vontade com isso. Eu nem sei se devo levar o estado dela de apagada como algo grave…
– A tua esposa mudou completamente há meses, claro que te deves preocupar! Aborda-a para que ela te veja como alguém com quem deve contar. – Kennedy voltava-se a questionar sobre a falta de agilidade que Adam tinha com Kimberly. Adam nunca tinha sido acanhado fosse o fosse sobre os sentimentos de alguma mulher que tivesse namorado, mas com Kimberly era totalmente diferente.

A diretora do Departamento de Criminalística Cibernética deu ouvidos às sugestões de Kimberly, oferecer estágios renumerados e, as pessoas que se destacassem mais, convidá-las a ficar para trabalharem com eles.
Kimberly responsabilizou-se em instruir os estagiários, dando-lhes a oportunidade de ver os conhecimentos cibernéticos como algo que pudesse ser usado para o bem. Viola, a diretora do Departamento de Criminalística Cibernética, tinha-a debaixo de olho, fazendo questão de a colocar para baixo sempre que possível.
Lucille adorou a iniciativa de Kimberly, felicitou-a pela sua ideia e pela maneira como trabalhava com eles. Kimberly não era só uma colega de trabalho, uma colega com um cargo abaixo do seu, Kimberly começava a pertencer aos círculos de amizade de Lucille.
Lucille aproveitou e recrutou alguns estagiários e voltou a chamar pessoas que já lá tinham trabalhado por pouco tempo, mal sabiam que isto podia ser um futuro problema. Katniss, uma estagiária jovem, alta, bela, digna de uma capa da Vogue. Por onde passava todos se babavam, exceto Adam.
Adam não demonstrou qualquer admiração por ela, nem mesmo Kennedy. Havia alguma coisa nela que Kennedy não lhe confiava, aconselhou Adam, também, a afastar-se para mais longe possível dela. Katniss demonstrava um interesse esmagador nele, mesmo reparando que usava um anel em ouro no quarto dedo da mão esquerda.
Para Kimberly aquilo tinha sido uma facada, já não bastava o seu casamento estar em crise, a sua vida pessoal estar em crise, e aparecer uma puta qualquer. A sua auto-estima foi pelo cano abaixo, completamente.
Katniss era tudo o que Kimberly não era. Katniss era alta, esguia, de cabelo curto, loiro e cheio de vida e cujas roupas Kimberly nunca pensou em sequer comprar pelo estrondoso preço. Kimberly olhava para si e para ela. Sabia que o seu pesadelo começara ali mesmo, mesmo ainda sem ter provas para comprovar tal coisa.

Friday, 08:38 p.m. Stalteri House, Arizona
– Como foi a primeira semana da nova estagiária? – Kimberly estava sentada de frente para Adam. Jantarem os dois à mesma hora era, agora, um milagre, um luxo. Com o tempo passou de rotina a um luxo, Kimberly e Adam tinham horários bastante incompatíveis e ambos não se esforçavam muito para melhorarem a situação.
– Esteve bastante bem, o que não é de estranhar. Ela já lá tinha trabalhado, o que lhe dá uma certa facilidade em saber como as coisas funcionam. – Adam ficou indiferente ao assunto. Sabia muito bem o que Kimberly queria com aquela conversa.
– Achas que ela se poderá juntar à equipa principal? – Kimberly pousou os talheres sobre o prato vazio. Cruzou os braços em cima da mesa e encarou-o. Adam gelou, o seu olhar continuava penetrante e intimidador quando o questionava.
– A Katniss? – Adam conteve o riso. – Duvido. Ela é demasiado fútil para lidar com muitas das situações pelas quais passamos.
Kimberly não entendeu muito bem o que Adam pretendia dizer com “fútil demais”. Ele parecia tão seguro das suas palavras, como se a conhece a fundo. Ansiava que Katniss tivesse sido algo mais no passado de Adam.

Friday, 10:47 p.m. Stalteri House, Arizona
Kimberly estava no quarto a alimentar o seu vício, uma das suas melhores amigas ultimamente: a leitura. Há meses que Kimberly se tinha afundado nos livros, principalmente nos livros de romance.
Era um tremendo cliché, mas era a pura e irónica verdade. Kimberly detestava os géneros de fantasia e ficção-científica e evitava os de terror. Conviveu durante toda a sua vida com os olhares de estranheza, quando era perguntada sobre os grandes livros de fantasia, tais como Harry Potter, The Hunger Games
Ela acreditava piamente que os romances tornavam as pessoas mais amáveis, compreensíveis e, quiçá, com uma melhor visão da vida. Na verdade, era a sua paixão secreta puder viver outras vidas, pensar de outra maneira.
Era irónico procurar a cura em livros de romance, se o seu casamento estava uma merda? Estava estagnada do outro lado do piso a ler na sua cama, enquanto ele estava encafurnado em papéis do trabalho. O que lhes tinha acontecido?
O que era feito das promessas?

“Finalmente a festa tinha acabado. Estavam exaustos de toda a festa, mesmo que alguns tivessem ido embora às seis da tarde, ainda tinham ficado os amigos mais chegados e família mais intima para jantar num lugar no qual Kimberly jamais pensaria lá por os pés pelos preços.
Adam e Kimberly podiam muito bem ter ficado no seu apartamento se não fosse a teimosia de Gloria e Lyanne. Não havia volta a dar, elas já tinham pago dois dias num resort do outro lado da cidade.
Tinha sido muito simpático da parte delas aquela espécie de prenda de casamento, mas não era necessário gastar tanto dinheiro numa prenda. Adam e Kimberly estiveram para recusar, mas não conseguiam fazer essa desfeita à mãe e melhor amiga.
Aquele era o tipo de resort de luxo que transpirava dinheiro. Adam e Kimberly sabiam que não se encaixavam naquele ambiente assim que chegaram lá.
As pessoas à volta olhavam para eles com o nariz torcido. Eles agiam como pessoas reais, falavam entre si e riam. Riam pelo facto de se sentirem adolescentes rebeldes sem supervisão dos pais num local tão renomado. Era linda a inocência do amor deles.
Monday, 10:21 a.m. Phoenician Resort, Arizona
Depois de terem experimentado cada equipamento, explorado cada canto daquela suite presidencial, conseguiram adormecer ainda em êxtase. Nunca tinham estado num local tão caro, sentiam-se como duas crianças numa loja de doces.
Acordaram às dez da manhã quando os raios lhe alcançaram o rosto, não tinham com o que se preocupar em plena segunda-feira pela primeira vez nas suas vidas.
– Estamos no nosso apartamento, noivos e atrasados para ir trabalhar, certo? – Kimberly estava estranhamente serena, deitada sobre o peito de Adam.
– Não. Oh, esperei tanto para puder dizer isto! – Adam gargalhou fazendo-se acompanhar de Kimberly.
Kimberly parou gradualmente de rir ficando apenas a contemplar Adam.
– Kim? – Chamou a sua atenção. – Passa-se alguma coisa?
– Nada, só estava a pensar no quanto mudaste e eu nunca bem reparei nisso. É como se estivesse estado sempre ao teu lado, todos os dias. Lembro-me de ti com treze anos e agora já tens vinte e sete anos. Nós conhecemo-nos há catorze anos, Adam… – Aquilo soava como uma mentira.
Catorze anos. Conheciam-se há catorze anos…
– Quem diria… A mulher que eu pensava que nunca teria, está casada comigo. – Sentada a seu lado, Adam acariciou-lhe a face com a mão direita, em resposta fechou os olhos. – Prometo estar sempre a teu laod, até que a minha alma decida ir embora. Prometo que nunca te magoarei ou te farei sentir vulgar.
Adam estava cara a cara com Kimberly, sério. Não tinha descolado a sua mão grande do rosto delicado da esposa.”

Sem se dar conta, tinha fechado o livro sobre o colo e derramado algumas lágrimas ao lembrar-se daquela memória, uma de muitas. Sofria de uma espécie de ansiedade antecipada, desejava com uma força irracional saber se aquilo era uma má fase ou se seria o início do fim deles.
Lyanne era a sua mais valia nestas situações. Lyanne era a sua psicóloga, aquela a quem contava tudo sem medos, era a única que a deixava a pensar sem ela se chatear com isso. Sabia que muitas das coisas que Lyanne lhe questionava eram as coisas que ela tinha medo.

“ − E vocês? Já acabou a vossa crise matrimonial? – Lyanne e Kimberly passeavam à beira do lago Rose Canyon, onde Kimberly e Adam costumavam passear na hora de almoço, mesmo sabendo que se atrasariam.
− Que crise matrimonial?
− Kim, por mais que os anos passem, tu continuas a ser mestre em desviares-te dos teus problemas. – Lyanne gargalhou pelo evidente mau sinal que aquela característica que lhe concedia. – Eu sei que tu e o Adam estão a passar uma fase menos boa.
− Talvez. – Kimberly prendeu uma madeixa de cabelo atrás da orelha e olhou para onde o lago acabava, no seu ponto de vista.
− Vocês são duas cabeças duras, quem diria… − Lyanne suspirou sem encarar a prima. – Vocês já pensaram sequer em ter filhos? – Lyanne era assustadoramente direta.
− Acho que teríamos de planear isso primeiro e para isso acontecer, teríamos de estar bem.
− Ah, Kimberly. Tu ainda és muito inocente nesta área... Achas mesmo que isso é planeado? Achas que o August foi planeado como foi planeado um casamento? Isso simplesmente acontece, não precisa ser planeado, simplesmente acontece. Além do mais vocês são casados, não ficam em casa a jogar às cartas. – Lyanne olhava o horizonte, onde o lago acabava. Kimberly não tinha o que dizer, realmente ela ainda não se convencia que já estava na idade adulta e de que construir o futuro dependia dela.
Era óbvio que queria ter filhos e que o pai fosse Adam, mas sentia-se receosa se surpreendesse um dia Adam com uma bomba dessas, as coisas estavam agitadas no mar deles.”

Adam não era diferente dela. Apenas reprimia o que sentia. Engolia a todo o custo o que sentia. Eram quase onze horas da noite e ele ainda estava a trabalhar, o que se passava? Antes, ele proibia-se de trabalhar depois das nove e meia só para aproveitar o tempo com a sua esposa.
Além de se desobedecer, desobedecia à promessa feita ao seu pai. Quando ainda era pequeno, pequeno o suficiente para não saber o que anteriormente acontecia, tinha prometido ao seu pai que não seria como o avô que morreu viciado no trabalho, morreu sem conhecer de verdade a felicidade de se ter uma família.
Se antes lhe perguntavam que espécie de droga Kimberly lhe dava a tomar para o seu humor ter mudado positivamente, agora perguntavam-lhe que merda ele tinha feito a Kimberly para voltar a ser o mesmo mal-humorado de sempre.
A verdade era exatamente essa, a culpa de estar assim era inteiramente dele, era mesmo por ele já não fazer com que Kimberly fosse amada como no início. A culpa era toda dele. As emoções de Kimberly afetavam-no.
Já tinham discutido com pouca gravidade nos últimos seis meses, porém tinha muito medo de que o tempo trouxesse com ele as grandes discussões, as traições e o divórcio. Receava cair na estupidez de trair Kimberly, ele era muito melhor que isso e ela não o merecia.
Acarretava a culpa de se achar um merdas. Meses atrás, tinha ido a casa dos pais na desculpa de falar com a mãe, mas, no entanto, acabou aquela noite a chorar no colo da sua mãe, apenas para limpar a alma.
A sua mãe tirava-o daqueles pensamentos negativos sobre ele mesmo. Com a cabeça descansada no colo da sua mãe, a qual lhe acariciava os cabelos com a mão, tal e qual como lhe fazia quando ainda era um menino que chorava por ter desiludido um amigo seu.
A sua mãe falava-lhe suavemente e espontaneamente, tinha-o aconselhado muito bem naquela noite. Recebeu um conselho que agradeceu mas que ainda não sabia como o por na prática. Gloria dissera-lhe que ele só tinha de saber remar no sentido da corrente.
Qual corrente? Que sentido?
Tinha sido bom receber um beijo da sua mãe, foi bom poder cheirar o perfume da sua mãe, o calor maternal, que de certa maneira o lembrava de Kimberly. E por acaso seria verdade aqueles mitos ou verdades de que falam que os homens procuram mulheres parecidas às suas mães. Sem dúvida que ele invejava o seu pai por ter a sorte de ter a sua mãe como esposa. A única diferença é que o seu pai soube aproveitar.
A sua mãe era uma mulher determinada, corajosa e muito independente, o que lhe, segundo o seu pai, conferiu a vontade insana de a ter para si. Kimberly assemelhava-se à sua mãe, não seriam todas as que se arriscariam a ter cadastro criminal para se vingarem de alguém que afetava a saúde de alguém que amam.
Kimberly daria uma ótima mãe.

“Mal eles sabiam, mas era o último Natal antes de ficarem chateados um com o outro. Naquele momento não lhes interessava muito o que se passaria dali para a frente, nunca tinham tido problemas reais enquanto casal.
Lucille tinha dado liberdade à equipa de aproveitarem o dia de Natal sem preocupações, sem chamadas a meio do dia. A única regra a obedecer era ficar em casa e descansar.
− Aproveitem bem este dia. Quem sabe comecem uma família. – Lucile olhou para Kimberly e Adam que perceberam de imediato que a indireta era para eles. Ficaram envergonhados, todos estavam à espera que começassem de imediato uma família, incluindo Adam.
Adam não era o tipo de homem que pressionava Kimberly para ficar grávida ou que desejava ter vinte filhos. Queria ter filhos e que a mãe fosse Kimberly, mas que tudo fluísse de maneira natural.
Naquele Natal, podia jurar que Kimberly lhe diria que estaria grávida depois ter ouvido a indireta de Lucille e ter notado as más indisposições de Kimberly. Invés disso, Kimberly presenteou-o com um relógio de edição de colecionador. Lembrava-se dos seus objetivos de criança.
− Como é que tu tiveste dinheiro para isto?
− Não foi nada. Kimberly riu. – A verdade é que estavam muito bem na vida.

Restava-lhe agora enforcar-se com os seus pensamentos e culpas.



Tenth Chapter
Does He Love Me?
Publicado a: 15/01/2018

I watched you slip, slip away, no explanation
You on your phone, your laptop and your Playstation
I stared at the diamond on my finger and I waited
But the truth never came, but I know her name, so see you later
– Sia in Confetti

A Fortnight Later
Wednesday, 06:18 a.m. Stalteri House, Arizona
Kimberly achava uma loucura o gosto que Adam nutria por se levantar tão cedo, perto das seis da manhã. Se antes era a sua maior dor, agora era um prazer poder levantar-se tão cedo.
Não tinha coragem de acordar a sua esposa, não tinha coragem de a tirar daquela expressão tão delicada e plena, porque sabia que a noite lhe tinha custado. Kimberly tinha chorado, por algum motivo que desconhecia, em silêncio, o que lhe tinha conferido tempo a menos do seu precioso descanso.
Adam reconhecia-se como a representação perfeita de um covarde que não conseguia conversar com a sua esposa, mas sabia que tinha de tomar uma decisão naquele momento. Abraçou-a, abraçou-a como já não fazia há um bom tempo. Era uma sensação boa.
O corpo de Kimberly parecia ter sido feito à medida para que se encaixasse nele. Aquela sensação era maravilhosa, porque era espontaneamente pura. Adam pôde sentir o choro de Kimberly parar pouco a pouco e o seu coração aflito abrandar.
Adam colocava o relógio quando Kimberly ainda dormia de costas para a sua posição no quarto. Questionava-se o porquê das coisas se estarem a perder duma maneira que os dois não conseguiam controlar. Olhou para o relógio, era muito cedo. Kimberly entrava mais tarde, agora que os estagiários eram muitos mais e conseguiam adiantar e segurar as pontas. Sob a cama, debruçou-se e olhou para a expressão bela e plena da esposa, contornou o seu rosto com o polegar e despertou-a com um beijo suave nos lábios.
– Bom dia… – Adam sorria-lhe contidamente encarando a expressão preocupada de quem procurava o que dizer. Nunca na sua vida se sentiu assim tão tenso, nem mesmo quando em criança partia alguma coisa em casa.
– Desculpa… – Kimberly ergueu-se num sussurro, Adam entendeu o que se pretendia daquela situação. Sentou-se na cama próximo de Kimberly que o abraçou.
O abraço preocupava-o, era um abraço desesperado por calma, por paixão, por ternura. Restava-lhe seguir o ritmo das coisas que não controlava, passando as mãos pelos cabelos e costas de Kimberly como único consolo.
– Sem problemas. Ainda tenho tempo. – Adam olhou para o relógio, que indicava que faltavam quarenta minutos para se fazer ao caminho para o trabalho.
Ainda com Kimberly entre braços, deitou-se sem a largar. Kimberly passava os dedos pelos botões da sua camisa branca ao som de um último suspiro pesado e preocupado. Com as pontas dos dedos, Adam ergue-lhe o queixo para que esta o olhasse pela primeira vez naquela manhã. Foi em vão. Kimberly olhou-o por segundo e baixou os olhos, aconchegando-se no seu peito até adormecer.

Wednesday, 09:29 a.m. Arizone Police, Arizona
 – Não, tu não estás a intender. – Adam tinha o seu café em mãos enquanto chamava a atenção de Kennedy. – Ela nunca foi assim. Ela estava a chorar de madrugada e de manhã, simplesmente pediu desculpas e abraçou-me.
– Uma conversa fazia-vos um bem terrível. Mas tu és estupido… Mas para quê que eu te continuo a aconselhar? Diz-me! – Kennedy tinha sido o mais sincero na sua resposta. Sentia que o seu melhor amigo procurava uma resposta nele. Como podia Kennedy saber, se nem Adam que era o esposo sabia?
Adam limitou-se a rolar os olhos entre queixumes baixos, provavelmente reclamações por Kennedy não o ter ajudado, e a beber o café.


Wednesday, 10:17 a.m. Arizone Police, Arizona
Kimberly tinha chegado há pouco, mas já trabalhava a todo o vapor. Orientava e tirava as dúvidas dos estagiários, esclarecia problemas com a sua equipa e aturava pacientemente Katniss. Nem mesmo ela conseguia intender onde ia buscar paciência para conviver com a colega.
Katniss começava a tornar-se uma pedra no sapato. Assim que Lucille lhe pedira que auxiliasse Katniss com um problema, que nem mesmo ela quis saber qual era.
Kimberly não gostava de se achar superior, não gostava de por de parte, não gostava de ser rude com ninguém, mas havia alguma coisa em Katniss. Havia alguma coisa nela, ela provocava-a com patadas e bocas subtis mas que previa que iriam evoluir.
– Basta fazeres assim e já está! – Kimberly estava ao lado de Katniss a tentar explicar-lhe a solução simples ao seu problema simples. Desconfiava que Katniss não tinha nenhuma dúvida, que tudo não passava de um pretexto para trocar algumas bocas com Kimberly.
– Preferia a minha maneira, mais prática e enigmática para os outros. – Katniss soltou o verbo na esperança tonta de que a sua razão prevalecesse. Pobre Katniss, mal ela sabia que tudo o que fazia já não era enigmático para nenhum dos estagiários e superiores presentes.
– Ouve uma coisa, Katniss. A partir do momento que eu sou tua superior e sirvo para te ajudar, tu obedeces aquilo que eu ordenar. Estamos entendidas? – Kimberly aproximou-se mais perto dela, sentia a sua raiva acelerar-lhe o coração.
– Sim, chefe Kim! – Katniss dizia aquilo num tom de troça, era notável na sua voz. Os seus olhos azuis passavam-lhe com transparência a arrogância que habitava nela. Se Katniss pudesse, não ousaria em mostrar o seu lado tirano.
– Para ti é Kimberly. Como ninguém já devias saber como as coisas funcionam por aqui. – Kimberly sentia um súbito calor invadir-lhe o corpo. Katniss não ousava olhar Kimberly que a encarava, era o seu modo de provocar.
– Claro que sei. – Katniss sorriu matreira. – As coisas, as pessoas… Devias ter cuidado contigo e com o teu marido.
– O que pretendes dizer com isso? – Kimberly comprimia os lábios aproximando-se dela.
– Eu já cá estive e ele já cá trabalhava, muita coisa se pode ter passado na tua ausência. Sabes perfeitamente que ele é homem para ter quem quiser, tal como eu.
Kimberly limitou-se a pousar-lhe a mão direita no seu ombro, se estivessem forem do local de trabalho e da hora do expediente, não hesitaria em arremessar-lhe a cabeça contra o teclado ou a arrancar cada extensão.
– Controla a tua linda boca. Já devias saber que ele é o tipo de homem que sabe que tipo de mulher tu és… – Katniss encarou-a, por fim, incrédula por Kimberly ter respondido na mesma moeda.
Embora se tenha afastado, Kimberly ficou paranóica com as palavras de Katniss “… muita coisa se pode ter passado na tua ausência. Sabes perfeitamente que ele é homem para ter quem quiser, tal como eu.”, devia ela levar aquilo em consideração sequer? Conhecia muito bem o seu marido, mas em parte, Katniss tinha razão, durante a sua ausência podia ter ocorrido muita coisa. Seria ele capaz de ocultar tais acontecimentos?
Paranóia. Ansiava ela que fosse apenas isso.
Caminhava pelo corredor estreito, improvisado tempos atrás para a carga surpresa de estagiários, a sua claustrofobia agradecia. Os seus passos eram pesados, largos e desatentos. Restava apenas o fantasma da sua presença.
Assim que chegou ao seu cubículo, encostou a porta, tal como sempre fazia. Era um hábito de há muito tempo, achava que as portas entreabertas lhe conferiam total controlo. Sentou-se despreocupadamente na sua cadeira e suspirou.
Por instantes, fechou os olhos encostando a cabeça no apoio da cadeira. Mas que merda se estava a passar? Se todos os casamentos atravessavam uma crise, bem, estávamos sem dúvida perante uma, e das grandes.
Olhou para o ecrã do computador à sua frente, pensou. Queria ligar a Lyanne para desabafar, era uma prima, amiga com quem desabafaria tudo; por outro lado queria falar com a sua mãe, precisava de um conselho de mãe; e ainda por outro lado, queria falar com Mark, queria esquecer um pouco a sua realidade pobre e triste.

Wednesday, 10:34 a.m. Arizone Police, Arizona
– Bem! – Kennedy deu ênfase à palavra. – Tenho que te dizer, que mulher paciente e diplomata que tu tens. – Arregalou os olhos, mas sem nunca deixar de olhar para o redemoinho que se formava enquanto mexia o seu café.
– Como assim? – Adam estava perto da fotocopiadora que recentemente tinha sido, finalmente, substituída. Estava perdido nas palavras de Kennedy.
– Passei há pouco pela Kimberly e pela Katniss e bem… Que mulher! A Katniss provoca e ela responde na mesma moeda e sem perder a classe.
Adam não sabia que Kimberly e Katniss tinham uma picardia entre si, Kimberly já o tinha questionado sobre ela, é facto, mas nunca associaria tal coisa. Pensando bem, elas eram um perfeito oposto.
Não era pela picardia, a abominação que nutriam uma pela outra que o preocupava, mas sim que palavras Katniss poderia escolher para afetar a sua esposa. Tinha a plena consciência que Kimberly não era dissimulada ou o tipo de pessoa que emprenhava pelos ouvidos, só não duvidava das capacidades de Katniss.
– A sério? Ela pareceu-te muito chateada,…?
– Quem? A Katniss? – Adam negou. – A Kimberly parecia mais estar a controlar os instintos agressivos. Mas se tens tanta curiosidade vai ter com ela. – Kennedy lambeu a colher do café e viu apenas o vulto do melhor amigo sair corredor afora.
Sempre que morria de desejos de ver ou falar desesperadamente com Kimberly, os corredores pareciam dobrar o seu tamanho. Sabia que estava próximo do espaço de Kimberly quando o barulho e movimentação se fazia notar no horizonte.
Estava pior que nunca, era bom, mas não para ele que era um adepto fervoroso do pouco barulho.
Reconhecia como ninguém o cubículo de Kimberly, a porta entreaberta. Parou, pensou no que lhe perguntaria e diria e bateu, por fim, à porta. Não obteve resposta de imediato.
– Entre! – Kimberly parecia estar impaciente, não olhou sequer de soslaio para a porta.
– Podemos falar ou…? – Kimberly cortou-o de imediato.
– Ainda bem que apareces! Sim, precisamos e muito. – Adam iria começar por lhe perguntar o que a importunava. Mais uma vez, interrompeu-o. – Em casa falamos. – Aquilo gelou-o, jurava que sentiu um arrepio pela espinha abaixo. Kimberly não costumava dizer aquilo, muito menos quando o encarava e depois se virava para a frente, fazendo questão de o ignorar por completo.
Adam não tinha saído da porta, esperou que ela dissesse mais alguma. Suspirou e baixou o olhar, encostou a porta e saiu. Kimberly notou o seu ato, estava num misto de emoções, mais ninguém lhe fazia o favor de encostar a porta por mais que ela reclamasse e pedisse aos que entravam e saíam.

Wednesday, 11:37 p.m. Arizone Police, Arizona
Eram quase onze e meia da noite quando foram dispensados. Aos olhos de Adam e Kimberly aquilo significava sair cedo, estando sempre prevenidos para qualquer chamada a meio da noite.
Kimberly não se tinha cruzado mais com o marido naquele dia, melhor dizendo, tinha-o evitado. Sabia muito bem que a sua atitude era imatura, infantil. Não esperava que Adam esperasse por ela, dado que tinha sido a última a sair, propositadamente.
Os seus passos eram largos e distraídos, causava-lhe arrepios aquele lugar quase vazio e cheio pelas luzes de presença nos corredores e hall de entrada.
A voz estridente e alta corrompeu-lhe os tímpanos, ergueu o olhar e uma imagem bastante desagradável estava à sua frente, a míseros metros. Katniss encarava descaradamente Adam.
Os seus passos passaram a ser passos mais curtos, mas o som dos seus saltos denunciavam-na de qualquer das formas. Katniss olhou-a nos olhos provocadoramente, cheia de malícia e negatividade, deu um passo para mais perto de Adam. Automaticamente, este afastou-se e Kimberly sorriu pela atitude.
Não foi uma atitude encenada, foi uma atitude espontânea. Ele nem sequer tinha notado a sua presença. Com mais confiança, Kimberly andou na direção do marido.
– Passou-se alguma coisa? – Kimberly perguntou cínica. O sorriso maldoso de Katniss desvaneceu do seu rosto.
Kimberly encarou Adam e este, surpreendentemente, agarrou-a com delicadeza pela cintura e beijou-a suavemente nos lábios. Katniss ficou revoltada, num misto de angústia com a cena. Kimberly deixou-se ser abraçada por Adam
– Até amanhã, pombinhos… – Katniss passou as unhas pelo peito de Adam, deixando-o sem reação possível. O seu olhar provocador foi de encontro ao de Kimberly.
Kimberly tinha a raiva a saltar pelos globos oculares, tinha sido a gota de água. Adam deteve-a puxando-a pelo braço, pela sua expressão, tinha a certeza que Kimberly a arrastaria até à porta pelos cabelos. Não a puxou-o com agressividade, sem força presente, mas sentiu a agressividade nos olhos dela quando a encarou.


Wednesday, 11:47 p.m. Stalteri’s House, Arizona
No carro, Kimberly e Adam vieram o caminho todo em silêncio enquanto as suas mentes já preparavam os guiões da discussão que se aproximava. Eles eram uma confusão, tinham tanto para dizer um ao outro e depois… silêncio.
Kimberly saiu do carro a pisar o chão mais forte que o habitual, saindo disparada em direção à porta de casa. Adam, assim que chegou, encostou-se à mesa da cozinha, deixando tombar o pescoço para trás e fechou os olhos, já sabia o que por aí vinha.
Os saltos a baterem nos azulejos de mármore denunciaram a leve irritação de Kimberly. A sua silhueta perfeitamente desenhada, de braços cruzados sob o peito e com cara de poucos amigos não lhe diminuía a beleza pela qual ele suspirava diariamente. Podia até ser estúpido, demasiado adolescente dizer aquilo, mas vê-la levemente chateada conferia-lhe uma certa sensualidade que só ela detinha. Muito provavelmente, porque a amava de qualquer das maneiras.
– Precisamos falar?
– Sim… Sobre ela. – Kimberly estava distanciada dele. A sua cara fechou-se numa incógnita, não o permitindo que lhe explorasse o seu estado de espírito. – Aquela cabra, a Katniss.
– Ah, a Katniss… – Eram ciúmes q.b. – O que se passou com ela?
– Diz-me tu, já que ela parece ser uma amiga de longa data e bem íntima. – Kimberly remoía as farpas que trocaram naquela manhã. Adam riu, foi sem intenção troçar da sua “inocência”. – É esse o teu argumento? – Gesticulou.
– Desculpa, mas tu és muito inocente. – Kimberly já não aguentava aquele adjetivo.
– Inocente? Eu sou inocente? Ela diz-me que já trabalharam juntos e que muita coisa se pode ter passado na minha ausência e achas que sou inocente? Além disso, tu deixas que ela te toque de modo provocador? – Kimberly aproximou-se de Adam. Era a primeira discussão sobre Katniss, mas Adam sentia que não tinha paciência nem forças para contra-argumentar.
– Sim, tu ages muito inocentemente. Achas mesmo que na tua ausência tinha coragem ou força para ter algum relacionamento com outras mulheres para além de ti? Nas duas vezes que tive um namoro, na tua ausência, no mês seguinte, eu terminava tudo.
– O que me garante que ela não foi um desses dois namoros? – Kimberly acabava de lhe dar uma facada no coração. Ela desconfiava dele.
– Tu estás a desconfiar de mim? Que tipo de pessoa é que tu achas que sou, Kimberly? – A resposta de Katniss veio-lhe à cabeça “…ele é homem para ter quem quiser, tal como eu. ”, arrepiou-se. As suas caras encontravam-se mais perto que nunca naquele dia.
– O tipo de homem que tem a mulher que quiser. – Kimberly desabafou num tom mais baixo, suava quase a tristeza. – A mulher mais bela de todas, pela qual todos suspiram quando passam por ela. – Kimberly não se achava digna de tal definição. Achou que aquela conversa levaria um rumo mais pessoal para o lado de Kimberly.
Sem ânimo para continuar aquilo, Kimberly limitou-se a suspirar e dar as costas a Adam. Subiu para o quarto de ambos, estava cansada daquele dia e já estava cansada do dia seguinte.
Estava com preguiça de tomar banho, de se secar, de passar os seus cremes e perfume, estava a permitir-se desleixar-se há um bom tempo. No seu quarto, frente à cómoda do espelho enorme, retirou os seus brincos de prata.
– Larga-me, por favor. – Kimberly pediu assim que sentiu o toque do marido na sua cintura. Um toque inseguro, mas que lhe foi passando uma força maior gradualmente.
– Não. – Adam chegou-se mais perto dela, abraçando-a por trás. Sem motivo, estava prestes a chorar, talvez porque tudo se acumulava por meses. Adam negou o seu pedido de se afastar, começando a beijá-la na curva do seu pescoço.
– Não estou com cabeça para isto. Podemos falar amanhã? – Kimberly tentava resistir a todo o custo a Adam, apesar da sua voz sair da sua garganta com falhas.
– Não, não podemos. Eu recuso-me a dormir chateado contigo. – Adam esticava cada vez mais a sua corda de provocação. As suas mãos a ferver já se encontravam por baixo da sua roupa na região da barriga.
– Vais ter de mudar de ideias. Não vão resultar… – Kimberly esforçou-se para retirar as mãos dele da sua pele. Esforçou-se, não lhe valeu de nada. A força, que não chegava a exercer força, era superior à de Kimberly.
– Não vou. Sabes porquê? – Adam perguntou-lhe ao ouvido. – Porque eu tenho um efeito descomunal em ti. – Adam beijou a sua orelha. Agilmente, virou-a para si.
– És um imbecil. – Kimberly tinha a sua respiração descompassada.
– Desculpa… – Adam desculpou-se por terem discutido e por, por um lado, ela ter razão, que Adam dava muita liberdade à megera de Katniss. Acariciou o rosto de Kimberly com uma das mãos.
Kimberly não argumentou, não protestou, não disse nem fez nada. Deu-lhe liberdade para agir. Devagar, selou os lábios nos dela, só depois iniciaram um beijo ténue. Estavam com imensas saudades um do outro, fartos de tantas águas agitadas.
As coisas começaram, digamos, a aquecer rapidamente. Sem grande esforço, Adam sentou-a desesperadamente na cómoda. Possivelmente, Stalteri deve ter sido um tanto agressivo ao sentá-la, ouviu-se o barulho das suas coxas embaterem com o tampo em mármore.
Kimberly impediu que ele parasse o beijo para se desculpar. Kimberly tinha as suas pernas envolvidas à volta da sua cintura, arranhando-o nos ombros por cima da camisa.
Com destreza, Adam levou-a da cómoda, sem nunca a parar de beijar ou de ter as pernas dela à sua volta, até à cama deles. Separam-se do beijo, estavam totalmente sem fôlego.
Adam ergueu-se um pouco sobre Kimberly que o encarava. Involuntariamente, abriu um sorriso maior que si, maior que o costume, maior que ultimamente.
Provocadora.
Momentaneamente vulnerável.
Esticou-lhe os braços sobre a cama e tirou-lhe a sua t-shirt preta. Estavam mais perto que antes, se o momento não fosse estragado pelo telemóvel de Adam que tocou alto, parecia mais alto que o normal. Alcançou o telemóvel no bolso de trás das calças e visualizou rapidamente quem era, Lucille. Mas que merda?
– Atende… Pode ser importante. – Kimberly beijava-lhe a cara e pescoço, já não conseguia falar frases completas.
– Telefone mais tarde. Também estou num momento importante. – Sorriu-lhe com malícia. Antes de atirar o telemóvel para longe, recebeu uma mensagem de Lucille.

“Desculpa a hora. Esqueceste-te da tua carteira na secretária. ”

Fechou os olhos em sinal de impaciência e rogou-lhe pragas. Sem demoras atirou para algum sítio longe o seu telemóvel. Voltou a atenção para Kimberly que o obrigou a desfazer-se da sua própria camisa sem demoras.



Eleventh Chapter
Don’t Enter!
Publicado em: 28/01/2018

I never needed you like I do right now
I never needed you like I do right now
I never hated you like I do right now
'Cause all you ever do is make me
− Noah Cyrus ft. Labirinth in Make me (Cry)

            Two And Half Months Later
Tinham-se passado cerca de dois meses e meio depois daquela noite maravilhosa, da qual ninguém tinha suspeitado. Ninguém tinha suspeitado da maneira como discutiram. Ninguém tinha suspeitado da maneira como fizeram as pazes. O pior de tudo, ninguém nem mesmo eles tinham ideia de como os dias a partir daquele se iriam desenrolar.
Em contrapartida, Lyanne descaiu-se sobre os problemas emocionais do jovem casal numa conversa num almoço de domingo. Bom trabalho! Com todas as certezas e incertezas, a família sabia que, vez ou outra, Kimberly e Adam discutiam até que a casa ameaçasse cair pelo facto de ambos serem intensos e de viverem assim as suas vidas, só não suspeitavam da intensidade das discussões que já envolvia terceiros e de que já vinham do passado.
Depois daquela noite incrível, as coisas tinham ficado de certo modo tensas, estranhas e ridículas, pareciam que tinham agido pelo momento. Pelo lado positivo, tinham melhorado um pouco, um pouco quase invisível, na comunicação entre si. Tinham tempo para perguntar pelo dia um do outro, conversavam sobre temas aleatórios ao jantar (agora também já jantavam juntos e ao mesmo tempo) e quando iam dormir falavam até adormecerem. Mas apesar de tudo, havia um “quê” de tenso.
           
Monday, 07:47 a.m. Stalteri House, Arizona
Kimberly bebericava o seu café enquanto encarava de soslaio o relógio da cozinha. Ah, como ela detestava sentir-se controlada pelo tempo! Uma vez mais, pensava em Adam que já tinha saído para trabalhar, frustrado pelas horas de trabalho que o esperavam pela frente.
Trocou as poucas horas ou alguns minutos de descanso pela opção de acompanhar Adam no seu pequeno-almoço. Nem mesmo ele contava com a sua presença àquela hora, estranhou a sua atitude mas adorou.

­
“ − Bom dia. − Kimberly abraçou-o suavemente por trás apreciando o seu calor e energia do qual sentia saudades.
− Já acordada? – Adam não se conteve a sorrir-lhe. Kimberly andava num misto de emoções, se se estressava demais no trabalho, em casa andava carinhosa e melancólica, mas em ambos os ambiente podia ver-lhe a ansiedade e a leve irritação.
Sob o olhar constante e profundo marido, sentia-se estranha, de novo. Sentia a agonia de ter o seu olhar a percorrer-lhe o corpo à procura de algum sinal para que a pudesse ler sem lhe fazer perguntas. ”

Encarando, novamente, o relógio subiu para o seu quarto, aproveitaria para arrumar algumas das suas coisas. Há muito tempo que não organizava ou arrumava alguma caixa, mala, gaveta… em estado caótico, porque era difícil encontrar o que quer que fosse em estado caótico convivendo com a sua mania pela limpeza e arrumação.
Há dias quando procurava o encaixe que saltara de um dos seus brincos, deparou-se com uma caixa debaixo da cama, devia ser provavelmente a caixa dos entulhos. Há anos que não lhe tocava, desde que tinha ido viver com Adam, lembrava-se de a guardar lá.
A sua curiosidade estava bastante aguçada e matava-a lentamente por dentro. Notava-se o abandono pelo imenso pó que lhe arrancou um espirro estrondoso. Riu-se daquilo.
Destampou a caixa e tinha memórias, memórias de tudo e não coisas sem categoria ou esquecidas. Num ato involuntário, as suas mãos abrandaram na tentativa de que o seu cérebro se pudesse lembrar dalgumas das memórias que tinha ali guardado e esquecido.
No cimo, a primeira foto que tirou com Mark, uma semana depois de ter sido adotado e como comemoração a família viajou até Baltimore para realizar o sonho do jovem Mark, visitar o National Aquarium. Inclusive, os primeiros bilhetes de cinema a que foi, que com o passar dos tempos já se encontravam frágeis. No fundo da caixa, a maior parte era ocupada por memórias somente deles.
Um aperto no coração, um suspiro e uma lágrima. Não era o desespero em si, sabia que todos os casamentos passavam por aquilo, era apenas o desespero em saber se aguentariam passar por aquela fase. Está tudo bem, acalma-te Kimberly!
Era desesperado da sua parte achar que todos os bilhetes e cartas que Adam lhe escreveu quando ia às pressas para New York visitar o pai que piorara e a família por uns dias eram simplesmente encantadores? Nunca que os seus ex-namorados teriam paciência ou paixão para a procurar quando se ausentava do mundo por estar simplesmente cansada, assumiam que queria terminar tudo e agiam como se nada passasse.

Kimberly, espero bem que ainda não me tenhas trocado por outro homem melhor. Merda! Revelei-te que podes ter melhor! Merda, merda, merda! Adiante, quero que saibas que se me trocares por algum nova-iorquino charlatão (eu sei com toda a razão que habita em mim que ele é um charlatão) isso não irá acontecer. Do que depender de mim, eu nunca te darei motivos para queres outro. Eu vou-te dar motivos para não quereres outro para além de mim.
Com amor e malícia,
Adam Stalteri.

Ao ler aquilo, desejou voltar àquele momento e aconselhar o seu “eu” mais nova, iria aconselhar-se sobre como se preparar aquela crise e dir-lhe-ia que escolhas fazer para evitar certas consequências. Agora, restava-lhe perguntar-se se Adam ainda se sentia da mesma maneira como quando lhe escrevia.
Só o queria poder entender. Só se queria poder entender. Queria poder entender os dois.
Levantou o queixo na tentativa de cessar as lágrimas. Olhou para o seu relógio de pulso e surpreendeu-se por o tempo ter voado nos seus desvaneios, oito e meia.

Monday, 12:33 a.m. Arizona Police, Arizona
Podia o dia correr melhor? Tinha-se chateado cerca de seis vezes num dia que ainda só ia a meio. Três vezes, um clássico, com Katniss por razões desta a querer ver perder a cabeça; uma vez com a sua mãe pelas preocupações excessivas sobre o casamento da sua filha; uma vez com Adam por a tentar acalmar e ela o mandar à merda diretamente e sem censura e outra pelo stress que o trabalho lhe causava à toa.
Surpreendia-se pelo facto de o trabalho não a ter consumido completamente, de ainda não se ter enterrado até ao pescoço ao contrário de Adam. Entristecia-a perceber que o seu marido começava a afogar-se em trabalho excessivo, parecia querer-se viciar naquilo para esquecer o resto.
Ver todas as promessas serem deixadas para trás doía muito, doía demais. Já não era a promessa do casamento perfeito que estava em jogo, mas sim as várias pequenas promessas que contribuíam para desconstruir a cumplicidade que tinham.
Já estava acostumada a que às vinte e duas horas Adam estivesse encafurnado no escritório a encarar papéis que não o levavam a lugar nenhum, de há três dias para cá nem tanto, mas… nada a garantia.
Sem se aperceber, estava herética em frente ao computador há alguns minutos sem saber o que tinha para fazer, almoçar. Não lhe agradava a ideia de um prato cheio de comida à sua frente, nojo! Com certeza, que teria alguma coisa mais leve na sua mala.
− Acho que seria bom se trabalhassem como dupla. Poderiam ajudar-se caso eu não esteja ou não possa, futuramente. – Kimberly estava em pé atrás das cadeiras de Katniss e Marco. Ambos formariam uma boa dupla, tinha de admitir que Katniss tinha algum potencial que aliado com a destreza e inteligência de Marco seriam ambos implacáveis. Kimberly seria tão bem destacada quanto Katniss e o jovem Marco.
Marco era um jovem de vinte e um anos, universitário e de origem havaiana. Nãos seria surpreendente mencionar que muitas garotas suspiravam por ele. O que podiam pedir mais? Jovem, moreno e educado.
Katniss era uma delas.
Kimberly limitava-se a integrar a plateia VIP por ter as cenas inéditas que Katniss protagoniza para “seduzir” Marco, para não falar nos espalhafate com Adam, o seu marido. Às vezes, um ataque de riso quase que a domava, um riso de pena.
− Claro que sim! Visto que já não podemos confiar de certeza em ti, nunca sabemos quando cá estás. – Katniss tentava exibir o seu sentido de “humor” a Marco, muito inconveniente.
Kimberly fervia, fervia só de saber que aquele ser tinha direto a respirar o mesmo ar que ela. Por dentro, contou até dez na velocidade da luz e dobrou-se para a frente, sentiu Katniss gelar ao sentir o calor do seu corpo mais próximo.
− Disseste alguma coisa? – Kimberly pronunciou cada palavra com ênfase e pausadamente. Olhou-a e viu que Katniss olhava para a frente enquanto a sua garganta se atava num nó sem solução. – Bem me parecia.
− Se fazemos uma boa equipa, é graças a ti, Kimberly. – Marco tentou amenizar o clima pesado que afetava os três.
− Obrigada, Marco. Mesmo assim, continuo a achar que não fiz nada demais que não fosse instruir-vos. – Kimberly direcionou-lhe um sorriso largo. Alguém tossiu chamando a presença dos três, Adam.
Adam tinha uma expressão de poucos amigos, ciúmes, estava impaciente enquanto remoía a boca. Katniss abriu um sorriso vitorioso e um olhar inocente para Adam.
− Só vinha avisar de que a Lucille chamou o… Marco. – Adam falou com desdém. Antes de virar costas e sair a pisar forte, lançou um olhar nada simpático a Kimberly. Lindo…

Monday, 10:47 p.m. Stalteri House, Arizona
Kimberly fez de tudo para conseguir conter a ansiedade, rezou a todos os santos para que não houvesse mais uma discussão. Já não tinha argumentos e forçar.
No ritmo do relógio, o barulho da porta a ser destrancada alertou-a. Adam tinha chegado. Estava furioso e sabia-o porque sempre que estava demorava a realizar as suas ações, dando-lhe tempo para refletir no que se passaria.
− Estiveste à minha espera? – Referindo-se ao jantar, Kimberly negou. – Ainda bem, também já comi. – Adam estava na porta que separava a cozinha da sala com a sua pasta na mão esquerda.
Kimberly não teve coragem de proferir qualquer palavra, levando-o a suspirar e a vê-lo pousar a pasta num canto.
− A sério? – Adam sentou-se ao pé da esposa no sofá. Ela não entendia onde ele pretendia chegar. – O Marco? A sério? – O olhar de decepção dele invadiu-a.
− Desculpa? Como assim o Marco?
− Tinhas mesmo que ter um tipo, digamos, de crush por ele? – Kimberly continuava sem expressão, contudo estava surpresa. Adam já se encontrava impaciente, passou as mãos elo cabelo e encarou-a novamente.
− Um crush pelo Marco? Ah vá lá, Adam! – Quem começava a perder a paciência desta vez era Kimberly, estava impaciente perante aquele assunto. – Para com a estupidez.
− Não sei. Afinal, ele é mais jovem que nós, o que me garante que não tenhas interesse nele? – Kimberly não queria crer nas palavras que acabava de ouvir, tinham-na ferido.
Qual era a consideração que tinha por ela?
− Desculpa, o que é que estás a querer insinuar?! Que sou alguma puta? Eu seria incapaz de te trair com o Marco, ainda mais, sendo ele mais novo que eu. – Kimberly gesticulou. – Parece que já não te conheço, infelizmente. Mas já que insiste neste assunto, acho que tenho mais que motivos para desconfiar de ti e da Katniss. – Já de lágrimas nos olhos, virou as costas a Adam que permaneceu no sofá.
 − Não te preocupes, posso dormir no sofá. – Adam disse sem expressão. Não se tinha movido, permanecia estático e frio no sofá.
− Não é necessário tanto, não vá eu trair-te. – Kimberly explodiu e continuou a subir o último lance de escadas. Adam fechou os olhos, pensou na merda que tinha dito.

 Monday, 11:29 p.m. Stalteri House, Arizona
Adam deu-se ao luxo de se castigar como uma criança que é mandada para o quarto refletir no que acabara de fazer. Sentir ciúmes de Kimberly não era novidade, afinal amava-a, porém argumentar daquela maneira era novidade. Quis comprar uma discussão que podia ter sido evitada, podia não ser mais um obstáculo no seu relacionamento.
Enquanto Kimberly tinha subido e ido dormir, Adam ficou sentado a pensar e bater com as mãos na testa por cada coisa que tinha dito à sua esposa. Já não lhe valia de nada, já lhe tinha chamado de infiel indiretamente.
Subiu as escadas com passos afónicos e calmos de mãos nos bolsos. Ainda estava relutante entre dormir no sofá ou com Kimberly, para já não queria encarar a silhueta serena de Kimberly a dormir. Por outro lado, teria de atravessar todo o correr para usar a outra casa de banho que não a do seu quarto.
Logo que passou em frente à porta do quarto escutou um choro, um choro que tentava soar baixo, um choro quase abafado por, possivelmente, alguma almofada ou lençol.
Não teve tempo de ponderar se entraria ou não, sabendo do que se tratava, as suas pernas foram mais rápidas. Quando deu conta, já tinha a mão na maçaneta da porta, pronta a puxá-la para baixo e adentrar quarto afora.
Tinha medo do que podia encontrar.
Abriu, relativamente, calmamente a porta encarando o ambiente. Estava tudo no seu lugar, nada partido ou corpos no chão. Havia sim um corpo, um corpo encolhido na cama que estava perto de soluçar.
 Kimberly não se apercebeu da sua presença. Adam encostou a porta e caminhou até à cama, sentou-se perto da esposa à beirinha da cama. No entanto, não sabia como agir perante aquela situação. Levou, por fim, a sua mão esquerda ao encontro do seu cabelo, acariciando-a.
− Desculpa. Eu não queria insinuar aquilo. – Puxou uma madeixa de cabelo para trás da sua orelha. Cessando as lágrimas, pouco a pouco, desenterrou um pouco do rosto da almofada.
− No entanto, insinuaste. – Kimberly sabia muito bem como discutir quando lhe pediam desculpas, sabia muito bem como vomitar verdades.
− Sim, insinuei. Fui um estúpido.
− Continuas a ser um estúpido, que continuo a amar sem motivos. Odeio-te. – Kimberly destapou um pouco mais do rosto para lhe facilitar a falar.
− Sim, eu sei… Eu não queria dizer aquilo e daquela maneira, foram os ciúmes que senti da maneira como lhe sorriste. – Fez uma pausa. – A maneira como me costumavas sorrir.
− Parece que tudo a que nos tínhamos acostumado se está a ir embora. – Ironizou de modo a atingir-lhe o psicológico.
− Não és a única que está com medo e insegura. – Adam passou os dedos pelo seu maxilar.
Kimberly fixou o olhar em Adam e ergueu-se, não lhe deu tempo de recuar ou pensar numa resposta para o seu ato. Abraçou-o como só ela o sabia fazer e voltou a chorar, agora no seu peito molhando-lhe a camisa.
Não disse nada, deixou que ela desabafasse tudo o que a sua garganta era incapaz de transformar em palavras. Puxou-a para si, abraçando-a e mantando saudades, que já não eram poucas, do seu toque e cheiro.
− Nós somos uns merdas. Não conseguimos sequer fazer com que um casamento resulte. – Kimberly segredou.

Tuesday, 07:27 a.m. Stalteri House, Arizona
Diferente do dia anterior, Kimberly acordou sozinha e minutos depois de Adam já ter saído.
Senti-a uma ligeira dor de cabeça por ter chorado o equivalente a um exército, lembrava-se que adormeceu agarrada a Adam, ainda a chorar. O lugar dele tinha os lençóis e almofada completamente amassados, impregnados pelo seu perfume.
Sentou-se na cama abraçando os joelhos e olhou para as horas. Esperava-lhe um dia e tanto, já não bastava todo o stress normal do trabalho, tinha a sua rivalidade com Katniss e um clima tenso entre Adam por causa de Marco.

Tuesday, 01:05 p.m. Arizona Police, Arizona
Parte dos seus colegas já tinham saído para a pausa do almoço, ao contrário dela. Não tinha comido mais nada desde o pequeno-almoço, o que lhe traria consequências a curto-prazo. Só de pensar na comida a percorrer o seu tubo digestivo sentia uma agonia.
De frente para o computador, tinha a caixa de entrada do seu email atolada, o seu telefone já tocara duas vezes e todas as vezes foram Lucille. Podia, também, frisar que já tinha discutido com Adam que a procurou para conversarem sobre uma coisa sem importância, porém a conversa descambou resultando numa discussão pelas suas oscilações de humor.
− Entre! – Gritou, mesmo que ainda não tivessem batido à porta. Não era preciso muito para Kimberly sentir a presença de uma alma a preambular à sua porta prestes a bater à mesma.
− Kim, não achas melhor parares e ires almoçar? Tu andas tão estressada ultimamente, não te faz nada bem. – Camila ficou à porta não se atrevendo a entrar. Entendia que se fosse Adam e começassem a discutir, Kimberly não hesitaria em atirar-lhe um objeto à cara.
− Não, eu estou ótima. – Expressou uma cara de repulsa quando Camila lhe falou em “almoçar”. – E a prepósito, como sabes que ando tão stressada?
− Todos nós percebemos os olhares que fazes à Katniss e também ouvimos os teus gritos e berros com o Adam. – Camila disse como se fosse óbvio. – Como nas outras tantas semanas. – Kimberly não expressou qualquer sentimento ao que lhe fora dito. Camila olhou para fora do cubículo, certificando-se que não havia ninguém a passar naquele momento. – Kim, tu não estarás…?
− Ah? – Perguntou com uma nota de ofensa na voz. −  Grávida? – Camila era uma das únicas pessoas, para além de Lyanne, a quem confiava os seus problemas.
−  Tu nem me deixaste terminar a minha pergunta, mas sim. Tu não estarás grávida? Andas tão stressada, gritas com todos, depois ficas calma como se nada se tivesse passado e agora estás super enojada. E não me digas que é porque não tens fome, porque tu sempre que não tinhas fome mordiscavas alguma coisa!
− Não, de certeza. – Kimberly virou-se para o ecrã do computador. Numa fração de segundos, Kimberly sentiu uma forte pontada no fundo da barriga, obrigando-a a dobrar-se.
− Kim, está tudo bem? – Kimberly fez uma careta de dor. Camila não ficou indiferente e abandonou o seu lugar à entrada da porta. – Queres que chame alguém? O Adam? – Camila levou uma madeixa de cabelo atrás da orelha.
– Não, eu estou ótima. – Voltou-se a curvar de dores. – São apenas cólicas menstruais, possivelmente. – Kimberly não tinha a certeza, nem tinha certeza se a sua menstruação viria.
– Vai para casa. – Camila não aconselhou, ordenou. – Não te preocupes com a Lucille. – Embora Kimberly quisesse recusar, seguiu o seu conselho por pressentimento. Outra pontada.
 Ainda ligeiramente dobrada e a gemer de dores finas, Kimberly vestiu o seu casaco e pegou na sua mala. Camila acompanhou-a à porta principal de entrada e saída, apenas para se certificar que estava bem.

Tuesday, 01:45 p.m. Stalteri House, Arizona
Kimberly, na verdade, queria que Camila chamasse Adam, mas não tinha coragem de arcar com a sua preocupação e insistência para que fossem ao médico. Não tinha coragem de enfrentar as palavras do médico. Era óbvio que Kimberly queria Adam, o seu marido, ao seu lado, a “cuidar” dela.
Devido às dores que se foram alargando, chamou um táxi que facilitou a sua trajetória até casa. Iria fazer um esforço para comer alguma coisa e dormir ou descansar um bocado.
Embora o seu estômago insistisse em rejeitar tudo o que Kimberly lá colocava, forçou-se a comer o que um bebé comeria depois de ter atirado a maior parte ao chão e à cara da mãe.
Talvez descansar fosse a solução para as suas dores. Não se devia preocupar, talvez, fosse só a sua menstruação próxima, seria? Há mais de um mês que a sua menstruação estava diferente, o seu corpo dolorido, o seu humor mudado e os seus hábitos alimentares.
Virou-se para o lado esquerdo da cama na esperança de esquecer as suas dúvidas.
Kimberly estava em sobressalto. Estava a ter um sonho horrível, vulgamos, um pesadelo. Eram um borrão preto, mas que mesmo assim era horrível e cheio de dores. A sua testa franziu no desespero em acordar.
Abriu os olhos e sentou-se na cama, ofegante. Passou a mão pelo cabelo, estava cheia de dores e não suportava mais aquilo. Era das piores dores que se lembrava de ter, era insuportável.
Afastou o lençol para ir buscar um comprimido à sua mala, o desespero fora mais rápido. Estava envolvida numa mancha de sangue. As suas coxas nuas estavam manchadas, os lençóis, as suas mãos. Gritou quando a sua garganta permitiu enquanto os seus olhos vertiam em pesadas lágrimas.
Arrastou-se numa corrida lenta até à casa de banho privada. As suas pernas estavam bambas e cheias de cãibras, a dor de tocar o chão frio não se comparava à que sentia na região da barriga.
Abriu a boca num gemido alto de dor.

Tuesday, 02:26 p.m. Arizona Police, Arizona
Adam tinha acabado de chegar da sua pausa de almoço, quando notou que ainda não tinha falado civilizadamente com Kimberly. Estava decidido a mudar certos aspetos, a começar pela redenção depois das discussões.
Não pediu a ninguém que a chamasse, isso seria quase como não cumprir parte do que queria mudar. Pressentia que Kimberly não tivesse sequer saído para almoçar, era recorrente ultimamente.
Pelos corredores foi ensaiando mentalmente o que lhe diria. O que lhe diria? Parou com aquele exercício, deixaria que tudo fluísse de maneira natural e improvisada e não ensaiada.
Em frente ao cubículo já se preparava para bater à porta que para seu espanto e curiosidade estava fechada. Foi impedido de o fazer.
− É escusado, querido. – A voz irritante de Katniss fê-lo recuar.
− Posso saber o porquê? – Adam achava que Katniss o estava a desafiar ou a provocar.
− Ah, não sabes mesmo? – Katniss sussurrou. – Sabes como é, a tua esposa estava um bocado, como posso dizer? Estava com bastantes dores, talvez fosse fingimento para a consolares, não sei. – Cascavel. Katniss sorria-lhe falsamente.
− Tu não tens o direito de falares assim da minha mulher. – Num impulso de raiva, Adam agarrou-lhe no pulso. – Pelo menos, ela tem a alguém que ame, que a possa consolar. Ao contrário de ti, que és horrível por dentro. – Katniss riu como se tivesse conseguido um dos seus objetivos.

Tuesday, 02:37 p.m. Stalteri House, Arizona
Adam estava aliviado por ter atirado à cara de Katniss algumas verdade, porém não seria o suficiente para ela desistir dele.
Ambicioso para mudar as coisas, Adam seguiu para casa de encontro a Kimberly. Aproveitou e passou numa florista, seria uma surpresa agradável oferecer-lhe as suas favoritas naqueles que eram dias cinzentos.
Tirou a chave dos bolsos e girou-a. Não fez questão de a chamar, se estivesse no mesmo andar, ouviria a porta a abrir-se. Esperou algum movimento por alguns segundos.
Sem ouvir ou sentir algum movimento na casa, avançou para o andar de cima chamando pelo seu nome, para que esta não apanhasse um susto pela sua presença inesperada àquela hora.
− Kimberly? – Abriu à porta do quarto, parecendo-lhe ouvir barulhos vindos de lá. A cama tinha os lençóis tortos e a almofada amarrotada, mas não estava lá ninguém.
Sem motivo, desviou a atenção para a porta da casa de banho. Foi na sua direção e encontrou o que lhe parecia ser uma mancha, uma macha vermelha. Sangue? O que era aquilo?
− Kim?! – Adam já suava de preocupação a pensar no pior. Jurava que se não lhe respondesse, arrombaria a porta.
− Vai-te embora! – Kimberly gritou enquanto mordia os lábios para não emitir algum gemido de dor. Não iria permitir que Adam entrasse e visse aquilo. Não iria permitir que a visse banhada em sangue, que se alastrava por todo o chão.
− Kimberly, mas que merda se está a passar? – Adam estava seriamente preocupado, tinha ainda em mãos as flores.
– Nada! Eu estou bem. Já devias saber como fico quando fico menstruada. – Kimberly mentiu com todos os dentes que tinha e doeu-lhe. Doía-lhe ter de mentir ao seu marido.
– Certo… – Adam estava desiludido e preocupado. Deixou as flores em cima da cama. – Se precisares, não hesites em telefonar. – Adam caminhou para fora do quarto.
Kimberly mordia uma toalha para não gritar, estava cada vez mais assustada. Já se tinha tentado limpar e o que lhe parecia sair eram pedaços. Sangue e pedaços. Se tivesse permitido Adam a ver naquele cenário, rapidamente chegaria à mesma conclusão que a dela. Era um aborto.
Tentou alcançar o telemóvel que por sorte tinha deixado no lavatório da casa de banho. Entre lágrimas que a cegavam, procurou o contacto de Lyanne, não atendeu. Restou-lhe Camila.
           
– Preciso de ajuda! – Pediu entre gemidos de dor.
– O que se passa? – Notou a preocupação e medo do outro lado da linha. Camila já previa aquilo.
– Há muito sangue! – Kimberly chorava sem parar de dor, de medo.

Camila não demorou a chegar. Em frente à porta de entrada, ficou tremendamente relutante em acabar com aquilo tudo e contar tudo a Adam, mas não o faria por lealdade.
Sabe-se lá como influenciou o porteiro a emprestar-lhe uma das chaves de emergência do apartamento com uma mentira super convincente. O seu coração acelerava só de pensar no que encontraria, e a sua imaginação levava-a a cenários nada simpáticos.
– Kimberly! – Camila abriu a porta da casa banho que já estava destrancada. – Oh meu Deus! – O cenário verdadeiro superava a vários níveis todos os outros que tinha imaginado. Parecia que tinha passado por lá um serial killer.
Camila estava surpreendida consigo mesma. Não conseguia perceber onde tinha ido buscar tanta coragem para ajudar Kimberly a levantar-se e a limpar o chão rapidamente. Não tinham tempo de trocar a camisa de dormir preta de Kimberly.
No hospital, Kimberly entrou de imediato por estar a olhos vistos o que se passava. A princípio não permitiram que Camila entrasse, não até acalmarem Kimberly e lhe fazerem alguns exames rápidos. Camila não sabia qual seria a melhor opção se entrar ou não. Não queria ver o sofrimento da amiga ao receber uma má notícia.
Quando permitiram que Camila entrasse, Kimberly estava deitada numa maca para que lhe fosse feita uma ecografia. Ficou em pânico ao ver Kimberly já com a pele limpa, embora ainda estivesse com a roupa suja, e deitada naquela maca.
− Boa tarde. – A obstetra estendeu uma das mãos para a cumprimentar. − Sou uma das obstetras daqui do hospital, Dr.ª Sandra Bellucci.
Camila despertou pouco a pouco dos seus conflitos internos. Analisou a mulher à sua frente.
A mulher, que se chamava Sandra, devia ter por volta de quarenta anos e era casada, ao que indicava a aliança no quarto dedo da mão esquerda. Dr.ª Sandra, com certeza, reparara na sua expressão de choque.
Sem pronunciar nada, indicou-lhe que se sentasse numa cadeira próxima de Kimberly. Não sentia as pernas, só sentia que ia desmaiar a qualquer momento e agitou a cabeça.
− Vamos prosseguir para uma ecografia. Relaxe, não tenha medo, sim? – Dr.ª Sandra calçou as luvas.
Kimberly encarou Camila pela primeira vez desde que tinha entrado naquela sala. Estava pálida e sem expressão, já lhe deviam ter dado a entender sob palavras disfarçadas o que se tinha passado com ela.
Uma lágrima escorreu pela lateral da sua face, assentindo ao que a obstetra lhe dissera. Eram muitas emoções para estar relaxada.
− Por favor, destape a barriga. −  A obstetra pediu e Kimberly assim o fez. Fechou os olhos quando o gel gelado lhe tocou a pele.
Longos minutos se passaram sem que ninguém dissesse uma palavra. Camila não se conseguiu conter a chorar, acompanhando a amiga em silêncio, pegou-lhe na mão como forma de mostrar que estava ali. Kimberly olhou-a fixamente nos olhos ao mesmo tempo que mordia os lábios já vermelhos.
− Pode-se cobrir. – Dr.ª Sandra limpou o gel da barriga de Kimberly e levantou-se da cadeira. – Queiram fazer o favor de se sentar. – Apontou para as cadeiras em frente à sua secretária.
Kimberly levantou-se com a ajuda da amiga e caminharam na direção das cadeiras, preparavam-se mentalmente para aquilo que aí viria.
− Quero dizer que isto não é fácil… não é nada fácil… − Suspirou pesadamente desencadeando as lágrimas de Kimberly.
− Por favor, diga de uma vez! – Kimberly pediu dolorosamente entre lágrimas e soluços. – Já todos me deram a entender, inclusive, eu própria pude tirar as minhas conclusões.
– Kimberly, você teve um aborto completo. – Disse por fim. – Sinto muito.
A sua mente estava a cem ao mesmo tempo que parava. Não era possível, aquilo doía mais do que qualquer outra dor no Mundo. Então era esta a dor emocional de um aborto? Teve um aborto mesmo sem saber que todo este tempo esteve grávida.
O que lhe seria conveniente ouvir ou sentir? Sentia-se terrível.
– E… – Tossiu. – O que é um aborto completo? – Camila, com receio, perguntou.
– Um aborto completo tratasse de quando o embrião é expulso por completo do útero. Neste momento…
Kimberly ficou surda por momentos, não ouviu mais nada do que a Dr.ª Sandra esclarecia ou perguntava. Involuntariamente, abraçou o corpo de Camila, autorizando-se a desfazer-se em lágrimas. O seu rosto estava dolorido de tanto chorar.

– Sinto muito, Kim. Tu não merecias isto. – Camila sussurrou-lhe.



Twelfth Chapter
I Want The Divorce!
Publicado em: 18/02/2018


So far away, but still so near
The lights come on, the music dies
But you don't see me, standing here
I just came to say goodbye
− Calum Scott in Dancing On My Own

            One Month Later
Thursday, 03:23 p.m. Arizona Police, Arizona
Passou-se um mês e a dor ainda lá continuava. E tudo o que lhe levaram a crer durante anos da sua vida era pura mentira, nem sempre o tempo curava. Sentia que o tempo conspirava contra si, só aumentando mais a sua dor.
Só o tempo sabia como feri-la de uma maneira ultrajante. As coisas entre eles tinham regredido de uma maneira brutal, tal como se tudo o que tivessem conquistado tivesse ido pelo cano abaixo.
Apesar de Lucille saber do temporal que Kimberly e Katniss faziam, teimava em pô-las a trabalhar lado a lado, a conviver lado a lado. Com o passar do tempo, odiava cada vez mais as reuniões que tinham, mas era dos poucos momentos em que conseguia estar no mesmo ambiente, porém distanciada dela.
Sobre a mesa telintava entre os dedos a lapiseira, não tinha prestado atenção a nada do que se dizia. A sua mente vagueava entre realidades que só ela tinha o prazer único de intender.
− Kim? Está tudo bem? – Camila agitou uma mão à frente dos seus olhos. Camila tinha vindo a tornar-se sua confidente depois da cena do aborto.
− Sim, claro. – Kimberly corrigiu a sua postura e lançou-lhe um sorriso educado.
Camila tinha noção que Kimberly tinha dito que “sim” da boca para fora, ninguém conseguiria estar bem depois de um aborto, de uma crise de casamento e saber que trabalha diariamente com uma lambisgóia. Por educação, igualmente, retribui-lhe o sorriso.
Lucille era mestre na arte de falar. Não se tinha calado ainda sobre o mais recente caso que tinham em mãos, dando vez ou outra, a vez de falar a um dos membros da equipa. Uma questão que se tinha formado na sua cabeça foi, por que é que Marco, a quem Adam fazia toda a questão de arquitetar planos de um homicídio (que se parecesse com um suicido acidental) enquanto o tinha debaixo de olho, e Katniss estavam ali a fazer? Não era uma reunião para os membros da equipa principal?
− Não sei se puderam reparar que temos dois membros a mais na nossa reunião, hoje. Querem colocar alguma questão?
− O que se está a passar? – Seria um pensamento de Kimberly, porém acabou por lhe sair da boca sem autorização.
− Era mesmo isso que queria que perguntassem, Kimberly! – Lucille parecia entusiasmada. – Tenho uma ótima novidade a dar-vos, teremos mais um membro. – Ninguém manifestou interesse.
− Um membro para me ajudar, suponho?
− Sim, Kimberly! Mas a escolha do novo membro ficará a ter cargo, serás tu a decidir quem queres que te acompanhe futuramente. – Lucille tinha perdido o entusiasmo após perceber que ninguém se importava minimamente.
Os olhares da equipa encurralaram-na, exceto o de Adam que se limitou a encarar o chão. Kimberly sentiu um arrepio pela espinha, detestava estar naquela posição. Se por um lado não aguentaria por muito tempo Katniss ao seu lado a irritá-la e a provocá-la, tinha Marco, de quem Adam morria de ciúmes e ódio.
Kimberly olhou para Lucille com desilusão, estaria ela a fazer de prepósito? Já tinha ouvido rumores de que Lucille abominava relacionamentos entre colegas de trabalho, mas seria lógico fazer-lhe isto?
− Posso dar a resposta mais tarde?
− Não, tens de decidir agora. – Lucille cruzou os braços sobre o peito.
O olhar de desafio encarou-a.
Kimberly suspirou pesadamente, não sabia qual seria o peso das suas escolhas.
Marco. Eu escolho o Marco para me acompanhar.
Adam olhou-a num misto de surpresa e desilusão, abanou a cabeça não querendo crer no que ouvia, desaprovação. Sabia que agia assim pelos ciúmes que ele tinha da aproximação da sua esposa e de Marco.
No fundo, ele sabia que era a insegurança e o medo de perder Kimberly para outro homem. Não queria pensar na possibilidade de Marco demonstrar ser um homem muito melhor, na possibilidade de Kimberly se apaixonar do mesmo modo que se apaixonou por Adam. A imagem de os ver juntos era repugnante. Uma vez mais, a sua covardia falava mais alto.
Contudo, Adam não pensava nos sentimentos da esposa. Como seriam os seus dias se trabalhasse com Katniss sempre a provocá-la? Não seria benéfico para nenhum dos dois.
− Ótimo! – Lucille exclamou por finalmente Kimberly lhe dar a conhecer a sua escolha relutante.
Camila olhou para Kimberly e notou que não já não era ela que ali estava, estava ali uma Kimberly sem expressão, atónita. Olhou para os seus colegas de equipa e via Kennedy a repreender Adam com uma voz quase inaudível; Ben tentava perceber o que Kennedy dizia e Stone, bem… Stone parecia sorrir de forma irónica como se tivesse previsto alguma daquelas cenas.
− Dou como encerrada esta reunião. Podem-se recolher para os vossos lugares. – Lucille olhou para o relógio depois de se aperceber que eram quase quatro horas da tarde e tudo o que tinha dito durante toda a reunião foi repetir-se com palavras diferentes e intervenções pelo meio.
Kimberly foi a primeira a levantar-se e a sair disparada da sala. Camila tentou a agarrá-la pelo braço, mas sem sucesso. Katniss, que mesmo tendo sido descartada, sorria estupidamente. A raiva invadiu Camila.
− Ainda bem que te faz feliz fuder a vida dos outros. – Camila aproximou-se dela. – Tu és muito mal-amada, pobre de ti.
Lucille observava tudo sem se pronunciar. Kennedy e Adam também já estavam de pé e não a repreenderam.
− Bom trabalho, Adam. – Stone sorriu irónico. – Já estiveste mais longe de a perder.
− Já era tempo de agires. – Kennedy bateu na nuca do melhor amigo seguido de um olhar de desaprovação.

Thursday, 04:31 p.m. Arizona Police, Arizona
− Já tentaram falar sobre o que se passa entre vocês? – Camila questionava Kimberly no seu cubículo.
− Não…
− Já partilharam as vossas inseguranças?
− Mais ou menos…
− Contaste-lhe sobre o aborto?
− Não…
Camila riu de nervoso, de desespero por nada daquilo se passar diretamente com ela, mas no entanto encontrava-se impaciente e sem forças para continuar a ver aquilo. Não aguentava ver a destruição do casal que antes levava como modelo.
− E como é que esperas que isto se resolva? Vocês os dois estão a contribuir para se destruírem. – Camila disparou já sem paciência, tinha a noção de que tinha sido rude na escolha de palavras.
− Eu sei, só não sei o que sentir… −  Algumas lágrimas desceram pela face inexpressiva de Kimberly sem grande esforço.
Apesar de não carregar a tristeza estampada na cara, os seus olhos denunciavam-na. Não havia vida, não havia ânimo, não havia vestígios da velha e boa Kimberly.
− Custa-me chegar a esta conclusão, mas…− Camila inclinou a cabeça para trás. −  Tu não estarás a passar por uma depressão?
O olhar de Kimberly caiu por completo em Camila, recusava-se colocar aquilo como opção.

Thursday, 04:37 p.m. Arizona Police, Arizona
Kennedy recusava-se voltar a conviver com o velho Adam. O velho Adam resumia-se a um homem exteriormente charmoso na casa dos trinta mas com um humor de setenta anos, aquele tipo de homem que não passa de belo por fora e seco por dentro.
Adam desaparecera depois da reunião, nem o amigo se dera ao trabalho de o procurar. Caso o fizesse, podia contar com um murro em cheio na face ou no estômago. Lidava muito bem se isso não acontecesse.
Far-lhe-ia muito bem acalmar os ânimos.
− Finalmente, a donzela decidiu aparecer. – Kennedy estava encostado ao móvel atrás da cadeira de Adam.
Adam olhou o melhor amigo com impaciência, sabia que se tratava de uma indireta carregada de ironia. Kennedy manteve o seu olhar de indiferença. Melhor, de pena deste estar a voltar à merda que era por falta de atitudes.
− Faz-me um favor e cala-te! – Adam esfregou o rosto, raiva.
− Desabafa lá o que quer que seja que estás a conter.
Enquanto Adam virou as costas, Kennedy sorria não acreditando. Adam sempre fora assim, para o mal de todos e, pior de tudo, para o seu próprio mal. Quando magoava Kimberly agia como um autêntico imbecil, era a sua maneira de sofrer.
− Por que é que ela o escolheu?!
– Porque seria mais lógico que a Katniss. – Kennedy respondeu sem demoras. Afinal, não era difícil encontrar uma razão, e Adam sabia, só não se queria convencer dela.
− Mais lógico? Ter um ser do sexo masculino jovem perto da minha esposa é mais lógico? E a maneira como eles se comunicam? Ah, que raiva!
− Sim… − Adam não respondeu, queria que Kennedy fundamentasse a sua resposta. – Tu ages assim pelos ciúmes, pelo medo irracional de a perderes por estares a voltar a ser um merdas, mas ambos sabemos que a Katniss não traria benefícios.
− Não são paranóias, é a verdade. É uma questão de tempo até ele desempenhar o papel de cavalheiro perfeito, demonstrar ser um homem melhor que eu… Até ela lhe sorrir com o sorriso cativador e esplêndido dela… − O seu olhar esmoreceu.
Kennedy não disse nada, aquele era o momento de reflexão de Adam. Conhecia o melhor amigo melhor que se conhecia a si mesmo, Adam não procurava ajuda. Adam preferia conversar com Kennedy sobre os seus problemas, os problemas que só dele dependiam, na esperança que Kennedy lhe desse uma resposta.
− E mais uma vez, tu ages como um perfeito idiota. – Kennedy quebrou o silêncio que se tinha estabelecido entre eles. – Escusas de vir com desculpas. Era uma questão de tempo até cometeres estes deslizes. O erro de esperares que alguém te dê as respostas.
− Não… – Kennedy interrompeu-o.
− Esquece, ok? Se não fosses covarde e ganhasses coragem para a abordares sobre os vossos problemas, nada disto estaria assim. Quando quiseres ajuda para vencer a covardia, sabes onde estou.
Kennedy virou as costas e bateu a porta do escritório deixando Adam sem palavras ou expressão. Não tinha lembranças de Kennedy ser tão direto e frio com as palavras há anos.
Uma das últimas, e das poucas, vezes que assim fora tinha sido, muito provavelmente, há seis anos numa das suas tentativas de namoro forçado.

Six Years Ago
Friday, 03:16 p.m. Arizona Police, Arizona
− Ouvi falar que o Sr. Stalteri vai sair hoje há noite, é verdade? – Kennedy escrevia um relatório à mão quando tinha acesso ao computador. Após ter passado a reunião e a manhã toda a fazer piadas sobre o desastre capilar de Lucille, esta achou por bem pô-lo a redigir um relatório à mão.
− Sim… − Adam mexeu no colarinho da camisa. – Podemos dizer que sim.
− Tu não gostas da Laeticia?
− Não é isso. Ela não faz o meu tipo. – Adam sabia bem que aquele não era o motivo real.
Kennedy pousou a caneta, bufou e encarou o teto sem paciência.
− Ela não é a Kimberly de New York. É por isso, não é?
− Não, não é nada disso!
− É sim e vais ter de te convencer disso. Tu nunca a esqueceste e nem nunca a irás esquecer, porque tu ama-la. Não vale a pena tentares encontrar uma substituta, não vais conseguir e já estás a dar conta disso.
Foi a vez de Adam bufar em concordância.
− Ela é o meu sonho impossível, e eu vou ter de a esquecer.
− Porque… − Kennedy encarava-o.
− Ela ficou estes anos todos em New York, nunca mais nos falamos. Ela esqueceu-me, deve ter alguém e deve estar muito feliz. Fim da história.
− E se não for assim?”

Adam tinha feito a sua cama, mas não se deitaria nela. Por muito que lhe custasse, teria que resolver aquela situação com uma conversa séria e profunda, valeria alguns gritos? Sim, bastantes.

Thursday, 08:55 p.m. Arizona Police, Arizona
Kimberly girava a cadeira vagarosamente, aquilo ajudava-a a acalmar a sua ansiedade e ajudava-a a pensar. O olhar de desilusão de Adam ainda a assombrava, era o mesmo olhar que lhe lançara na viagem em Montreal.
Só esperava que nada de negativo acontecesse depois daquele olhar, não fosse acontecer o mesmo que aconteceu depois de Montreal.
Estava, também, ainda gelada pelo olhar de soslaio que Adam lhe lançou quando Marco se aproximou dela há horas atrás para lhe agradecer pela oportunidade. Tinha a noção que Adam gritava na sua mente os piores palavrões que tinha no seu dicionário.
O seu desejo era de se aproximar e beijá-lo, dizer-lhe que não precisava ficar assim, porque Marco não era Adam. Duvidava de que um dia fosse encontrar alguém que a fizesse apaixonar tal como ele fez sem intenção.
Devido aos seus pensamentos e pela força mental que aquele dia lhe exigiu para conseguir lidar com a responsabilidade de fazer uma escolha e com os olhares de desilusão de Adam, a sua cabeça parecia que ia explodir. Olhou para o relógio e faltava meia hora para acabar o seu expediente. Ah, que tortura!
Lucille não se importaria se saísse um pouco mais cedo, Kimberly pensou. Mesmo que depois lhe exigisse satisfações, que com toda a certeza o faria, teria um motivo verdadeiro: dor de cabeça.
Saiu de fininho, despedindo-se de Camila, pelos corredores que ainda estavam agitados. Não queria que Adam a visse sair, não lhe apetecia encarar a cara fechada e enciumada dele e ter uma discussão em pleno corredor.
Kimberly chegou a casa mais depressa do que imaginava. Assim que fechou a porta da entrada atrás de si, pousou a mala e tirou o casaco, desfez-se dos seus saltos e sentou-se no sofá puxando um cobertor que ficava sempre lá.
Era bom relaxar no silêncio da casa, mesmo que fosse por apenas alguns minutos. Embora estivesse no silêncio da casa vazia, conseguia ouvir os gritos que a casa ecoava.      
Abanou a cabeça para afastar aqueles gritos e permitiu-se descansar um pouco, talvez lhe acalmasse a dor de cabeça que a corrompia.
Bastou fechar os olhos para o seu telemóvel começar a tocar pela chamada em espera. Bufou de impaciência e olhou para o ecrã do telemóvel, Mamã.
Já não lhe bastaria ter de ouvir os ciúmes de Adam a falar por si, ainda teria de ouvir e responder pacientemente e detalhadamente às preocupações da mãe.

−Estou? – Kimberly tentou parecer calma.
−Olá, como estás filha?
−Cansada, diria eu. – Kimberly esfregou os olhos para espantar o cansaço.
− Desculpa se te estou a perturbar, filha. – Samantha falou rápido.
− Não, não tem problema. – Kimberly tentou forçar um sorriso. – A que se deve a tua chamada? – Era o habitual, Samantha telefonar para saber como ia o casamento deles.
− Só quero falar com a minha filha, não posso? – Ambas sabiam que não era esse propósito. Kimberly não se opôs e esperou que a mãe dissesse a verdade. – Como estão vocês? O vosso casamento?
− Outra vez essa história? Não, recuso-me voltar a responder a tudo outra vez! – Kimberly já não conseguia fingir.
− Sim! Eu sou tua mãe, penso que tenho o direito de me preocupar. Nada disto é saudável, Kimberly! – Samantha repreendia a filha como se esta tivesse feito a maior rebeldia da sua vida.
− Esse é o problema. Ninguém nos tem dado espaço, o espaço que necessitamos para desabafar um com o outro. Todos nos cobram satisfações e conclusões. – Kimberly chorava, já não conseguia lidar com aquilo. – Estou farta das discussões, estou farta de me sentir uma merda, estou farta de tudo!
− Desculpa, filha. – Samantha lamentou e lamentava o facto de não estar por perto para consolar o choro da filha. – É doloroso ver-vos nesta situação.
Kimberly sabia-o melhor que ninguém que aquilo doía. Chorava a sua dor, chorava para que depois não tivesse mais o que chorar.

  Thursday, 11:04 p.m. Stalteri House, Arizona
Kimberly acordou em sobressalto pelo barulho da chave a girar o trinque da porta. Sentou-se ainda com o cobertor nas pernas e ajeitou o cabelo.
Adam apareceu na porta e lançou-lhe um olhar familiar, o olhar que antecedia uma discussão e não era uma mera discussão, era a discussão. Adam não parou e seguiu para o andar de cima.
Kimberly mudou a sua postura e já se sentia impotente para lidar com aquilo, encolheu-se no sofá.
− Precisamos falar. – Adam descia as escadas já sem a pasta e o casaco. À parede que ficava à frente dos olhos de Kimberly, encostou o seu corpo.
− Já sei. – Kimberly olhou-o. – É sobre ele, o porquê de eu ter escolhido o Marco.
Aquilo feriu-o, estava-se a tornar previsível.
− Exato. Porquê, Kimberly? Porquê ele?
− Eu não acredito. – Kimberly encarou-o incrédulo. – Estás a ser egoísta.
− Egoísta? Ver a minha esposa prestes a trabalhar todos os dias com um fulano de meia tigela é ser egoísta? – Adam gesticulou. – Pior, eu vou ter de vos ver a lançar aqueles olharzinhos.
− Sim, egoísta. Achas que me faria bem conviver com a Katniss a provocar-me e, no fim do dia, a atirar-se a ti? Eu não sei o que hei-de fazer para te agradar, eu tentei. Juro que tentei fazer-te a vontade, mas isto é uma questão que envolve o meu bem-estar.
− O teu bem-estar é estar com ele? É isso? – Adam não ouvia a razão que as palavras de Kimberly carregavam, estava cego de ciúmes por Marco. Estava a agir como um adolescente com as hormonas à flor da pele. Sentia que se a sua mãe visse aquilo, levaria uma tareia.
− O quê? Eu não disse isso. A Katniss e eu como colegas não resultaria e só nos traria problemas! – Kimberly gritou.
− Kimberly, eu estou cansado. – Adam esfregou o rosto com as mãos. – Só há uma solução para isto.
− Eu também estou cansada. – Kimberly segredou. – E qual é a solução?
Eu quero o divórcio. – Adam colocou as mãos no pescoço. Tudo o que disse caiu como uma bomba, acompanhando a lágrima pesada de Kimberly. 




Thirteenth Chapter
I Think I Am Broken!
Publicado em: 25/03/2018


'Cause I don't wanna lose you now
I'm looking right at the other half of me
The vacancy that sat in my heart
Is a space that now you hold
Show me how to fight for now
And I'll tell you, baby, it was easy
Coming back into you once I figured it out
You were right here all along
It's like you're my mirror
My mirror staring back at me
I couldn't get any bigger
With anyone else beside of me
And now it's clear as this promise
That we're making two reflections into one
'Cause it's like you're my mirror
My mirror staring back at me, staring back at me
− Justin Timberlake in Mirrors

  Thursday, 11:18 p.m. Stalteri House, Arizona
− Eu quero o divórcio. – Adam disse por fim.
A frase de Adam ainda se fazia ecoar no subconsciente de Kimberly, entranhando-se cada vez mais na sua realidade.
Kimberly arqueou as sobrancelhas e esperou que as suas cordas vocais se contraíssem e imitissem algum som, um grito alto ou baixo, qualquer coisa que a aliviasse.
Desculpa? – Foi a única coisa que lhe ocorreu ao fim de alguns segundos pesados. O seu corpo já estava de pé e Adam libertava suspiros pesados recusando-se a olhar para a face chocada da esposa.
A expressão pouco flexível de Adam indicava-lhe que estava desconfortável com aquela situação. Os planos de ambos não tinham aquilo como planeado. Era possível terem solução para algo que não previam?
− Foi o que ouviste. – Adam respondeu tentando parecer calmo, tentou, sentou-se no banco do piano da sala. As suas mãos passavam nervosas pelo seu cabelo devido ao pânico.
− Divórcio? É assim que vamos resolver tudo? Estamos numa crise e a solução mais simples é o divórcio? – Kimberly deixava que todas as suas lágrimas deslizassem pela face. Parecia que tudo o que tinha guardado nos últimos meses estava a sair, finalmente. – O que é feito de todas as juras de amor, do amor?
− Kimberly, não tornes isto mais difícil do que já é. – Adam recusava-se a discutir com Kimberly. Sentia a necessidade de ficar sozinho e chorar, porque já estava arrependido de ter chegado ali e ter desistido tão facilmente.
− Tornar mais difícil? Achas que eu quero que o nosso casamento acabe? Isto é por causa do Marco? Meu Deus, eu já disse que não tenho nada com ele! – Kimberly gritou desesperada.
− Tu estás infeliz há meses, achas que isso me deixa satisfeito?! As nossas conversas reduziram-se a massivas discussões. – Uma lágrima solitária rolou pela face de Adam. Era a primeira vez que o via chorar. – É o melhor para os dois.
Adam não disse mais nada, levantou-se do banco do piano. Kimberly estava paralisada entre o sofá e o piano, vermelha pelos soluços que controlava, pelas piores dores que jamais pensara um dia vir a suportar.
Com as pontas dos dedos, limpou as lágrimas que desciam. Adam tirou as chaves do bolso esquerdo das calças e saiu sem proferir nenhuma palavra, deixando Kimberly sozinha com as suas dores e dando-lhe como esclarecidas as suas intenções
Assim que certificou que Adam fora embora para algum lugar onde, provavelmente, passaria a noite a cismar, deixou-se cair de joelhos naquele chão frio como vidro, tal como o seu coração. Uma sensação de sufoco abraçava-a.
Para qualquer direção que olhasse, lembrava-se de alguma recordação deles. Recordava-se, sobretudo, dele. Do seu físico forte e moreno, do seu rosto elegante, do seu sorriso que a derretia sempre que ele a elogiava.
Não sabia se o casamento realmente acabava ali pelos ciúmes que ele tinha de Marco ou se por alguma relação extraconjugal da qual fazia questão de guardar segredo.
Levou as mãos à cara e chorou o máximo possível, soluçou como uma criança que tinha ido pela primeira vez à escola sem a mãe. Como iria anunciar à sua família que se iria divorciar?
Qual será o olhar penoso do pai doente que sentia pena de não estar no seu melhor para a consolar? Qual será a reação de Lyanne que com certeza gostaria de partir a cara a Adam? Qual será a reação de Mark ao saber que um dos amigos que já considerava como irmão partiu o coração da sua irmã? Qual será a sua reação ao encarar os papéis do divórcio?
Uma lição que tinha de anotar que seria levada para o fim da sua vida e que tinha sido aprendida da pior maneira, não existe amor que dure. Melhores amigos de infância é uma ideia comercial criada pela Disney. O amor é uma droga, tem um sabor incrível e anestésico no início, mas no fim é uma merda que nos destrui. Só a reabilitação nos garante uma melhora.
Kimberly não tinha ideia de há quanto tempo estava a chorar naquele chão frio, abraçada a todas as lembranças que a queimavam ainda mais por dentro. Já tinha feito tanta força para chorar tudo o que a magoava que o seu estômago se embrulhava cada vez mais.
Relutante nos passos, mas sem opção, o seu corpo estava debruçado sobre a sanita. A agonia perturbava-a, a sua boca preparava-se para expulsar um líquido amargo. Se todo o mal-estar psicológico fosse embora com o vómito, não teria quaisquer problemas em tê-lo feito mais cedo.
Assim que aquele líquido saiu num curto jato, amargo e nojento, que tinha forçado, sentou-se abraçando os joelhos. A sua boca tremia e, misteriosamente, os seus olhos tinham olheiras para não falar do cabelo desgrenhado.
Alcançou o telemóvel com o olhar, não tinha certeza de que ligar a alguém seria a melhor ideia. Camila, Lyane ou ninguém? Ambas.

Friday, 00:47 a.m. Stalteri House, Arizona
Lyanne e Camila acompanhavam o silêncio da dor de Kimberly, não tinham coragem de a afundar em perguntas. Apenas com o olhar, tinham concordado em questioná-la no dia seguinte.
− Já te sentes melhor? Queres que te traga alguma coisa? – Lyanne perguntou-lhe enquanto lhe afagava os cabelos. Custava-lhe ver Kimberly pálida e encolhida naquela cama.
Kimberly não disse nada, limitou-se a suspirar por uns longos segundos. Lyanne encarou Camila que, também, estava desnorteada. Não sabiam o que fazer para aliviar a situação, estavam encurraladas.
Lyanne não se convencia de que aquilo era verdade, a sua vontade era de procurar Adam, mesmo que isso a levasse aos confins do Mundo, e espancá-lo. Cresceram todos juntos, como se fossem irmãos, mas se tivesse que lhe dar uns beliscões, teria todo o gosto.
Para já, acalmada por Camila, não faria nada de cabeça quente. A situação por si proporcionava uma sensação bipolar, uma sensação de querer recordar ao mesmo tempo que queria queimar o rosto e a presença de Adam de todas as memórias.
Lembrava-se, em silêncio, quando Adam lhe deu leves suspeitas da confirmação dos seus sentimentos por Kimberly.

“Era oito de junho de dois mil e nove, um dia bastante ensolarado e quente quando o verão ainda não tinha começado.
Faltava tão pouco para o último dia do ano escolar e com o final vinham as viagens de estudo. Todos os alunos adoravam as viagens de estudo, porque para além de serem viagens, de significar que não haveria aulas, significava que teriam histórias hilárias para contar mais tarde.
Naquele dia, e por sorte, houve uma greve dos professores e funcionários, tendo decorrido apenas a primeira aula da manhã, Literatura. Apesar da disciplina render altos momentos de sonolência, Kim conseguia espantá-los ao falar com Adam, sentados ao fundo da primeira coluna de mesas.
Lyanne, que frequentava a faculdade, não teve aulas igualmente, aproveitando para se juntar a eles perto de uma espécie de parque próximo da escola. Apesar de Kimberly ter Mark como companhia até casa, sabia que o irmão estaria ocupado a namorar.
Ficar parado no mesmo lugar debaixo do sol abrasador, tornava-se torturante após alguns minutos, sentindo o cabelo a queimar e o cérebro a derreter.
− Vamos para a sombra, crianças? – Kimberly apontou para uma árvore. Estava sentada nas escadas de um dos acessos ao lugar a observar Adam e Lyanne a matarem-se por uma bola num jogo qualquer.
Lyanne e Adam suavam em bica restando-lhes concordar. Kimberly ajeitou a saia, deu meia volta e subiu as escadas.
No início das escadas, estava Luna, uma antiga colega e amiga do quinto ano, a qual não via há tempos. Lyanne e Adam tinham sido deixados para trás.
− Não achas? – Lyanne questionava Adam sobre um assunto ao qual não estava a dar ouvidos. Lyanne lentamente apercebeu-se onde o seu olhar ficara preso.
Todo o jeito de ser e agir captava a atenção de Adam, era automático. Kimberly era, a seu ver, a pessoa que mais lhe conferia plenitude. A sua humildade e franqueza tornavam-na única, o facto de nunca se ter atirado a ele apesar de o conhecer como a palma das suas mãos, de nunca se ter aproveitado.
− Com que então… Ah, a Kim? – Lyanne estava de mãos cruzadas a observar a mesma figura que Adam.
− Não é nada disso…
− Adam, nem tentes mentir, sim? − Lyanne advertiu-o. – Eu sei que gostas da Kim, afinal quem não gosta dela?
− E? Eu não tenho hipóteses com ela. – Adam continuava a olhar para Kimberly que agitava as mãos animada.
Lyanne encarou-o e reforçou uma expressão de incompreensão. A sua expressão gritava por explicação lógica para o seu pessimismo.
− Eu sou apenas o melhor amigo e eu nem sei sequer se gosto realmente dela. – Deu de ombros.
− Sem hipóteses, o melhor amigo, não tens a certeza? – Lyanne fez um resumo do que ouvira.
Adam arqueou as sobrancelhas como resposta, não percebia onde estava a dúvida ou a falta de credibilidade de Lyanne.
− Podemos dizer que ambas as partes se sentem assim. – Lyanne disse-o como uma confissão. Para bom entendedor meia palavra basta, dizem.
Lyanne, para sair do assunto ao qual já tinha feito revelações, chamou por Kimberly, acenou-lhe com o braço e caminhou na sua direção. Adam ficou perplexo.”

Three Days Later
  Monday, 09:23 a.m. Camila’s House, Arizona
Camila e Lyanne recusaram-se a deixar Kimberly sozinha no meio daquela confusão que era ela própria, não confiavam no que a tristeza de Kimberly a poderia levar a fazer. Prontamente, Camila dispôs-se a hospedar a amiga na sua casa onde morava com a sua mãe.
Kimberly, teimosa como uma mula, não fazia questão de arrastar os pés até lá. Recusava-se a abandonar o seu ninho, a sua dor e a incomodar mais os outros.
Após meia hora de conversa com Lyanne, que lhe puxou as orelhas e lhe ordenou que fosse antes que chamasse a sua mãe, conseguiu convencê-la de que seria o melhor a fazer, para esquecer um pouco do que a casa transmitia.
Já fazia três dias desde que saíra de casa e não voltara, perguntava-se se Adam teria regressado no dia seguinte. Se Adam tivesse voltado estaria disposto a falar? Não seriam decisões tomadas de cabeça quente? Continuava a preocupar-se com ele, acima de tudo…
− Bom dia. – Camila bateu à porta e abriu-a, o mínimo de modo a que Kimberly lhe visse o rosto. – Como estás? – Camila sentiu-se livre para entrar e sentar-se na beirada da cama.
− Vazia… − Saíra-lhe mais sincero do que estava à espera. – Uma sensação de ter perdido o rumo e não ter notado.
Camila ficou encurralada perante as suas palavras. Nunca tinha passado por um divórcio, por um fim complicado de uma longa relação, nada. Naquele momento, sentia-se inexperiente para a consolar com medo de dizer o que quer que fosse. Restou-lhe abraçar a amiga.
Kimberly não se desfez do abraço como costumava fazer quando estes excediam o seu tempo razoável, sentia que precisava daquilo que era a melhor forma de consolo.
− Quando quiseres, podes descer e tomar o pequeno-almoço connosco. – Camila sorriu quando se separou do abraço.
Logo que Kimberly voltou a ficar sozinha com os seus devaneios, voltou a formular mil e uma teorias e paranóias sobre como a sua vida seria a partir dali. Não era à toa que os últimos três dias lhe tinham dado flexibilidade para escrever. Era uma das suas paixões secretas que conseguia manter sem se desiludir.
Desde pequena sonhava com a ribalta, fazer alguma coisa que captasse a atenção das pessoas e a escrita concentrava isso e a questão de ser o seu escape da realidade. Na adolescência, conseguia passar horas a escrever, mas sem nunca ter partilhado essas coisas com ninguém.

Monday, 01:33 p.m. Arizona Police, Arizona
Se havia coisa que caía muito mal era a curiosidade, aquele tipo de curiosidade perigosa que nos corrompe por dentro. Nos últimos dois dias em que tinha vindo trabalhar, não vira nem sombra nem rastro de Adam. Perguntava-se como estaria a reagir.
− Kim? Será que me podes esclarecer esta questão? – Marco passou a mão à frente da sua visão. Deveria estar ali há uns cinco minutos sem brincadeira.
− Claro! – Kimberly sentiu a vontade de ruborizar e cavar um túnel até à China por estar a levar os seus problemas pessoais para o trabalho, mas ele trabalhava ali.
− Kim? Tu ouviste alguma coisa? – Marco parou de falar no que falava. Mais uma vez, dava conta de uma Kimberly distante.
− Desculpa, Marco. Não estou com cabeça para trabalhar, aliás para viver. Entendo perfeitamente se quiseres escolher outra pessoa.
Marco não se pronunciou, sorriu-lhe. Olhou-a nos olhos e depois para um canto qualquer da sala como se procurasse pelas palavras certas a dirigir-lhe.
− Nada disso, Kim. Tu és das melhores, corrigindo, a melhor daqui. – Marco fez uma pausa. – Deves ser uma mulher incrível e que sentes as coisas com uma intensidade incrivelmente forte. Tenho a certeza que o motivo da tua desconcentração é o Adam.
Kimberly sorriu. Tinha a certeza que se esforçasse para obter outra expressão, choraria.
− Nota-se que vocês são doidos um pelo outro, mas são capazes de estragar tudo pelas vossas inseguranças tanto um pelo outro como as pessoais. Vocês têm muita sorte por se terem…
− Vamo-nos divorciar… − Kimberly interrompeu-o. Marco não desconfiava de nada.
Marco ficou chocado, no que os seus lábios estavam entreabertos à espera que emitissem algum som, choque, tinha ficado tão chocado quanto ela. Ao que tudo indicava, Adam não tinha contado nada aos colegas.
− Divorciar, tipo divorciar? – Falou sílaba a sílaba. – Vocês vão desistir de tudo? – A sua expressão de choque prevalecia.
− Eu não o posso prender, Marco. – Kimberly encolheu os ombros preparada para chorar. Convencia-se de que Adam tivesse encontrado a mulher que merecia, por fim.
− Pode até parecer mentira, mas eu já fui casado. – Marco endireitou-se na cadeira. – Ela era perfeita, a mulher de sonho de qualquer um. – Com o olhar perdido no passado, sorriu. – Éramos mais jovens e bastante imaturos, quer dizer, eu era. Ela era responsável e bastante madura para a idade dela, o que me fazia sentir uma inveja saudável por a ter a meu lado.
Marco fez uma pausa na história que contava sobre parte da sua vida, esperava que Kimberly fizesse algum comentário ou observação. Ao contrário do que pensava, Kimberly manteve-se calada e atenta ao que Marco lhe contava.
− Casámos com vinte e dois anos. – Marco sorriu. – Namoramos por três anos e numa noite de loucura e de pouca bebida, quando dei por mim, já estava ajoelhado.
Marco conteve-se ao máximo para guardar as lágrimas, contorceu-se vez ou outra e aquilo agoniava-a. Agoniava-lhe o facto de um colega estar prestes a desfazer-se em lágrimas à sua frente, porque tinha a certeza que o iria acompanhar.
− Os nossos pais ficaram fulos, na época. As preocupações por sermos muito novos e blá blá blá… Mas não tardou para que as nossas mães começassem a planear a cerimónia e a aconselhar-nos com mezinhas estúpidas para conseguirmos ter um filho rapidamente.
Kimberly riu-se, com respeito. Aquele último espeto era semelhante, afinal mães são mães.
− Foi uma cerimónia pessoal e magnífica. – As suas lágrimas começavam a intensificar-se. – Fomos uma verdadeira peça. Discutíamos e depois resolvíamos as pazes da melhor maneira que sabíamos. – Kimberly entendia muito bem as suas palavras. – Até ao dia em que o meu egoísmo falou mais alto. Naquele dia, tinha acordado mal-humorado e discuti severamente com ela e fi-la chorar. Estava chateado pelo facto de ela ter oscilações de humor e se ausentar várias vezes.
Kimberly chorava em silêncio e odiava-o e odiava-se, por não saber qual seria a melhor maneira de o reconfortar. Já previa qual era o final da história.
− E? Vocês separaram-se?
− Sim, Kimberly. – Marco abanou a cabeça. – Ela procurou-me e eu, como imaturo e estúpido que era, fi-la chorar uma vez mais e ela desistiu. Para quê que ela queria um homem que era o melhor apenas em fazê-la chorar?
Kimberly entendeu que não se tratava de uma história da vida de Marco com final triste, era uma história que atualmente o assombrava. Marco não contava, ele desabafava, e chorava pela dor que carregava por a ter perdido.
− Hoje em dia, ela está feliz, casada e com uma filha linda. – Limpou as lágrimas. – E o pior de tudo é que a casa em que mora é a mesma que morava desde a infância, de frente para a casa dos meus pais.
Kimberly sentia as palavras arrasadas pela tristeza e que Marco via a sua história refletida na de Kimberly.
− Se eu soubesse ouvir, se soubesse esperar, muito possivelmente ainda estaríamos juntos. – Marco limpou-lhe as lágrimas.
− Não é tarde para lhe mostrares que aprendeste isso. – Kimberly disse-lhe. Sorriu-lhe, de seguida, para atenuar o ambiente tenso entre os dois.
Duas batidas à porta chamaram a atenção de Kimberly e Marco. Apesar das batidas, ninguém se atreveu a entrar, possivelmente à espera de ouvir uma palavra de permissão.
− Entre! – Kimberly falou alto o suficiente para se ouvir do outro lado da porta.
Era Camila.
− Eu não sei se estás à espera ou se não, mas o teu irmão está aqui. – Camila tinha uma expressão um pouco incomodada, pelo facto de não fazer conta de Mark. Sabia que Kimberly não contara nada à família, ainda. Temia o pior.
− Claro, eu já vou! – Kimberly levantou-se da cadeira, sendo seguida pelo olhar de Marco que também se levantou.
− Eu sei que és forte… − Marco segredou-lhe para que apenas Kimberly ouvisse. Depositou-lhe um beijo na testa.
Kimberly passou a mão pelo rosto, certificando-se de que estava apresentável. Saiu do seu cubículo abandonando Marco.
Tinha medo do que Mark pretendia com aquela visita surpresa, do que se lembrava ninguém se tinha pronunciado sobre o seu divórcio com Adam. Além, Adam não teria coragem de confirmar que tinha destroçado o pobre coração da irmã de um velho amigo.
− Olá, Mark! Que fazes aqui? – Perguntou nervosa.
− Eu vim entregar-te umas coisas que a nossa adorada mãe galinha te queria dar. – Riu-se, não devia saber de nada ainda. – Só achei estranho que o porteiro do vosso prédio já não te vê há algum tempo. Alguma zanga?
− Não. – Disse séria. Antes fosse apenas uma zanga como as que tinham no início.
− Passasse alguma coisa que eu deva saber, Kim? – Mark ficou sério, os seus instintos de irmão protetor estavam ativados.
− Por favor, não te passes. – Kimberly tinha os olhos marejados. – Nós vamos nos divorciar.
Kimberly segurava o braço do irmão, porque tinha a certeza de que ele sairia disparado em busca de Adam.
− O quê? – Mark falou um pouco mais alto o que fez com a atenção das pessoas ali presentes se centrasse neles.
− Por favor, Mark. Não faças nada! – Kimberly implorou ao sentir os músculos do irmão contraírem-se.
− Como é que esperavas que eu reagisse? Ele é muito meu amigo, mas isso não me impede de lhe esfregar a tromba no asfalto! – Mark pronunciou-se irritado. Arrastou a irmã para um canto para evitar os olhares curiosos. – Há quanto tempo é que decidiram isso?
− Há menos de uma semana…
− E não planeavas dizer à tua família? Ele fez-te mal?
− Para, simplesmente para! É por isto que eu não queria dizer nada, é sempre a mesma merda de proteção quando toca a mim e os olhares de pena. Eu não quero estragar a vossa amizade.
Mark suspirou. Por mais que a vontade de espancar Adam fosse grande, respeitava a irmã. Não gostava de a ver desfeita, a chorar por um homem.
 
Monday, 03:09 p.m. Arizona Police, Arizona
Adam e Kennedy estavam no escritório de Adam a discutir sobre casos que tinham trabalho anteriormente. Já tinham sido algumas centenas que tinham rendido bastantes histórias. O que piorava na questão de concordarem em vários aspetos.
− Ai cuidado com a donzela que está na T.P.M.! – Kennedy tinha feito uma pequena piada sobre o humor de Adam com um caso antigo, Adam não gostou nada.
− E tu já reparaste que és mais chato que as tias que aparecem por volta do Natal? – Adam estava sério e disposto a discutir se isso acontecesse.
Kennedy limitou-se a rir, provocando-o mais.
− Já reparaste que andas insuportável ultimamente? – Kennedy recompôs-se na sua cadeira. – Tu já eras, ficaste melhor quando a Kim chegou e agora… Agora nem ela te deve aturar.
As palavras de Kennedy estavam certas, tão certas que lhe fervia o sangue. Mas não interessava, ele não tinha o direito e nem deveria ousar em falar que nem Kimberly o suportava. Não queria bater num dos seus melhores amigos e perder a sua amizade.
− Nem sabes a vontade que tenho de te ir às trombas. – Disse pausadamente para se acalmar.
− Ambos sabemos que não seria a primeira vez. Acredita que teria todo o gosto em te mandar para um cirurgião plástico, talvez a Kim conseguisse arranjar um “Adam Bem-Disposto” durante a tua cirurgia. – Kennedy riu-se.
Aquilo tinha sido a última gota.
− Sabes que mais? Tu és um péssimo amigo, és ridículo. – Adam apontou-lhe o dedo. Kennedy já não se ria como antes. – Tu devias apoiar-me, não é só a Kim que está magoada. Eu também estou magoado e desapontado comigo mesmo, principalmente.
− O que queres dizer com isso?
− Nós vamos nos divorciar. – Cuspiu as palavras que surpreenderam o amigo. – Estás feliz, agora?




Fourteenth Chapter

Closer To The Clouds Up Here
Publicado em: 21/04/2018


And I held your hand through all of these years
But you still have all of me
I've tried so hard to tell myself that you're gone
But though you're still with me
I've been alone all along
Evanescence in My Immortal

Kimberly ficou recetiva às palavras do irmão. Estava a ser egoísta e não era justo não anunciar à sua família que ela e Adam já não tinham futuro como modelo de casal. Por mais que lhe custasse, teria de enfrentar cada cara de dor.
Tentara mentalizar-se que iria aparecer de surpresa, caso os avisasse sobre a sua visita repentina ficaria mais tensa. Apesar do ter tentado yoga e meditação para se acalmar, não lhe serviu de grande ajuda.
A visita surpresa de Mark tinha-a deixado inquieta, temia que o irmão comentasse alguma coisa com a mãe. Agora que ela estava no Arizona com o pai e o irmão não lhe custaria nada vir a correr ter com a filha para a aconselhar.


A vivenda que tinham comprado há pouco no Arizona nunca tinha recebido a visita de Kimberly até àquele dia. Ótimo, iria estragar toda a boa energia que o local poderia vir a oferecer.
O que começou por ser uma visita agradável quando viram a filha, visivelmente apagada e triste, logo se tornou numa péssima visita quando proferiu as palavras “Vamos nos divorciar” como uma frase séria e determinada.
O olhar triste denominou nas faces dos seus pais seguido de palavras que tentavam consolar o espírito já há muito ferido de Kimberly.
− Onde vais dormir agora? – Samantha estava preocupada em como a filha iria reagir dali para a frente. Infelizmente, sabia que o apartamento onde viviam desde o namoro era de Adam.
− Eu tenho dormido em casa de uma amiga, a Camilla. E ainda tenho que lá voltar – Kimberly fez uma pausa prolongada. – Temos que falar e resolver o resto das coisas. Não te preocupes, eu sei com quem contar.
− Se não tiveres ninguém, podes reconsiderar New York. – Bruno falou debilitado. Não sabia quanto tempo tinha pela frente e gostaria de ter a filha por perto.
Kimberly sorriu para os pais e irmão.

Monday, 11:49 p.m. Stalteri’s House, Arizona
− Não devias andar na rua a estas horas. – Adam falou assustando Kimberly.
Kimberly não fazia conta de Adam estar acordado e muito menos de estar na sala de estar à sua espera. Tinha feito o maior esforço para não se ouvir o batente da porta.  O seu coração teria facilmente saído pela boca se isso fosse possível de acontecer.
− Não fazia ideia que ainda estavas acordado. – Colocou a mão no peito pelo susto.
− Ainda precisamos falar. – A tranquilidade com que falava começava a irritá-la.
− Só vim buscar umas coisas para ir para casa… − Kimberly foi interrompida por Adam.
− Tu não vais a lado nenhum. – Adam sentiu o seu olhar confuso cair sobre si. – Ainda somos legalmente casados, certo? Antes de sermos casados, somos amigos. Como duas pessoas maduras, acho que podes ficar aqui até assinarmos os papéis e cada um seguir a sua vida.
Era uma boa proposta.
− Acho que estamos falados por hoje. – Adam não esperou pela reação à sua proposta. – Fico à tua espera na cama, acho que ninguém se irá morder ou ficas muito incomodada?
− Não… − Saiu como um disparo rouco e intimidado. Tinha consciência de que toda aquela situação só servia para piorar mais tarde a sua vida sem ele. 

Tuesday, 02:18 a.m. Stalteri’s House, Arizona
Kimberly demerara o máximo que pudera para se deitar na mesma cama que o seu futuro ex-marido. Conseguir encaixotar muitas dos seus objetos, removeu vagarosamente a maquiagem que não tinha sido levada pelas lágrimas, tomou um banho quente e demorado e vestiu-se com alguma coisa, diferente de antes que dormia em lingerie ou até mesmo nua. O caso agora era diferente.
Foi derrota pelo sono a ir dormir. Quando na sala-de-estar achava que Adam troçava do seu estado ao propor que ficasse naquela casa e que dormisse com ele, bem, ele não estava a troçar. Encontrou-o adormecido para o lado da parede, melhor para ela que não encararia o seu rosto descansado.
Às vezes a fé desiludia-a, mas naquele momento rezou para que todas as divindades existentes em várias religiões a escutassem. Sentia-se intimidada, sentia-se mal por estar ainda ali e prestes a passar a noite na mesma cama que ele.
Deitou-se e bem afastada do seu corpo, limitando a percentagem de que ele lhe tocasse ou agarrasse. A sua dignidade já não existia e o seu subconsciente colocava-a para baixo.
Era uma dor de cabeça constante, sem fim e sem pausas. A sua única solução, a fim de aliviar um pouco o que sentia, era deixar-se levar pela corrente dos seus pensamentos e deixar que as lágrimas fizessem o seu trabalho. Punição psicológica.
Já era automático, com a cabeça apoiada nos braços e a lágrimas a contornarem face e braços abaixo. Sem querer, um ou dois soluços saía e tapava a boca para que Adam não acordasse. Uma sensação de alívio momentâneo.
Prestes a fechar os olhos, vencida pelo peso do sono exercido nas pálpebras, um peso, que não o seu, agarrava-a contornando-a abaixo do peito. Adam. Sabia que não era bom estar a forçar a criação de memórias, mas o seu “abraço” era reconfortante, como se fosse tudo o que precisasse.
Agarrava-a com uma força razoável para quem estava a dormir. Não se esforçou para realmente perceber se ele dormia mesmo. Pousou a sua mão sobre a sua, adormecendo.

Thursday, 07:21 p.m. Stalteri’s House, Arizona
Nenhum dos dois se pronunciou sobre o acontecido de há dois dias. Talvez fosse apenas Adam a dormir, talvez se ele não tivesse feito o mesmo nos dias seguintes quando Kimberly cantava em tons de suspiro.
Kimberly gostava de pensar que tudo o que acontecia durante a madrugada era semelhante a Las Vegas: o que acontecia na madrugada, ficava na madrugada.
Dias atrás, por conselho de Camila, Kimberly cedeu a procurar um médico psiquiatra que a identificou com uma tal de “depressão reativa”, que segundo ele era “uma depressão caracterizada por ser um transtorno de adaptação desencadeado por uma situação traumática ou estressante — como o falecimento de alguém querido, o término de um relacionamento ou um despedimento.” Era, ao que ela gostava de chamar, “Efeito Adam.”
Kimberly ficou chocada, não porque não desconfiava, mas por ter a confirmação. Como todo o doente de se prezar, negou.
O seu tratamento consistia em fazer psicoterapia duas vezes por semana e tomar uma medicação com um nome de enrolar a língua, ao que Adam nem sonhava.
Ao que necessitava de sair a meio do dia, restava-lhe imenso tempo para gastar consigo mesma, tentava abstrair-se de alguma forma do seu mundo cinza.
Infelizmente, Adam teve folga exatamente num dos dias em que ela fazia psicoterapia. Restava-lhe chegar a casa, contar uma mentira que se assemelhasse a passar o dia com Lyanne e pôr as lides da casa em dia, evitando ao máximo falar com ele.
Maldita a hora em que a sua programação do dia era mandar a roupa para lavar. Kimberly encontrara um bilhete com marca de um beijo num dos bolsos do casaco de Adam. Ficou puta da vida, tinha presente a ideia que se iriam divorciar, mas ainda estavam casados, certo?
Todo aquele sentimento de estar a ser traída era horrível, agoniante e desesperante. Já desconfiava, mas mais uma vez a confirmação era pior que todas as suas paranóias juntas. Naquele momento, só lhe apetecia envenenar a comida de Adam ou acertar-lhe em cheio numa zona que o incapacitaria de deixar descendência.
− Ouve uma coisa. – Kimberly entrou sem bater à porta do seu escritório. – Mas que merda vem a ser esta? – Ergueu a mão que segurava o bilhete.
Adam estava sentado na cadeira de costas para a porta a falar com alguém por telemóvel. A sua expressão era confusa quando girou a cadeira. Desligou a chamada.
Adam estava confuso, não tinha nada que o culpabilizasse, tinha a consciência limpa. Só que não entendia o que Kimberly tinha encontrado.
− O que é isso?
− Não te faças de parvo. É um dos bilhetes da tua amante. – Kimberly cuspiu as palavras. – Qual era a tua moral para teres ciúmes do Marco?
Adam levantou-se e tirou-lhe o bilhete da mão para o ler. Um bilhete idiota de uma desesperada pela sua atenção. Riu-se, o que provocou mais a fúria de Kimberly.
− Podias-me ter dito que tinhas outra – Sentiu um desprezo total ao desferir a palavra “outra”. – Tu realmente não prestas.
Kimberly encarava-o com desilusão e raiva, estava magoada. Nunca pensara que o seu casamento com o seu melhor amigo tivesse aquele desfecho, não imaginaria que ele fosse capaz de a trair.
Adam, que era mais alto, sentia o olhar da esposa a queimá-lo no subconsciente mesmo sem não ter feito nada. Por mais que quisesse negar, Kimberly afetava-o sempre, porque não a deixara nunca de amar. Ele não sabia o que era viver sem a amar.
Deu uma última leitura ao bilhete e lançou-lhe um olhar provocador, tendo como resposta um olhar confuso. Baixou a mão e deixou que o bilhete caísse ao chão. Como se já não estivessem perto o suficiente, Adam deu um passo na direção de Kimberly, ficando separados por poucos centímetros.
− Achas? Achas que tenho uma amante?
− Óbvio! A prova está diante dos teus olhos… − Kimberly respondeu. – Eu odeio-te.
Kimberly dissera para atingir Adam. Seria bem-sucedida caso ele não a conhecesse bem o suficiente para saber que dizia isso apenas para o magoar, porque, com toda a certeza, era mentira o que dizia.
− Será que vais continuar a odiar-me depois disto? – Adam questionou-a quase num sussurro.
Kimberly estava confusa e sem intender o que ele pretendia dizer, por pouco tempo. Quando se deu conta, Adam já a tinha agarrado e tinha extrapolado a distância limite para um ex-casal.
Agarrando-a pela cintura, obrigou-a a ficar colada a si. Kimberly sentia-se desnorteada pela falta de distância entre os dois e alternava os olhares entre os seus olhos e os seus lábios entreabertos.
Ao contrário dela, Adam sentia uma sensação estranha de saber muito bem o que queria. Avançou em direção aos seus lábios, matando a saudade que tinha da sua, ainda, esposa.
Kimberly sentia-se uma boneca nas suas mãos, não esperava por aquilo tampouco. O seu corpo também brincava com a sua parte cerebral ao não lhe obedecer. Uma onda de adrenalina percorreu-lhe o corpo e podia jurar que perdera os sentidos por meio nanossegundo. Toda aquela situação lhe parecia errada.
Correspondia ao beijo do marido que se prolongava pelo seu pescoço, ao mesmo tempo que os seus pensamentos se afastavam para coisas em que se dizia “a vadia que o beija é realmente dona de toda a sorte”, “aposto que ele engana as duas” ou “por que é que ele faz isto comigo?! ”.
As suas mãos deslizaram do seu rosto para os ombros que ela arranhava por cima da camisa. – Por que é jogas assim comigo?
Adam segurava-lhe o corpo mais abaixo que da cintura e beijava-lhe o colo ameaçando descer mais.
− Porque ambos queremos isto…
− Como podes ter tanta certeza? – Perguntou-lhe com o objetivo de o atiçar.
Adam limitou-se a erguer o olhar e sorrir-lhe de modo malicioso. Beijou-lhe os lábios novamente e fê-la caminhar de costas até à sua secretária. Empurrou alguns dos objetos e quando a sentou, podia jurar que ouviu o bater das suas coxas na madeira de cerejeira.
Kimberly tentou engolir a sua cara de dor fina e irritante.
− Desculpa. – Sussurrou-lhe ao mesmo tempo que lhe levantava a bainha do vestido ao que ela não impediu, apenas colocou a sua mão na de Adam para acompanhar o movimento.

Thursday, 09:03 p.m. Stalteri’s House, Arizona
O que eles tinham começado no escritório acabaram no seu quarto.
Kimberly adormeceu sob Adam, mas por pouco tempo. Possivelmente, dormira por meia hora, enquanto ele ainda dormia. Era apaixonante ver a sua face tão serena, tão calma que não parecia o Adam resmungão, de mau-humor que devido ao passar dos anos, já apresentava alguns resquícios de rugas à volta dos olhos. Mas tudo aquilo estava para acabar em breve.
Em modo automático, chorava em silêncio. Chorava sentada e nua, de costas voltadas para ele. Era doloroso ter a noção de que aquilo que a mantinha viva, era o mesmo que a corrompia.
− Não chores, por favor… − Pediu-lhe, lembrando-lhe da sua presença. Passou-lhe os braços abaixo do peito que, como resposta, ela os abraçou de volta.
Nós somos tão tóxicos… Só fudemos mais e mais com o que já está completamente fudido.
Adam não respondeu, beijou-lhe antes a curva do pescoço e pousou a sua cabeça lá. Apertava-a mais contra si à medida que o seu choro se intensificava.

A Week Later
Saturday, 03:09 a.m. Stalteri’s House, Arizona
Kimberly voltou a adormecer com Adam a agarrá-la. Ele sentia que o seu sono era agitado com o seu debater contra o seu peito, mas sem nunca a largar.
Sentia-a cansada e bastante abatida. Ele também estava cansado de a ver assim e triste, porque a fazia chorar.
Num sobressalto, em plena madrugada ouviram o telefone de casa tocar. Passava um sentimento assustador alguém telefonar justamente à hora do Diabo, era de bom senso não telefonar a partir das dez, igualmente.

− Estou? – Kimberly atendeu com cansaço o suficiente para ignorar o nome que aparecia no identificador de chamadas.
− Kim, filha?! Onde estás? – Era Samantha, muito preocupada e assustada.
− Estou… − Kimberly olhou para Adam para se certificar se devia ou não dizer onde realmente estava. – em casa, mãe. – Adam sorriu em aprovação.
− Filha, não entres em pânico, sim? – Samantha ignorou totalmente o facto de a filha estar a dormir na casa do seu futuro ex-marido. – O teu pai, ele não queria acordar e… − Samantha já gritava ao que Adam conseguia ouvir a conversa.


Kimberly caiu devastada na cama. O olhar de preocupação de Adam debatia-se nela com perguntas pertinentes “Kim, o que se passou?”, “Estás a sentir-te bem?”, “Responde!”.
O choque era enorme, não filtrando uma palavra do que pretendia dizer. Ao terceiro “Responde-me!”, Kimberly soltou uma lágrima solitária junto com a resposta.
− O meu pai… ele foi parar ao hospital já inconsciente. – O choque manteve a sua voz calma.

Saturday, 03:20 a.m. Hospital, Arizona
Sem se preocuparem muito com a indumentária que envergavam, Adam conduziu a uma velocidade a que nunca pensou conduzir. Estava tão desperto pelo choque que a notícia causara e pelo choro copioso de Kimberly ao seu lado, por fim explodiu.
Kimberly ia cega, pediu as informações necessárias na recepção e corria pelos corredores sem se preocupar muito se Adam a seguia. Ao fim de uns poucos corredores, avistou a mãe e ambas envolveram-se num abraço dramático. Por cima do ombro da filha, viu Adam.

            Saturday, 03:43 a.m. Hospital, Arizona
Samantha estava uma lástima, dez vezes pior que a filha, que já não tinha um aspeto agradável, e nnão se tinha sentado uma única vez desde que chegaram ao hospital.
Ao contrário da mãe, Kimberly tinha sido vencida pelo cansaço e dormia contra o peito de Adam.
− Há quanto tempo, Adam? – Samantha tinha um olhar frio e distante.
Adam já esperava que ela o questionasse sobre aquela situação confusa que eles eram, por instantes fingiu-se de desentendido.
− Vá lá, Adam. Eu sei que tu entendeste, conheço-te desde pequeno. – A sua voz voltava ao velho tom de Samantha, amável e bastante maternal. – Vocês continuam a viver na mesma casa, eu sei. Discutem bastante e fazem as pazes da maneira que fazem.
Adam deu um meio sorriso e encolheu os ombros, também vivia magoado com toda aquela situação.
− Por favor, não se magoem.
Um médico a passos largos e barulhentos roubou-lhes a atenção, Kimberly despertou também devido ao sobressalto de Adam. Já estavam todos a suar de ansiedade.
− Família do senhor Bruno Lively? – O médico, que carregava um crachá com o nome de Sayer, trazia em mãos uma prancheta branca com várias folhas.
− Somos nós. – Samantha respondeu pelos três. Aos olhos de Adam, as suas olheiras pareciam ter aumentado em espaço de segundos.
− Lamento imenso, o Sr. Lively não resistiu. Ele faleceu. – O Dr. Sayer baixou os olhos impotente para lidar com o choro dos presentes.
Samantha ficou em choque e, em desespero, abraçou o médico, deixando-se aos poucos escorregar de encontro ao chão frio. O Dr. Sayer deveria estar completamente habituado àquelas situações, estava humanamente no chão a reconfortar Samantha.
Diferente da sua mãe, Kimberly custou a absorver a informação. Olhou para Adam, que a envolveu nos seus braços. A ficha caiu ali. Adam manteve-se forte pelas duas, teria em breve de contactar Mark a contar sobre a morte do pai.

Saturday, 05:31 a.m. Hospital, Arizona
Adam ficou responsável por telefonar a Mark, devido ao estado da sua mãe e irmã. Mark estava noutro estado, a cinco horas de casa. Ficou com o coração mais despedaçado ao ouvir que Mark chorava e culpava-se por não estar presente do outro lado da linha.
O ar do hospital causava-lhes uma doença psicologicamente sentida, ao que as enfermeiras e auxiliares demoravam a dar-lhes informações sobre como seriam as coisas a partir dali, o que deveriam fazer.
− Vem connosco para casa? – Kimberly perguntou à mãe. Sabia que ela tinha apanhado um táxi até lá e não queria a mãe sozinha, sabe-se lá o que aconteceria.
− Não, filha. Eu não quero estragar o vosso ambiente. – Samantha tentava limpar as lágrimas e falar sem soluçar.
Kimberly ficou calada por instantes, a mãe sabia que eles ainda viviam juntos. Apesar de a mãe não ter feito ainda uma abordagem sobre o assunto, tinha a certeza sobre o que ela pensava.
− Não! Por favor, venha connosco. O Mark também só chega daqui a algumas horas.
Samantha acabou por ceder, sem forças para aquilo.
No carro, Kimberly observava a mãe descansar através do retrovisor. Tal como ela, estava calmamente encostada à janela do carro. Sem fazer conta distraída pela paisagem em constante movimento, sentiu a sua mão segurada por outra, Adam.
− Nós vamos conseguir ultrapassar isto. Eu estou aqui. – Adam beijou a sua mão. Aquilo tinha-lhe aquecido o coração.

Saturday, 05:56 a.m. Stalteri’s House, Arizona
Adam sentia-se esgotado, pequeno. O estado emocional de Kimberly e Samantha tinham-no esgotado, a força que buscara para reconfortar Kimberly e para telefonar a Mark, sem falar que relembrou de tudo quando telefonou para o trabalho.
Estava sentado na beira da cama de costas para Kimberly, pensava em tudo e em nada. Era horrível saber que em breve o seu casamento acabaria, deixando Kimberly pior.
− Tu contaste tudo. À minha mãe, não foi? – Kimberly questionou-o no silêncio do escuro.
Adam estremeceu de susto, jurava que Kimberly dormia tranquilamente.
− Por que perguntas isso? – Adam aparentava estar um pouco desconfortável com a situação.
− Eu não sou burra, Adam. Eu dei conta quando ela mandou a indireta de “estragar o nosso clima” e também, porque ela deu-me uma palestra quando lhe foi desejar bons sonhos.
Adam olhou para trás, Kimberly continuava de costas impossibilitando-o de ver a sua expressão. – Nós nunca fomos bons a esconder as coisas.
Kimberly olhou para trás, apenas com o cansaço presente em toda a sua face. Com alguma dificuldade, devido ao cansaço, sentou-se na cama.
− Como é que vão ser as coisas a partir de agora? – As lágrimas de Kimberly já desciam sem esforço.
− Dolorosas, especialmente. – Aproximou-se dela. – Mas eu estou aqui. – Sussurrou, mas estava tão perto que ouvia perfeitamente as suas palavras e a sua respiração irregular.
Sem pensar muito, Kimberly aproximou-se ainda mais dele, não deixando espaço entre eles. Aquilo era errado em tantos níveis, faria com que as coisas doessem mais. Selaram-se num beijo, num beijo que estupidamente tirava parte do cansaço de Adam.
Porquanto mais tempo aguentaria ficar naquele vai e vem? Não sabiam e nem queriam saber. Em meios de atos desesperados, Adam puxou Kimberly para o seu lado da cama.
Kimberly estava por cima de Adam que estava sentado no seu lado da cama. As suas mãos não se contiveram em tocar a pele da esposa por baixo da sua camisa de dormir. Kimberly em momento algum o proibiu de tirar a sua camisa de dormir.
− Não podemos fazer isto, Adam… − Kimberly sussurrou enquanto sentia os lábios de Adam no seu pescoço.
− Porquê?
− A minha mãe pode ouvir-nos… − Kimberly tentava despir-lhe a camisa.
− Podemos fazer pouco barulho…
Kimberly cedeu, não tinha outra opção mesmo que o desejasse. A verdade era que eles tinham sido bastante silenciosos e calmos, não lhes agradaria a ideia de que Samantha pudesse acordar e ouvir os barulhos feitos pelo casal.
Nunca tinham feito amor assim com ninguém. A entrega desta vez fora diferente e a preocupação de não poderem fazer barulho. Consolavam as suas almas devastadas e feridas.


Fifteenth Chapter
Love Hurts
Publicado em: 06/05/2018


I'm holding on your rope
Got me ten feet off the ground
And I'm hearing what you say
but I just can't make a sound
You tell me that you need me
Then you go and cut me down, but wait
You tell me that you're sorry
Didn't think I'd turn around, and say
− Timbaland in Apologize ft. OneRepublic

Tuesday, 10:13 a.m. Cemetery, Arizona
No dia do funeral de Bruno, pai de Kimberly, o céu unira-se e chorava com eles. Estava um dia depressivo pelas nuvens extremamente cinza que pareciam não se mover um centímetro que fosse.
A equipa principal, colegas de trabalho de Kimberly e Adam, apareceram com uma face chocada sem conseguir reagir ou o que dizer que fosse apropriado a ser dito a Kimberly.
Apesar de ter estado o funeral todo ao lado de Adam, o que levantou uma série de dúvidas sobre se eles se iriam divorciar realmente, Kimberly não estava lá. Numa cronologia de estados esteve apagada e distante e depois passando para um estado choroso.
Adam não largara a esposa, respondendo uma série de vezes aos “pêsames” que lhe eram destinados e encarregando-se de lhe perguntar vezes e vezes se se sentia bem devido à sua face pálida e marcada.
Kimberly mantivera-se forte pela mãe, no início, mas não aguentou por muito. Assim que o padre começara toda a cerimónia com aquelas palavras que todos sabemos que carregam eufemismos para a morte, Kimberly olhou para Adam como se procurasse a luz.
Adam abraçava Kimberly com força o suficiente para que ela sentisse que ele estava ali para ela, que era real a sua presença e, acima de tudo, estava lá por amor. Um amor que nenhum dos dois conseguia compreender.
O choro copioso de Kimberly doía-lhe de uma maneira que ele não conhecia.
Samantha abrigara-se no seu luto, como seria de esperar, e não se alimentava decentemente desde que fora para casa da filha. Ao contrário da filha, que encontrava na comida um refúgio, Samantha não conseguia conter os poucos alimentos que ingeria.
Seria de esperar que no dia do funeral, três dias depois, Samantha estivesse fraca como uma folha de papel. Estava envolta numa esfera onde girava a tristeza, o choque e a fraqueza. Quase desmaiara a meio da cerimónia e quase fora obrigada a ser levada por uma ambulância.
Samantha, de joelhos no chão, chorava para que a deixassem levar o marido até à sepultura e a deixassem despedir-se dele. Uma cena lamentável. Impotente para fazer alguma coisa, Kimberly chorava e agarrava-se cada vez mais ao peito de Adam.


− Força, querida. – Lyanne abraçou Kimberly que se deixara envolver pela fraqueza emocional. Não parecia a Lyanne que todos conhecem por ser espalhafatosa e festeira. – Nós estamos aqui, apesar de tudo. – Lyanne olhou de lado para Adam, desde que Kimberly anunciara a sua separação ficara com ranço de Adam.
Como forma de irritar Lyanne, Adam colocou uma das mãos na cintura de Kimberly.
− Sabes onde nos encontrar. – Foi a vez de Edward a abraçar e beijar-lhe a bochecha.
− Se não te importas, nós temos de ir por causa do August.
– Claro. Serão os primeiros a saber, caso aconteça alguma coisa. – Pouco a pouco, Kimberly tomava o ritmo normal da sua fala. Alternava o olhar entre Lyanne e Adam que encarava um ponto no horizonte.
Lyanne abraçou e beijou Kimberly uma última vez e depois caminhou ao lado de Edward, cujo casal invejava.
No local só restava Adam e Kimberly. Samantha já tinha sido encaminhada para o hospital acompanhada de Mark, onde faria exames e, possivelmente, levaria soro para se alimentar.
− Vamos para casa, foi um dia demasiado emotivo. – Adam beijou-lhe o topo da cabeça.
Adam não esperou que Kimberly reagisse, limitando-se a guiá-la de encontro ao carro.

Tuesday, 01:23 p.m. Stalteri’s House, Arizona
No caminho para casa, que não parecia mais ter fim, Adam reparara no cansaço de Kimberly e restringiu-se a perguntas curtas e espaceadas. A qualquer momento, Kimberly apagou encostada ao vidro do carro em movimento.
Ficou espantada e chocada quando aos poucos se apercebeu de estar num quarto, diferente do cenário de que se lembrava. Deus tinha atendido aos seus pedidos, tudo passara de um sonho!
− Adam? – A sua voz involuntariamente chamou por ele, maldita!
− Oh, acordaste. – A sua voz saiu calma e aliviada.
− Onde vais?
− Vou ao supermercado, esta casa tem os armários cheios de ar.
− Por favor, não vás! – Kimberly abraçou-se a ele. – Não quero ficar sozinha, tenho medo. – Kimberly ameaçava chorar enquanto as suas pernas ficavam mais próximas do seu corpo.
− Eu volto já, prometo. – Adam, surpreendentemente, beijou-lhe os lábios. Encarou o seu rosto e sorriu ao afastar uma madeixa do seu cabelo. – Liga-me se precisares. – Beijou-a antes de se separar definitivamente dos seus braços.

Half and a Month Later
Thursday, 05:37 p.m. Stalteri’s House, Arizona
Kimberly acabava de voltar de uma consulta relâmpago com o seu psiquiatra, agora amigo, Matthew. Não tinha feito uma semana desde a sua última consulta, porém sentira a necessidade de lá voltar.
Telefonara angustiada a Matthew, sabia que não estava bem, estava uma pilha de se sentir tão pressionada, stressada com a sua volta ao trabalho e por todos teimarem que deviam ter pena dela.
Fora horrível a sua volta ao trabalho. As perguntas que sem querer lhe tocavam na ferida, os olhares que ela reparava serem de dó e pena e os cochichos.
Tornara-se fria e pessimista, levando todos a comentarem “Estás diferente.” e a receberem respostas não muito agradáveis, mas eles mereciam. Trancava-se no seu cubículo e trabalhava até à exaustão, ao ponto de chorar e telefonar a Adam, que precisava de falar com ele. Só com ele é que ela voltava a ser a verdadeira Kimberly.
A consulta fora tudo e nada do que esperara. Grande parte do tempo foi um monólogo consigo mesma, pensamentos em voz alta sobre as suas inseguranças, o seu divórcio e a morte fresca do seu pai.
Estava de cabeça perdida, sentada num sofá de uma casa vazia. Estava assustada e com o coração acelerado e por instantes jurava que o tempo parara diante dos seus olhos. Aqui, as palavras já não a prendiam, ecoavam apenas gritos, lágrimas e silêncios. Tinha a vida de pernas para o ar, como se alguém lhe tivesse arrancado o coração, a alma, os sentimentos. O seu marido já não a amava, talvez estivesse com alguma vagabunda mais nova que ela, desconfiava disso e de quem seria.
Nos seus desvaneios dos quais não se conseguia libertar, sentiu uma pontada no fundo da barriga, ah não! Outra vez o mesmo inferno?! Sabia o que aí vinha quando a sua dor oscilava entre forte e insuportável. Sentia o seu corpo ficar inteiramente pesado.
Levantou-se com uma certa relutância e verificou o lugar onde estivera sentada, uma mancha de sangue. A sua saia também estava bastante manchada pelo mesmo sangue. Já sabia onde se dirigir.

Thursday, 07:48 p.m. Hospital, Arizona
Outro aborto.
Expressava um sentimento insensível quando recebeu a notícia e não tinha emoções a expressar. Toda a dor, que vinha aguentar desde que o seu casamento começara a cair, envolveu-a numa capa onde já nada a abalava tanto quanto antes.
Ouvia a obstetra, a mesma que outrora, falar que até podia ser algum problema por ser o seu segundo aborto, mas que os exames não indicavam isso, tudo se devia ao stress e ao modo de como a sua vida andava emotiva ultimamente.
Era tudo uma grande palhaçada e o seu ódio só crescia. Ninguém se importava se ela realmente tivera um aborto, eram apenas palavras de consolo, uma representação sem fim.
− É possível assinar um termo de alta? – Kimberly interrompeu a Dr.ª Sandra Bellucci que palestrava sobre “não desanimar”, “podem voltar a tentar mais tarde” e “sei o quanto é difícil”.
− Gostaríamos de ter a certeza de que está tudo bem com a Sr.ª Stalteri. E também gostaríamos de realizar mais alguns exames… − A Dr.ª Bellucci, como dizia no crachá, que adornava a sua bata branca, ficou surpreendida por ser interrompida e, também pela pergunta.
− Sim, sim… – Kimberly começava a ficar sem paciência. – Mas eu posso assinar a minha alta? Ou vou ter de fugir daqui?
− Claro, se bem que não é muito acon… − A Dr.ª Sandra Bellucci voltava à mesma conversa da treta.
− Ótimo, eu quero assinar o termo de alta agora. – Kimberly foi rude ao interromper a Dr.ª Sandra Bellucci mais uma vez. Não se reconhecia naqueles comportamentos, mas sabia que só lhe fariam exames e mais exames para concluir que “foi um azar".

Thursday, 08:23 p.m. Arizona Police, Arizona
− Viste a Kim? – Adam questionou Kennedy da porta do escritório.
− E bater à porta? – Kennedy parou de olhar para um mapa qualquer que tinha sobre a mesa.
− Deixa-te de graçolas. Viste-a ou não? – Adam não estava para piadas e voltava ao velho Adam.
− Desculpa, Sr. Não-Me-Toques. Como queiras que saiba dela se nem tu que és o marido sabes? – Kennedy ripostou.
Adam limitou-se a rolar os olhos e a bufar impaciente. Estava farto de procurar a esposa em tudo o que era canto, vasculhou o prédio todo e perguntara a bastantes pessoas e nada.
O dia não jogava a seu favor. O café, que não fora trazido por Kimberly e partilhado com ela, estava frio e doce; algumas testemunhas recusaram-se a falar por medo e alguns dos suspeitos tiraram-no do sério e agora não encontrava Kimberly em lugar nenhum.
− Ainda bem que a encontro! – Adam tirou os olhos do chão e avistou Lucille a dois passos.
− O que se passou?
− A Kimberly? Viu-a?
− Possivelmente, mais do que o marido. – Era uma indireta e ele sabia disso. – Talvez fosse tempo de acompanhares mais a tua esposa.
− Calma aí, mas que merda lhe deu? – Estava sem paciência para aquilo.
− O problema foste sempre tu, a vossa paixão. Amor entre colegas é ultrajante, pronto!
− Desculpe? Como assim? Eu não estou a entender o motivo de tanto ódio de um momento para o outro.
− Sabes, o meu ex-marido era meu colega de trabalho muito antes de eu chegar a esta posição. Tudo parecia muito bem até ao momento em que ele não aguentou a minha perda para o álcool e depressão.    − Lucille deixou de encarar Adam. – Olly era o nome do filho da minha irmã, Adele, e do Stone.
A expressão de Adam abriu-se em surpresa, ele não sabia de nada do passado de Luke Stone.
− Acabei por perder o Olly e a minha irmã e ganhei o rancor do meu ex-cunhado, que me culpa até hoje e com razão. Se eu tivesse arriscado, ainda seriamos uma família. – Lucille mordia o lábio levemente e limpava as lágrimas com as pontas dos dedos. – Relações amorosas entre colegas são destrutivas.
− Não vejo o porquê da comparação, nós…
− Ela está com depressão tal como eu tive…
Ele tinha descoberto. Descoberto da pior maneira possível. A sua esposa estava com depressão, a mulher com a qual partilhava cama e vida.
Puxou a cadeira e sentou-se, nada do que lhe fora dito podia ser verdade: Lucille e Stone foram da mesma família, o seu ódio por relações amorosas entre colegas provinha disso e a sua Kimberly estava com depressão?
− Eu sei que me está a provocar…
− Será que tu não vês a tristeza nos olhos dela?
Kimberly chegou a casa passado quase uma meia hora que mais parecia ter sido um dia. Apercebeu-se que demoraram com intenção de que ela mudasse de ideias sobre assinar o seu termo de alta.
Desde que a sua vida resumira a entrar em casa e seguir para o sofá ou dormir na cama até ao dia seguinte, perdia boa parte do tempo para fazer uma refeição digna e isso refletira-se na sua saúde.
Estava bastante cansada para esperar Adam e perguntar-lhe se tinha uma amante, que iniciaria certamente uma discussão. Subiu para o seu quarto para poder “desmaiar”.
Felizmente, não sentia dores por conta dos medicamentos que tomara ainda no hospital. Seria bom poder revirar-se na cama sem gemer de dores insanas como da última vez.
O espaço do quarto vinha a assustá-la cada vez mais, sentia que o silêncio lhe sussurrava aos ouvidos palavras que não conseguia decifrar. Tentava oprimir aqueles pensamentos e medos, gostava de pensar que em breve nada daquilo faria parte da sua vida.
Aconchegou-se nos lençóis de seda egípcia, que apesar de Adam não gostar muito, tentava fazer um esforço para não se importava por Kimberly. Era muito atencioso da sua parte.
Embora não lhe valesse de nada opor-se, o lado para o qual se aconchegara tinha o cheiro do seu perfume. Aquilo mantinha-a à alerta. Uma cronologia de lembranças passava diante dos seus olhos das quais resultavam lágrimas.
Como gostaria de voltar no tempo e não se apaixonar por ele…
O arrependimento já não lhe valia.

Thursday, 09:08 p.m. Arizona
Adam estava arrasado e desiludido consigo mesmo. Estava-se a transformar em tudo o que prometera não ser. Para piorar, quebrara todas as promessas com Kimberly.
O trânsito estava uma loucura, estava parado perto do local onde se beijaram pela primeira vez. Obrigada pela lembrança, destino! Passou os dedos pela face, a sua vida estava numa loucura a qual ele já não controlava.
Como podia ele confessar que a amava se não notara que estava com depressão?
Suspirou.

Kimberly rolara e rolava na cama, focada em adormecer e só acordar no dia seguinte. Por algum motivo insignificante, o seu cérebro obrigava a manter-se acordada.
A sua mãe chegara enquanto ainda estava no hospital. Passou pelo quarto onde dormia, beijou-lhe a face, aconchegou-lhe os lençóis e correu as cortinas para que a claridade não atrapalhasse o seu sono. Nem a sua mãe sabia do seu labirinto.
Ao pensar que a mãe dormia sozinha e, agora viúva, entristecia-a. A mãe perdeu o amor da sua vida e lutava contra aquela dor, enquanto Kimberly estava com depressão desde que o seu casamento começara a ruir.
Fraca e inútil.
Não vales nada.
A sua mente gritava com ela.
Sentou-se na cama e abanou a cabeça para afastar os pensamentos que tinha contra si mesma, cogitando a ideia de ligar a Matthew. Vagarosamente, as lágrimas desciam num silêncio absorto.
Com as pontas dos dedos colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ouviu o barulho, ou pelo menos parecia, da porta abrir.
Com uma certa relutância, moveu os olhos para a porta e avistou aquela figura masculina. Uma figura estagnada e surpreendida de alguma maneira.
Kimberly não se moveu e baixou o olhar para as suas mãos.
Adam ganhou coragem e abandonou a sua posição na porta. Sentou-se na cama perto da esposa, muito mais perto que usualmente, faltando pouco centímetros para que as suas peles se encostassem.
Não disseram nada em segundos. Adam afastou o cabelo que tapava o rosto da esposa e acaricio da face inchada da esposa.
− O que nos aconteceu? – Adam perguntou-lhe num sussurro assustado.
− Eu não sei… − Com voz de choro, Kimberly sussurrou-lhe. Levou as mãos ao rosto e chorava ruidosamente.
Envolveu-a nos seus braços que seriam melhores que quais queres palavras Sentiu Kimberly agarrar-se ao seu corpo como se precisasse daquilo.
Adam não conseguia distinguir se chorava pelo rumo do seu casamento se pela morte do seu pai ou, até, por ambos. Porém tinha a certeza de uma coisa, nada disto aconteceria se ele fosse um homem melhor.



Sixteen Chapter
My Heart Stills Broken
Publicado em: 13/05/2018


If I were a boy
I think I could understand
How it feels to love a girl
I swear I'd be a better man
I'd listen to her
Cause I know how it hurts
When you lose the one you wanted
Cause he's taken you for granted
And everything you had got destroyed
− Beyoncé in If I Were a Boy

A dor tende a dissipar-se com o tempo, quando este não vem acompanhado de memórias o tempo todo. Pouco a pouco, Kimberly, a mãe e o irmão iam aprendendo a conviver com ela apesar de todas as recaídas emocionais.
Não era fácil intender aquele mecanismo todo, não era fácil obrigarem-se a deixar as doces lembranças e viverem no presente sem ele.
Vários dias tinham-se passado desde que fora o funeral e tudo parecia não passar de um sonho terrível. Parece horrível ouvir isto, mas a existência do seu pai começava a desaparecer no tempo.
Também, faziam alguns dias desde que Adam descobrira o segredo da sua própria esposa. Mais uma vez, sentia-se incapaz, um verdadeiro adolescente para conversar e oferecer algum tipo apoio a Kimberly. Covarde…
Começou a prestar atenção na sua rotina e apercebeu-se que tinha dias em que ela pedia uma tarde de folga. Admirava-a, admirava-a do fundo do coração por conseguir conter todas as suas dores, apesar de temer que escondesse outras tantas.
Ultimamente, fazia questão de a acompanhar até ao trabalho quando entrassem à mesma hora e várias questões se formulavam nas cabeças despreocupadas dos seus colegas. Com toda a certeza, Kennedy gostava de ter informações em concreto.
− Adam? – Kennedy entrava no escritório que compartilhava com Adam com documentos em mãos.
Atrapalhado, por estar a “espiar” o horário roubado da secretária de Kimberly, respondeu tenuemente: − Diz.
− O divórcio continua de pé? – Kennedy permitiu-se olhar por cima dos documentos com medo que Adam lhe atirasse com uma caneca ou algo do género. Não seria a primeira vez…
Aquela pergunta corrompeu as estruturas de Adam. Devido a tantas emoções, esqueceu-se que em breve o seu divórcio seria oficial. Justo agora que lentamente voltava a retomar o seu casamento.
− Bem… − Coçou a nuca na busca de uma desculpa plausível. – Têm acontecido tantas coisas ultimamente…
Kennedy riu-se: − Já nem fazias caso disso. – Interrompeu-o. – Acho que esta brincadeira vos faz muito mal, nota-se que foram decisões tomadas de cabeça quente.
− Não é bem…
− Esquece! Tratem de falar entre vocês e não me metam nisso. – Kennedy assumiu uma posição séria e não deixou que o melhor amigo acaba-se a linha de raciocínio dos seus argumentos.
Ficava indeciso se o divórcio seria alguma coisa que pudesse trazer benefícios para ambas as partes, embora tivesse a certeza que o seu futuro se resumisse a andar de bar em bar com uma garrafa na mão e conhecido por todos os donos e donas de bares.
Olhou para debaixo da secretária e encarou a caixa bege. Há uns tempos, descobriu que Kimberly escrevia pequenos textos em prosa e não podia ficar indiferente, estava tão distante da sua esposa que não sabia o que ela apreciava.
Com medo de ser apanhado a ler os seus textos, alguns em folhas amassadas, debruçado sobre a cama, fotocopiou tudo e colocou num local em segurança onde Kimberly não descobrisse, tão cedo.
Era impressionante e chocante o facto de Kimberly ter uma grande sensibilidade com as palavras, capaz de as fazer soar como uma reflexão sobre o amor, a tragédia e a dor. Sentia que muitos dos textos tinham provindo depois de alguma discussão entre os dois.

“Perante o olhar dele, dava-me como derrotada. Derrotada sem nunca ter concordado em participar desta guerra.
Gosto de admitir que ele provoca em mim um efeito com o seu nome. Que toda eu ajo como uma adolescente que fica submissa ao seu primeiro amor.
Isto levará a algo maior e melhor? Ou será apenas aquelas experiências que devemos esquecer da existência?”

Sem dar conta, limpava a face com as costas da mão. Engraçado como tudo o que começa, um dia termina.
Sentiu um aperto maior no coração, maior que aquele que sentiu quando descobriu que não podia voar ou que nunca poderia ser um peixe. Tudo isto se resumia à desilusão causada ao descobrir que as suas maiores ambições não corriam a ser favor.
Pegou numa folha pautada e começou a escrever.

Wednesday, 11:37 a.m. Stalteri’s House, Arizona
Kimberly acordara, pela primeira vez em quase três anos, bem consigo mesma. Sentia-se leve, mas em alerta para o que pudesse por aí surgir.
Era o seu dia de folga e podia aconchegar-se à vontade na cama, ficar a olhar para as paredes brancas do quarto e tatear a cama para saber se ele ainda lá estava.
Não lhe impressionava ele já não estar lá devido às horas, mas ficava surpreendida por causa do seu lado na cama estar desarrumado. Ao contrário desta vez, Adam tinha sempre o cuidado de deixar o seu lado arrumado para que Kimberly não tivesse de fazer tudo.
O seu lado desarrumado indicava que ele estava ansioso demais ao ponto de esquecer partes do seu quotidiano.

Saturday, 06:46 a.m. Stalteri’s House, Arizona
Kimberly dormia serena, em paz total. Não se tinha ainda habituado a conviver com os olhos profundos e tristes de Samantha nem com os olhares de pena de certos colegas.
Sentia um peso na consciência por ainda não lhe ter dito sobre o telefonema do seu advogado, Louis Renée, a avisar sobre a data para assinarem os papéis do divórcio. Não queria ir com aquilo para a frente.
 Do bolso do casaco tirou uma carta envolvida num envelope improvisado e encarou o nome “Kimberly” escrito na parte da frente. Escrevera com tanto cuidado e amor o seu nome que lhe lembrava a primeira vez que lhe escrevera em adolescente. “Tolo, imaturo e inconsequente” tal e qual como ela se apaixonou por ele, agora abominava-o.
Respirou fundo e pousou a carta no seu lugar na cama, com certeza que Kimberly a veria quando se levantasse.
Antes de passar pela porta, vislumbrou o corpo adormecido da esposa e como os seus lábios gritavam para serem  beijados e o seu coração amado.
Sem lhe passar pela cabeça, quando fechou a porta, Kimberly mexeu-se na cama fazendo a carta cair no chão.

Saturday, 02:09 p.m. Stalteri’s House, Arizona
− Kim! Vou sair! – Samantha avisou aos gritos da porta principal.
− Ok! Tem cuidado, mamã! – Kimberly gritou da sala-de-estar, onde procurava um livro de romance que carregava sempre consigo a fim de evitar passar uma seca monumental em algum lugar.
Ouviu a porta ser fechada. Pousou a mala no sofá e bufou de impaciência por prever que se atrasaria.
Entre pensamentos, entrou no seu quarto. Se não encontrasse o livro, iria embora assim mesmo.
− Aqui estás! – Kimberly desabafou aliviada ao encontrar o livro na mesinha de cabeceira.
Deu meia volta à cama, para se certificar que não deixara mais nada até sentir algo debaixo dos seus pés. Baixou-se e apanhou o que lhe parecia ser uma carta.
Uma carta? Debaixo da cama?! A curiosidade aumentou quando leu o seu nome escrito na letra que parecia pertencer a Adam

Para a minha esposa, ou ex-esposa, Kimberly
Talvez, seja esta a quarta vez que te tento escrever, escrever o mesmo de uma maneira diferente.
Talvez seja em vão, porque, pode ser de uma maneira diferente mas contêm as mesmas palavras e significados.
Penso que talvez te estejas a rir, neste momento, por ter uma carta de um covarde nas mãos, acho justo achares isso de mim, porque eu também acho.
A minha vida já não faz sentido desde o final do ano passado, quando eu vi o teu sorriso desaparecer, a tua alegria desaparecer e quando eu vi que não havia nada que te animasse.
Eu tentei, e deu resultado, concentrei-me no meu trabalho para te dar espaço, porque de cada vez que me aproximava, tu simplesmente te afastavas, como se isso não tivesse sentido.
O único momento no qual te podia abraçar era quando estavas inquieta na esperança vazia de adormecer entre lágrimas. Eu podia abraçar-te e sentir o teu perfume que te tinha oferecido quando completamos um ano de casados, lembro-me perfeitamente que era o perfume que tu “namoriscavas” sempre que passavas em frente à perfumaria da rua em frente à nossa casa.
Por falar em presentes de aniversário de casamento, lembraste da dança em comemoração aos nossos dois anos de casamento? Posso dizer, seguramente, os nossos aniversários de casamento eram muito melhores que qualquer outro dia do ano.
Porém , acho que só teremos recordações de dois aniversários e não de muitos, tal como juramos na noite do nosso primeiro aniversário. Acho que falhamos juntos nisto.
Eu não queria de todo este divórcio, eu não queria de maneira nenhuma. Eu pedi o divórcio, porque pensava que eu era o problema, pensava que não me amavas mais, que poderia haver alguém que fizesse aquilo que eu não fazia há muito.
O que mais me irritava era saber o tipo de mulher que eu tinha ao meu lado. Uma mulher, que os meus colegas invejavam, eles, literalmente, babavam-se quando vinhas ter comigo. Quando souberam que já tínhamos divórcio marcado, houveram bastantes olhos arregalados, avisos sobre o quão burro e idiota estava a ser. Para não falar que o meu humor estava pior do que aquilo que já era, havia apenas um eu cheio de pessimismo e sarcasmo.
Só que eu não te posso obrigar a isto, a ficar comigo como se nada se passasse. Não estou a escrever para me perdoares, para te prender a mim com palavras “bonitas”, mas acho que esta carta é a forma de te esclarecer e pensar se queremos mesmo isto.


Com Amor:
         Adam Stalteri

Tinha as mãos a tremer assim que terminou de ler a carta.
Ele tinha-lhe escrito uma carta.
Ele ainda a amava.
Limpou a lágrima solitária que rolava face abaixo. Apenas com uma carta, Adam conseguia mexer com todo o seu psicológico.
Levou a carta ao encontro do seu peito, reconfortava-se com as suas palavras. Estava zonza, mas contente por ainda haver uma esperança para eles.
Os seus batimentos cardíacos ameaçavam disparar, não a incomodava essa situação.
O seu telemóvel começou a tocar no bolso de trás das suas calças, sobressaltando-a. Levou a mão ao bolso de trás das calças e sorriu como uma tola ao ler no ecrã “Adam”. Aguenta coração!

− Estou? Adam?! – A sua voz denunciava toda a sua alegria naquele momento.
− Não, Kimberly. É o Kennedy. – A voz de Kennedy denunciava a sua ansiedade e nervosidade.
 − Kennedy? – Kimberly estranhou. – Passou-se alguma…
− Sim, Kim. Eu não te vou enrolar, o Adam levou um tiro no peito. – Kennedy espetou com a verdade na cara de Kimberly. – Nós não temos a certeza se ele ainda estava vivo.
Kimberly estava em choque, deixando as lágrimas soltarem-se sem grande esforço e com uma expressão em pânico. Não teve qualquer tipo de reação, não conseguia fazê-lo devido ao pânico.
− Kim?! – Kennedy gritou do outro lado antes de Kimberly deixar cair o telemóvel e começar a gritar em desespero.


Seventeen Chapter
Please, Stay With Me!
Publicado em: 28/06/2018


Up at night I'm awake cause it haunts me
That I never got to say what I wanted
Oh my God, oh my God
I'm not the same as I was with you
I would jump out my skin just to get you
Oh my God, oh my God
− Frenship & Emily Warren in Capsize
           
Kimberly deixou escorregar o telemóvel tal como a lágrima solitária. Deparava-se com a pior mistura, doce e azedo, ácido, doloroso.
Que mal teria feito ao ponto de a sua felicidade durar minutos, segundos? Toda a lufada de ar, a renovação de esperanças, que tinha obtido com a carta de Adam, tinham sido arrastadas para longe por uma simples chamada.
O seu marido estava entre a vida e a morte? Como assim?
Um tiro no peito?
Kimberly beliscou-se tão forte ao ponto de deixar uma bela marca que anunciava verter pontinhos de sangue. Doera de uma maneira prazerosa, anunciando-lhe que estava acordada, a punição por sofrer de amores canalizou-se naquele beliscão.
Oh não! Pára!

− Kim? Estás aí? – Kennedy gritava. Kimberly podia imaginar que quem estivesse perto dele o olhasse de maneira esquisita a suplicar por silêncio. – Por favor, não faças nenhuma asneira. – Desligou sabendo que Kimberly não lhe iria conseguir responder.

Assim que teve a perceção de que Kennedy desligara, gritou tanto quanto os seus pulmões permitiram, não sendo o suficiente para colocar toda a sua angústia para fora do peito. Passou as mãos pelo cabelo, o que o fez ficar desgrenhado, anunciando o seu caos interior.
Sem pensar muito, pegou na carteira somente, deixou um bilhete à mãe e saiu de casa.

Saturday, 04:23 p.m. Hospital, Arizona
Kimberly devia estar no hospital há cerca de uma hora. Há uma hora que a mandaram esperar friamente, sem informações, nada!
Desculpe! Sabe-me dizer alguma coisa sobre um paciente, Adam Stalteri? Kimberly levantou-se tão rapidamente que jurava que viu o médico à sua frente rodopiar.
Desculpe, mas terá de aguardar pacientemente.
Desculpe?! Eu estou farta de esperar por merda nenhuma! Kimberly elevou o tom de voz fazendo com que muitos prestassem atenção às suas palavras.
Pela primeira vez que entrara no hospital viu a atenção do médico dirigir-se inteiramente à sua pessoa. O seu olhar carregava agora medo perante uma mulher magoada e desesperada.
O seu marido está a ser operado por um dos meus colegas, pode demorar horrores dependendo de como tudo correr. São as únicas coisas que lhe posso dizer. O médico, o qual não teve paciência em ler o nome no crachá, forçou um meio sorriso enternecido.
Kimberly largou a manga da bata do médico e este afastou-se, movido pela preocupação em ouvir outras pessoas desesperadas como ela. É justo. Não podia ser egoísta ao ponto de não intender que havia mais pessoas desesperadas para serem atendidas ou respondidas.
Voltou a sentar-se na cadeira e enterrou-se na sua dor, era possível doer-lhe o rosto de tanto chorar? Encolheu-se e as suas mãos abraçaram os seus braços enquanto as suas unhas se cravavam na pele.
Odiava a sua vida
Odiava o facto de a sua vida se resumir ao facto de que tudo o que começa a ser positivo passava rapidamente a ser negativo ou era-lhe tirado.
O mesmo hospital em que o pai morreu dava-lhe um mau presságio. Não, não, não! Se Adam lhe fosse tirado agora, iria-se culpar para sempre de terem agido como crianças.
Encostou a cabeça à máquina de venda automática, precisava tanto descansar. O que quer que acontecesse, ela iria saber.

Saturday, 05:43 p.m. Hospital, Arizona
As macas de hospital podiam (e deviam) ser trocadas. Aquela chiadeira insuportável acordou Kimberly.
Jurava que dormira por horas, mas nem a porra de uma informaçãozinha irrelevante sobre Adam. O passar das horas só lhe fazia pior, uma vez que a ansiedade e a raiva aumentavam e o seu corpo dava sinais que estava na última.
Sentia nas pernas, como lhe gostava de chamar, formigueiro. Diferente da última vez, levantou-se sem grandes pressas, ajeitou a roupa um pouco amassada e decidiu que esticar as pernas lhe faria bem.
Da última vez que lá estivera, não reparara no comprimento, cor ou textura das paredes dos corredores daquele hospital. Estava a sentir uma sensação nova e bem estranha, a sua visão das coisas estava bastante modificada. Enxergava as coisas num tom acastanhado e turvo.
Sente-se bem, menina? Uma enfermeira, na qual só conseguiu reparar no cabelo preto curto, aproximou-se e colocou-lhe uma mão no ombro.
Sim…
Era a última coisa da qual se lembrava antes de apagar.

Saturday, 06:57 p.m. Hospital, Arizona
Lentamente os olhos de Kimberly abriram, tentando habituar-se à claridade proporcionada pelo quarto extremamente branco e irreconhecível.
Seria um sonho e estaria tudo bem?
Ainda bem que acordou, menina! Era a mesma enfermeira, era a última pessoa que se lembrava de ter visto antes de apagar. A menina já não devia comer há horas! Estava bastante fraca.
Kimberly não se pronunciou. Seguiu o olhar pelo braço e viu uma agulha, possivelmente soro, nele espetado. Estranhamente, sentia-se melhor e pronta para ir embora.
Não faça nada e não se mexa, sim? Linda, como se podia ler, falava com bastante carinho. Se sentir ou acontecer alguma coisa, limite-se a tocar neste botão. Linda apontou para cima da cama.
Kimberly acenou um sim com a cabeça. Linda sorriu-lhe e pediu licença para sair.
Com muita pena, não iria seguir as regras da enfermeira. Planeava tirar aquela agulha que a agoniava e iria procurar alguém que lhe desse informações sobre Adam, mas rapidamente mudou a alínea de tirar a agulha.
Com relutância, pousou os pés no chão e arrastou o suporte com o soro. Ia ganhando alguma força à medida que caminhava.
Doutor? Kimberly chamou e o mesmo médico olhou para trás para a olhar. O meu marido?
Sr.ª Kimberly? Pelo seu estado e pelo que soube, não deveria estar aqui.
Kimberly não se opôs, limitando-se a olhá-lo à espera de explicações sobre Adam.
Muito bem… Sentiu-se derrotado pela teimosia de Kimberly. Ele já saiu da sala das operações e correu tudo bem. O meu colega informou-me que ele deverá acordar em breve.
Oh meu Deus! Que bom! O alívio tomou conta do coração de Kimberly. Posso vê-lo?
Eu não deveria deixar, além de não ser o médico operador. Mas tudo bem, irei ceder desta vez. Irei informar o meu colega e a enfermeira Linda, também.
Muito obrigada! Kimberly nunca ficara tão feliz ao falar com um médico, esta era a primeira vez que isso acontecia.
Espreitou pela janelinha da porta e entrou no quarto. Fechou a porta atrás de si e parou justamente ali, a observar Adam.
Adam estava sereno, apesar de ter alguns arranhões e hematomas espalhados pela face. A sua vontade era de se ajoelhar perto da cama e cuidar dos ferimentos, tal como fazia quando ele jogava futebol no liceu.
Pouco a pouco, ia-se aproximando da cama com o suporte do soro a chiar um pouco. Admitia que estava com um pouco de medo de a carta e aquele momento a estarem a iludir e não fossem mudar nada no seu relacionamento.
Chegando perto da cama, ajoelhou-se e começou a brincar com o cabelo de Adam. Sentia a sua respiração tão calma.
Espero que seja mesmo verdade o que dizem sobre as pessoas ouvirem mesmo estando desacordadas. Riu das próprias palavras para não chorar. – Só gostava de te puder dizer que li a tua carta. Todos os meus sentimentos por ti, desde os meus catorze anos, não mudaram em nada. Não sei se serve de alguma coisa, se irá mudar alguma coisa entre nós.
Kimberly começava a trocar as palavras por meias palavras engolidas pelo choro.
− Por favor, nunca mais me faças isto. Amo-te demasiado para não sentir nada sobre o que de mal te possa acontecer… − Kimberly não tinha muito mais a dizer.
Uma das suas mãos segurava a de Adam e a outra acariciava-lhe a face.
 − Kim… eu ainda estou aqui.



Eighteenth Chapter

Always With You

Publicado em: 21/07/2018



I knew I loved you then
But you'd never know
'Cause I played it cool when I was scared of letting go
I know I needed you
But I never showed
But I wanna stay with you until we're grey and old
Just say you won't let go
Just say you won't let go
− James Arthur in Say You Won't Let Go



Kimberly jurava que começava a delirar e a duvidar da validade daquele soro que ainda corria pela sua corrente sanguínea. Já começava, também, a colocar a hipótese de que Adam não se safasse ou que tudo continuaria igual, divorciados.

Kim? Está tudo bem, sim? Olha para mim, meu amor. – A voz de Adam era arrastada e emitida com imenso esforço, devido ao efeito da anestesia.

− Adam? – Kimberly olhou para cima com dificuldade por causa das lágrimas. – Por favor, nunca mais me faças isto… − Kimberly ordenava-lhe com a voz mais apavorada que ele conhecia.

Kimberly apertava com força a sua mão enquanto as suas lágrimas lhe hidratavam a pele. Toda aquela situação causava nele uma agonia sem fim, fazia a sua esposa chorar mais uma vez.


            Adam retirou com a pouca força que conseguiu encontrar em si, a mão de debaixo de Kimberly e levantou-lhe o rosto vermelho e inchado.

− Kim, desculpa… − Adam chorava agora, por finalmente deixar o seu lado covarde ir junto com as lágrimas.

− Porquê?

− Por ter sido o teu maior motivo para chorares, por fazer exatamente o contrário que um Homem que ama faria. Perder-te era o meu maior medo, mas tudo o que eu fazia só contribuía para te perder.

− Ambos erramos. – Kimberly tentava controlar-se para não soluçar. – Eu escondi coisas de ti, coisas que também me fizeram chorar.

Adam ficou confuso. Não fazia ideia do que Kimberly lhe poderia ter escondido ao ponto de a deixar completamente arrasada.

Traição?

Não! Kimberly nunca o trairia, apesar de que ele merecia ver e sentir que a perdera para lhe dar valor.

Só te peço que não fiques chateado ou magoado comigo, apenas compreensão. Kimberly limpou uma lágrima e sentou-se na beirada da cama.

Estás a assustar-me, Kim…

Os últimos meses foram uma montanha-russa de sentimentos… para não falar que discutíamos imenso, mas a nossa maneira de fazer as pazes era exclusivamente à nossa maneira.

Adam engoliu em seco. Pedira o divórcio, mas continuava a amar a sua esposa quando já não aguentava vê-la triste e não permitia que ela se entregasse a outro que não ele. Egoísta da sua parte.

Eu passei a sentir-me um pouco indisposta, cansada sem motivo, triste comigo e desiludida pelas coisas não serem como eu desejava. Desde do nosso divórcio até à morte do meu pai.

Kimberly começou a chorar copiosamente sem conseguir acabar a sua explicação.

Eu sei, Kim… Soube da pior maneira que a mulher com quem partilhava cama e vida sofre com depressão. Nem sequer para reparar como te sentias eu fui capaz… Adam tinha a atenção e espanto de Kimberly sobre si.

Mas há mais. Kimberly afastou o olhar, sentia que se o fizesse não conseguiria dizer mais nada. Eu tive três abortos.

Adam fechou os olhos e uma lágrima desceu. O seu Mundo tinha parado com apenas quatro palavras que lhe provocaram um misto de emoções. Seria pai.

Kimberly tomou o seu gesto como um sinal de desilusão. Todas as esperanças de que o seu casamento seria salvo foram pelo cano abaixo. O que estaria a pensar? Que fora propositadamente?

Tu estiveste grávida de um filho nosso? Três vezes?

Sentindo-se incapaz de o olhar nos olhos, limitou-se a abanar a cabeça positivamente e a deixar as lágrimas rolarem. Adam retirou a sua mão e, aos poucos, o calor no local em que estivera pousada desaparecia.

Abriu com medo os olhos e viu que ele chorava como nunca presenciara e tinha as mãos na face. Chorava como um alguém que fora magoado pela mais afiada faca. Era agoniante ver que ele se culpava.

Eu devia ter desconfiado que o sangue na maçaneta naquele dia não era normal. Adam pronunciou-se. Eu devia ter insistido contigo, Kimberly! Ah, idiota!

Adam sentia-se mal não só porque Kimberly tinha abortado três vezes um filho deles, mas também por se tratar da primeira gravidez da sua esposa. Algo que devia ser visto como magnífico, um momento de glória foi transformado em momento nenhum trágico.

− Não chores, Adam… − Kimberly abraçou-o cuidadosamente, mantendo uma distância segura. – Eu insisti em lidar com tudo sozinha, ao invés de te contar.

Adam tentava abraçar a esposa sem exercer esforço ou contacto. Chorava e sentia-se leve, pronto a abraçar as dificuldades e tudo mais que adviria dali.

− Não… eu sei que deveria ter sido um Homem melhor. – Adam acariciou-lhe os cabelos e ao sentir algo que parecia estar agarrado no braço da esposa, percorreu a extensão de um milimétrico tubo. Soro. – Está mesmo tudo bem?

− Sim, foi só uma indisposição tonta. – Kimberly riu-se para aliviar a tensão. − Tenho de telefonar à minha mãe. Ela deve estar louca à minha procura.

− Fica só mais cinco minutos.


Kimberly aproveitou que a entrada de Gloria e Louis no quarto para telefonar à mãe. Vinham aos prantos, mais brancos que papel e, como o filho, chocados por Kimberly também estar a soro.

Já estava com medo de que a sua mãe atendesse aos gritos a dizer que já tinha corrido a polícia, os hospitais, as clínicas,…com medo que tivesse ocorrido alguma tragédia com a sua filha.

Ao explicar à mãe onde estava e o que tinha acontecido, Samantha gritava ainda mais preocupada e que estava a caminho e blá blá blá.

Mãe, não!”, Kimberly ordenou-lhe que se acalmasse e que não era o momento adequado para se falarem. Para já preferia aproveitar um pouco e ficar com o seu marido.



Two weeks later

Friday, 09:27 a.m. Hospital, Arizona

Apesar de todos os exames feitos da operação indicarem que Adam se estava a recuperar bem, os médicos acharam por bem que ficasse mais duas semanas. Tratava-se de uma operação da retirada de uma bala no peito.
− Pronto para voltar para casa? – Kimberly ajudava Adam a vestir-se para finalmente deixarem aquele quarto branco com cheiro a desinfetante.

− Há muito tempo que estou preparado. – Adam beijou-a.
− Adam, tu sabes que não se tratou de uma inflamação e que com meia dúzia de antibióticos passa. – Kimberly olhou-o séria. – Ah, e tem cuidado com o meu irmão.
− Eu sei, eu sei… e não o julgo por ele me odiar…
− Não… − Kimberly interrompeu-o. – Eu já te perdoei e ele tem de se limitar a engolir o rancor dele.
− Ok, assunto encerrado. – Adam sorriu-lhe e deu-lhe um selinho, novamente.
Queria abraçá-la como fazia, mas ainda tinha limitações que o obrigavam a apenas olhá-la.



Friday, 09:41 a.m. Stalteri’s House, Arizona

− Já tinha saudades de entrar nesta casa acompanhado contigo. – Adam sorriu e beijou-lhe o topo da cabeça.
Kimberly retribuiu o sorriso. Pousou as coisas de Adam no chão e destrancou a porta.
− Eles chegaram! – Samantha gritou para a sala enquanto mexia o conteúdo de uma bacia.
Os pais e os irmãos de ambos estavam lá tal como os seus colegas de equipa. Parecia que todos tiveram bastante trabalho para engendrar tudo nas costas dos dois em questão de pouquíssimas horas.
Era visível que estavam todos felizes por ver Adam agora em casa, diferente de quando o visitaram no hospital cheio de agulhas. Exceto Mark.
Mark olhava-o com indiferença. Uma mão nos bolsos e a outra a segurar a bebida. Adam gelou e a sua garganta parecia formar um nó.
− Está tudo bem? – Kimberly perguntou agarrada ao seu braço, sabendo perfeitamente do que se tratava.
Adam realmente receava Mark como nunca, magoara a irmã daquele que considerava um dos seus melhores amigos.
− Mark, não vens cumprimentar as pessoas? – A jeito de desfazer o ambiente pesado, Kimberly repreendeu o irmão e não só. Detestava vê-los costas voltadas.
Mark aproximou-se em meios de bufos e abraçou Adam.
− É bom saber que estás bem, não gostaria de ver a minha irmã sofrer. – Mark deu um pequeno sorriso para descontrair Adam. – Só tem cuidado para não a fazeres sofrer.
Adam forçou um sorriso assim que a indireta atingiu a sua consciência.
− Não fiques assim! Não te vou bater, Stalteri! – Mark gargalhou e puxou o cunhado para um abraço com cuidado. – Ou pelo menos, por enquanto.
Apesar de se tratar de uma brincadeira, Kimberly olhou com desaprovação o irmão.


Friday, 11:23 p.m. Stalteri’s House, Arizona
O dia tinha sido de grande agitação. O almoço e o jantar em família (e amigos) pelo regresso de Adam fora bom para esquecer todas as coisas más que os últimos meses tinham causado.
Samantha continuava a viver com eles. Insistia que voltaria para a sua casa, mas não havia necessidade ficar sozinha com as lembranças que a casa possuía. Ainda que Samantha se tentasse enganar e a sorrir no dia-a-dia, Kimberly e Adam sabiam que ela ainda sofria muito com a perda do marido.
Era uma ferida que estava a cicatrizar, embora nunca fosse cicatrizar completamente. Parte daquela mulher tinha ido embora quando o coração do seu marido parou. Pelo lado positivo, teve a sorte de ter sido amada e de ter amado alguém.
Adam sentia-se nervoso debaixo do seu próprio teto e perto da sua família. O olhar de Samantha ainda o rondava com raiva e, sobretudo, desilusão pelo menino que conhecia desde pré-adolescente ter magoado a sua filha.
Observava atentamente cada gesto de Adam sob pressão. Kimberly sentindo que a mãe o observava com o seu olhar de mãe-galinha, dava a mão a Adam e apertava-a transmitindo-lhe confiança.

− Acho que se a tua mãe pudesse, ela esganava-me. – Adam lia um livro sentado na cama à espera de Kimberly.
− Por que dizes isso? – Kimberly estava de costas para ele a remexer numa gaveta.
− Não é óbvio? Ela tinha, literalmente, os olhos pregados em mim. – Pousou o livro relembrando a cena.
Kimberly riu-se suavemente e virou-se para trás. Há bastante tempo que não falavam normalmente, que partilhavam o quarto como um casal comum. Estava tudo tão bem que parecia uma alucinação.
− Dá-lhe tempo, Owen. – Kimberly sorriu-lhe e focou a sua atenção, novamente, na gaveta.
Adam retribuiu o sorriso e limitou-se a observar a figura da mulher que tinha à sua frente. Incrivelmente, Kimberly suportara as maiores dores e continuava disposta a amá-lo.
− Kim? – Chamou a sua atenção. – Eu já te disse o quanto és maravilhosa?
Kimberly corou levemente acompanhado de um sorriso envergonhado. Parecia a Kimberly adolescente, aquela que o fizera apaixonar-se sem mesmo saber o que era amar alguém.




Nineteenth Chapter

I Would Marry You Everyday

Publicado em: 14/08/2018

Hei de procurar esse lugar
Onde amar é tudo e o que faltar eu
Reinvento o mundo para te mostrar
Que esse amor que nos prende
E ao mesmo tempo nos liberta
É maior que nós dois!
Bem maior que nós dois!
− Diogo Piçarra in Breve




Sunday, 07:24 am, Stalteri house, Arizona

Fazia algumas semanas que Adam tinha saído do hospital e as coisas, aos poucos, voltavam ao seu lugar. Era incrível o que meses de frustração tinham causado. A saudade apertava mais que um cinto. Estava na hora de deixar o passado no passado, reconstruir tudo e por em ação o futuro com que eles tanto sonhavam.

Tão cedo, Kim? Podias ficar um pouco mais na cama, comigo. Adam beijou o pescoço de Kimberly por trás, enquanto ela preparava o pequeno-almoço. Aproveitar a folga

Kimberly gargalhou e, rapidamente, Adam com os seus braços envolveu o seu corpo. Voltando a beijá-la, Kimberly gargalhou ainda mais e com mais intensidade.

Estou habituada a acordar cedo. Kimberly virou-se, encarando os olhos ainda pequenos pelo sono. Só dizes isso, porque estás de baixa e, se bem te lembras, tu eras muito pior.

Calúnias… Adam discordou em tom de brincadeira.

Iniciou um beijo calmo, sentindo que Kimberly sorria pelo meio. Todas as suas dores desapareciam em questão de segundos ao vê-la tão serena e divertida. Ela era a sua cura.

Ao parar o beijo por segundos, Kimberly reiniciou o beijo, desta vez, mais desesperado pela longa saudade que tinha acumulado. Adam não a repreendia.

O ambiente não era favorável à saudade que sentia do seu corpo, do seu toque, do seu cheiro… do seu tudo. As suas mãos passeavam sem muita inibição ou calma pelo seu corpo e preparavam-se para levantar a sua camisola.

Não… Kimberly parou a sua mão delicadamente. Ainda precisas de recuperar, mesmo que sintas o contrário. No fundo, também se tentava convencer com o seu próprio argumento.

Mesmo sentindo que era uma desculpa, Adam respeitou-a. Por outro lado, sabia que Kimberly o dizia por pura provocação ao sorrir e lhe dar as costas. Kimberly gostava de jogar.

Sunday, 12:34 a.m., Stalteri House, Arizona

Ao contrário do que costumavam fazer ao domingo, ficar em casa no silêncio deles, agora tinham por hábito almoçar com a família, ou algum familiar ou amigo.

Era relaxante sair de casa e passear pela cidade e almoçar na companhia de alguém próximo. Nem sempre Adam partilhava da mesma opinião quando se referia a almoçar com Mark.

Estar perto de Mark ainda lhe causava arrepios, um nó na garganta, ainda mais quando se tratava de almoçar e conviver com a sua pessoa. Pressentia que o irmão de Kimberly lhe rogava pragas na esperança que se sufocasse com um pedaço de comida, apesar de Kimberly já o ter reconfortado com o contrário.

Mark olhava para Adam como um melhor amigo. Tinha consciência do que se tinha passado, mas tal como a irmã, teve de aprender a deixar o passado no passado e a seguir em frente.

Todos os argumentos continuavam inválidos para Adam, continuava a sentir que a sua alma ameaçava abandonar o corpo a qualquer momento. Especialmente, quando Kimberly abandonava a mesa para ir à casa de banho.

Instalava-se um silêncio perturbador, provocando a Mark uma crise de riso pela noção do que Adam sentia a seu respeito. Tentava amenizar a situação iniciando uma conversa com o cunhado sobre os assuntos banais que tinham tendência a falar antes de se chatearem.

Adam. Agora que a minha irmã não está aqui, eu gostava de te pedir desculpas. Mark mudou o assunto da conversa e aproximou-se do cunhado.

Um arrepio e os suores frios tomaram conta de Adam. Argh!

Tu não tens de pedir desculpas, Mark. Eu fui um otário com a tua irmã.

Concordo. Mark riu. Mas ela voltou a ser velha Kimberly e, mais uma vez, tu também fizeste parte dessa mudança.

Adam sorriu triste ao lembrar-se do que já tinha ocorrido, mas feliz porque foram fortes o suficiente para ultrapassar tudo.

Quer dizer que… já não me queres matar ou assim? Perguntou com receio.

Descansa… Eu não guardo rancor de ti. Apertaram a mão um do outro.

Vejo que não se mataram na minha ausência. Kimberly puxou a cadeira e sentou-se. Já fizeram os pedidos?

Adam e Mark riram.



Sunday, 11:41 p.m., Stalteri House, Arizona

Não fazia ideia de que tinhas tanto jeito com idiomas. Kimberly desfazia-se em gargalhadas após ver o falhanço de Adam a jogar um jogo aleatório sobre línguas.

Desta vez, Adam e Kimberly não se preocuparam com a hora a que chegariam em casa. Entraram em lugares, com bastante nostalgia, que lhes lembrava dos lugares que costumavam fazer parte da sua adolescência em New York.

Eu gostaria de voltar a New York. Adam confessou nostálgico.

New York, para além de ter ficado no mesmo lugar Kimberly despertou uma gargalhada enorme no marido. Deve estar um pouquinho diferente do que te lembras.

Kimberly pousou a mala e o casaco no sofá e, de seguida, encostou-se na mãozeira.

Porquê? Adam aproximou-se e Kimberly abraçou-o pelo pescoço.

New York, a cidade que nunca dorme e, modéstia à parte, que nunca para de crescer. Kimberly deu de ombros. É excelente quando te sentes bem, mas péssima quando sentes um vazio em ti.

Adam olhou-a confuso, questionando-a e implorando-lhe para que se esclarecesse melhor.

É tudo belo quando estás no alto da montanha-russa, tens discotecas, bares para ires com família e amigos, teatros, espetáculos. Só que quando a montanha-russa desce, ficas a admirar e a implorar internamente para estares no topo, entrares em qualquer bar sozinho para te voltares a sentir bem, ficas propenso a pensar em coisas intensas.

Foi por isso que vieste para o Arizona?

Ahm, por isso e pelo blogueiro otário. Kimberly riu ao lembrar-se do motivo do reencontro deles. O Mark falava-me muito bem daqui e o otário morava cá e tal… foi um todo.   

Adam riu-se pela simplicidade com que Kimberly lidava com as coisas, geralmente. Vê-la gargalhar era uma poesia visual que Camões se esquecera de registrar.

Kimberly notou que Adam aproximava-se de si, com um olhar diferente, mas não desconhecido. Passou os dedos pela madeixa de cabelo caída pelo rosto, levando-a para trás do rosto e tirou-lhe a mão de frente do sorriso.

Passa-se alguma coisa? Kimberly recompôs-se. A mão quente de Adam no seu rosto arrepiava-a.

Sim…

Mas… Kimberly parou de sorrir e tentava perceber onde queria chegar.

Quero casar contigo todos os dias. Adam sorriu-lhe, tirando-lhe toda a preocupação que pairava sobre a sua consciência.

Kimberly suspirou de alívio. Sentiu os lábios de Adam tocarem os seus de uma forma suave e apaixonada, que gravidamente, se ia transformando na saudade exasperada de a ter e de a amar.

Rapidamente, deitou-a sobre o sofá, fazendo-a gargalhar contra o seu pescoço. As suas unhas passeavam pelo seu braço e arranhavam os seus ombros.

Queres subir? Adam perguntou-lhe, beijando-lhe o colo do pescoço.



Monday, 07:03 a.m., Stalteri House, Arizona

Deitaram-se muito tarde, depois de se amarem muito escandalosamente. Nunca se cansariam do que os seus corpos eram capazes de fazer juntos.

Ouvir o alarme berrar na mesinha de cabeceira doeu, especialmente em Kimberly que necessitava acordar cedo.

Desliga isso. Adam resmungou entre o peito da esposa.

Tenho de ir trabalhar, lamento. Kimberly dizia com a maior dificuldade, para qual Adam não ajudava ao aconchegar-se mais no seu peito nu.

Não vás, por favor. Abriu os olhos vermelhos pelo cansaço. Só hoje. Ligas para a Lucille e diz-lhe que não te sentes bem. Adam voltou a aconchegar-se e riu.

Não, não posso. Não tenho nem desculpas nem quem me subsitua.

Nomeia o Marco e diz-lhe que estás… com cólicas menstruais. Adam riu ao tentar procurar uma desculpa plausível.

O Marco?! Kimberly ficara mais surpresa por Adam a incentivar a “promover” Marco que com a desculpa que era bastante convincente.

Adam afirmou indiferente com a cabeça, Kimberly sorriu feliz por Adam ter realmente superado os ciúmes. Subiu para o seu peito e depositou um beijo.

Não vais ligar?

Ela pode esperar mais um pouco.




½ Twentieth Chapter

Our Heart Stopped

Publicado em: 22/08/2018


Isn't she lovely?
Isn't she wonderful?
Isn't she precious?
Less than one minute old
I never thought through love we'd be
Making one as lovely as she
But isn't she lovely made from love
− Stevie Wonder in Isn’t She Lovely?



Half and Three Months Later

O tempo não para e desconhece o que é esperar.

Adam e Kimberly davam o seu melhor no que tocava a respeitarem os momentos e as situações, a aprenderem como agir em cada caso. Mesmo que isso implica-se levar Kimberly à loucura pela teimosia do marido.

Garantia sentir-se excelente e pronto para trabalhar tal e igual como antes do pequeno incidente. Todos os exames e consultas que realizava por precaução indicavam que a sua recuperação estava a ir de vento em poupa, ao que os médicos preferiam não facilitar e deixá-lo quieto por mais um mês e meio.

E quem conseguia segurar o Sr. Stalteri?

Kimberly já não aguentava ouvir os queixumes e ver a cara fechada do marido desanimado por se sentir um “merdas” em casa. Lucille ajudou-a a alegrar Adam, com muita relutância permitiu que ele participasse e aconselhasse os colegas nos casos que iam trabalhando. Tudo com uma condição “Sem entrar em campo.

Sem saber do propósito, Adam foi arrastado por Kimberly para ouvir a proposta, bufou bastante por causa da condição “exagerada”, segundo ele. A sua vontade era recusar, mas o sorriso empolgado da esposa convenceu-o.

Kimberly ficou extremamente contente e emocionada, Nos últimos tempos, emocionava-se mais que nunca. Saltou para o seu pescoço e abraçou-o, acordando-o para a realidade, ela fazia de tudo para que o pudesse ver alegre de novo.

Planos para o fim-de-semana? Adam voltava às origens, fazia companhia à esposa no seu cubículo que ela tinha preferência em manter sem razão.

Não, por que teria? Kimberly mexia em papéis, de costas para Adam.

Para celebrarmos o aniversário de quatros de casamento. Adam abraçou-a por trás.

Hum… eu estava a pensar que desta vez podíamos nos limitar a jantar. Só nós os dois. Hoje.

Claro. Adam beijou-lhe a bochecha.



*



Estás pronta? Adam apareceu à porta do quarto. Contemplava a beleza da mulher ao seu lado de vestido colado no corpo, exibindo a sua figura ampulheta. Mordeu o lábio de modo a cessar os pensamentos sujos que a envolviam.

Kimberly terminou de colocar os seus brincos compridos cravados de cristais e verificou o rosto no espelho, sorriu para si mesma como um elogio.

Claro!

Ótimo! Quero que todos saibam que tenho a esposa mais linda do mundo. Adam abraçou a esposa e beijou-lhe os lábios, fazendo-a sorrir timidamente.



Thursday, 08:01 p.m., L’Amore Restaurant, Arizona

− Adam, eu não tenho bem a certeza… não podemos ir a um lugar mais… barato? Kimberly olhou para a ementa e não podia deixar de achar os preços exorbitantes. Sentiu que ficou pobre assim que os encarou.

Adam riu pelo incómodo da esposa com os preços. Kimberly olhava para todas as direções, enquanto mantinha um tom de voz baixo.

Posso pagar facilmente por tudo o que quisermos comer. Adam continuava de olhos na ementa. Diferente do que passei para te ter.

Kimberly corou bruscamente e um sorriso estupido nasceu no seu rosto.

Posso anotar já os pedidos? Uma das empregadas de mesa surgiu, sendo bastante simpática e atenciosa, respondendo às dúvidas sobre a ementa. O seu olhar e sorriso dividia-se entre o casal.

E para beber?

Vinho para os dois…

Um. Kimberly corrigiu Adam, deixando-o confuso. Gostaria apenas de uma água bem gelada.

É tudo? A empregada aguardou a resposta e colocou o bloco e caneta rapidamente no bolso assim que Adam disse “sim”.

Água?! Nem um vinho para festejar o nosso aniversário de casamento? O olhar confuso manteve-se intacto tendo como única resposta um encolher de ombros.

Todas as coisas que o faziam desconfiar por serem estranhas e confusas vinham de há meses. Kimberly ultimamente passava muito do seu tempo livre com Lyanne e com conversas baixas, escondidas por desculpas esfarrapadas assim que Adam aparecia e interrompia as suas conversas.

Devido com o que Kimberly tinha lidado no passado, Adam temeu que fosse a sua depressão a agarrá-la para o seu lado mais emocional e frágil. Desta vez, soube questioná-la calmamente.

Tranquilamente, Kimberly sorriu e garantiu-lhe que não se relacionava nada com depressão, que, inclusive, estava melhor que nunca, passando a ir ao psicólogo apenas uma vez por mês. Adam ficou igualmente preocupado.



Friday, 00:22 a.m., Stalteri’s House, Arizona

Saíram tarde do restaurante. Aproveitaram para comer calmamente, sem se pressionarem pelo trabalho do dia seguinte, seguido, obviamente de muita conversa.

Adam estava sentado na cama a ler à espera que Kimberly saísse da casa de banho e se juntasse a ele, talvez para ver um pouco dos reality-shows toscos que passavam na televisão àquela hora.

Adam? Kimberly roubou toda a sua atenção tendo apenas chamado o seu nome. Estava parada atrás da porta da casa de banho do quarto de ambos, parecia envergonhada e ansiosa pela inquietação da sua perna.

Passou-se alguma coisa? Adam fechou o livro no seu colo.

Sim… Precisamos falar. Kimberly foi aos poucos saindo de trás da porta e sentou-se na beira da cama, perto de Adam. Não sei bem por onde começar, mas… Por favor, mantém a calma.

Kimberly colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, evitando o contacto visual. O discurso da sua esposa assustava-o.

Como assim? É sobre o nosso casamento?  

Sim, envolve o nosso casamento…

Queres-te divorciar de vez? Adam demonstrava todo o seu medo pelo olhar e tom de voz. Tu estás doente?

Não, claro que não quero! Bem, eu não diria doente, mas com uma condição durante um certo período de tempo. Kimberly riu fraco para amenizar o clima e Adam não entendia como ela conseguia rir naquela situação.

Qual é a piada?

Esta é a piada, Adam… Kimberly tirou de dentro de um dos bolsos do seu robe de seda, o que lhe parecia ser, um teste de gravidez.

Adam encarou-a incrédulo e pegou no teste. Teve de olhar para o resultado assinalado duas vezes.

Positivo.

Tu estás…? Adam não conseguia completar a sua pergunta e os seus olhos ficaram embargados.

Kimberly chorava e com um ceno de cabeça confirmou: − Sim! Tu vais ser pai.

Adam pousou o teste na sua mesa-de-cabeceira e abraçou fortemente a sua esposa altamente emocionado e feliz. Kimberly subiu para o seu colo e o seu marido continuava abraçado, agora à altura da sua barriga.

− Era por isso que estavas estranha, te recusavas a beber bebidas alcoólicas e passavas tanto tempo com a Lyanne? – Adam ainda não se tinha convencido que era real.

− Sim. Eu fiquei com um pouco de medo, por nos termos reconciliado à pouco tempo. Fiquei assustada, também.

− Eu vou ser pai. – Adam repetia para si mesmo, num misto de riso e choro. – Como é a sensação? – Adam continuava abraçado à barriga da esposa.

− Que sensação?

− De ter um serzinho dentro de ti?

Continue…

2 comentários:

  1. QUANDO A BICHA NASCE PRA LACRAR, ELA LACRA!
    MANO, JÁ COMEÇOU MARAVILHOSA ESSA FANFIC, MEU AMOR, É ISSO QUE ELA VIROU ♥♥♥
    Cara, você se inspirou nos personagens principais de "E Se Eu Sentasse Na Cadeira Ao Seu Lado?", e nos casal do clipe de If Were A Boy?
    Ficou demais! Já amei, continua pra hojeeee!
    Beijos ♥

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    1. LARA!!!!!! SAUDADE DOS SEUS COMENTÁRIOS ÀS FICS!!! Obrigada!!
      Aahahha exageeeeeeeeero, mas obrigada, espero que essa fic lhe agrade pois tem bastaaaaante coisa pelo meio </3 Será que eles ficam juntos ou é mais um final trágico à la Shakespeare?!
      Okay, eu preciso urgentemente fazer esse post logo, mas vou já adiantar as coisas. Quando a fic "E Se Eu Sentasse Na Cadeira Ao Seu Lado?" não estava com uma história definida eu pensei em variadíssima coisas possíveis, fui anotando e quando achei algo que realmente encaixasse, as outras notas simplesmente ficaram de lado e pensei em transformar em outras fic's. O nome continua o mesmo, o dos protagonistas, porque eu adoro os nomes Adam e Kimberly ♥
      Agora que fala, o casal de If Were a Boy é muito parecido com o casal da fic, obrigada pela observação, pois é uma excelente dica para inspiração de sentimentos!
      Obrigada, linda. Aguarde, pois logo, logo tem mais ♥
      Beijos ♥♥

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